~Legends Hunter~
Capítulo 5
A Mulher Dos Pássaros
Desconhecido
– ??:??
Acordei
em um beco escuro onde se encontravam duas figuras: Um estava caído
no chão e a outra tentava ajudar a levantar. Ambos pareciam estar
sofrendo muito. De repente, uma terceira figura de cabelos longos
surgiu, e puxou a figura que ajudava pela mão, soltando a que estava
caída e a fazendo cair. Quando a figura encostou no chão, o mundo
ao meu redor começou a se desfazer lentamente. Logo, tudo ao meu
redor ficou coberto em escuridão como se um gigantesco buraco negro
tivesse tomado conta de uma hora para outra. Olhei ao meu redor
agitada, mas nada nem ninguém era visível.
–
Ficaremos juntos para sempre. Não esqueça nossa promessa. –
Sussurou uma voz maníaca vinda por trás. Quando me virei,
me deparei com um morto-vivo olhando em meus olhos obsessivamente.
Seu rosto estava coberto de vermes entrando e saindo por enormes
buracos, os olhos estavam podres e vazios, os dentes amarelados,
quebrados e exalando um forte mau-odor. – Nós
ficaremos juntos para sempre – Disse ele continuando a
caminhar mais próximo de mim. – Apenas
nós dois, para sempre!
Tentei
me distanciar daquela figura horrenda, mas meu corpo estava
paralisado. Quando ele aproximou seu rosto do meu, queria gritar, mas
não tinha voz. Não me restou nada além de chorar desesperada e
apavorada enquanto ele beijava minha boca com seus lábios
esverdeados apodrecidos. Então, finalmente acordei.
Casa
da Amy
05:15
30
de Setembro de 2014
Acordei
com o coração acelerado e o rosto molhado de lágrimas. Não
conseguia parar de pensar no pesadelo horrível que tive. Podia
perceber que, a cada dia, os sonhos pioravam cada vez mais e me
deixavam mais confusa. Não entendia seu significado, só podia
pensar em anotar em meu diário. Talvez, quando estivesse mais
tranquila, poderia tentar pensar melhor sobre esse sonho.
Amy
ainda dormia tranquilamente ao meu lado. Sem tentar acorda-la, me
levantei devagar da cama e saí de seu quarto o mais silenciosa
possível. Fui até a cozinha, tomei um copo de água para tentar me
acalmar e tentei esquecer o sonho. Comecei a pensar em apenas tomar
um banho relaxante para tentar relaxar e esquecer. No mais, não
havia tomado banho no dia anterior. Um banho de manhã cedo caíria
bem. Peguei as sacolas de roupas na cozinha e as joguei no sofá da
sala.
Comecei
pela sacola de calças e passei um bom tempo pensando no que usar.
Nenhuma calça estava em boas condições e algumas estavam rasgadas
bem na região das coxas, outras rasgando, outras apertavam demais e
apenas uma estava inteira: Uma calça jeans escura que eu detestava
usar. Apenas usava para sair em ocasiões especiais, mas detestava
como apertava minhas coxas, cintura e tornava minha caminhada algo
impossível. Nunca fui amiga de jeans de todo modo. Era o tipo de
calça que mais detestava e apenas a mantinha em meu guarda-roupas
porque era presente dos meus pais.
Depois
de muito pensar, decidi pegar a calça confortável menos rasgada que
tinha e deixei separada no sofá. Se eu fosse ficar aqui, ao menos
teria o direito de me vestir como gosto. Tenho certeza que Amy não
se importaria.
Agora
precisava encontrar uma camisa que fosse boa. Assim como as calças,
joguei todas no sofá e comecei a pensar sobre. De dez camisas, ao
menos sete eram pretas e o resto coloridas. Coincidentemente, as
coloridas eram curtas e me apertavam, ou seja, eram descartadas
sempre que possível. Novamente, apenas escolhi a mais confortável
que tinha e a separei, deixando junto com a calça. Felizmente, todas
as minhas calcinhas estavam inteiras e eram confortáveis, então
qualquer uma serviria. Finalmente poderia tomar banho e relaxar.
Peguei
as três peças de roupas e levei até o banheiro. Então, percebi
que não havia onde pendurar minhas roupas a não ser na maçaneta da
porta. Mas, então, comecei a dar falta de algo essencial: Toalha.
Agora precisava saber onde Amy guardava as toalhas sem acordar ela.
Acho que nunca tive tanto trabalho só para tomar banho na minha
vida!
Voltei
silenciosamente para o quarto da Amy, evitando pisar na bacia de água
dessa vez. Havia vários lugares para olhar em busca de alguma toalha
limpa: Guarda-roupa, gavetas, gavetas debaixo da cama, gavetas no
armário... Era muita coisa para se olhar. Comecei pelo o que estava
mais perto: Armário.
O
armário ficava de frente com a cama e próximo da porta do quarto.
Lógicamente, parecia ser o lugar mais provável de se guardar
toalhas. Abri a parte espaçosa do armário, mas só havia vestidos e
caixas de sapatos. Logo depois, comecei a olhar as gavetas. Sem sinal
de toalhas, apenas shorts, calcinhas e blusas todas separadas por
gavetas.
Seu
guarda-roupas era um modelo de solteiro, com dois pares de portas. Em
um havia mais caixas, dessa vez, grandes. No outro, havia camisas,
jaquetas diversas roupas. Mas nenhum sinal de toalhas. Só restava as
gavetas da cama.
Tentei
puxar uma das quatro gavetas ao redor de sua cama, mas tive um pouco
de dificuldade. As gavetas estavam com mal-encaixe. Isso só piorava
minha situação, já que teria que fazer força para puxar.
Continuei puxando uma por uma com todo cuidado possível, até que,
depois de muitos lençoís e cobertas, encontrei a gaveta de toalhas.
Estavam do lado direito da cama, exatamente no lado e em baixo de
onde Amy estava dormindo. Isso era muita coincidência para ser
verdade. Parecia que tudo queria me fazer acordar essa garota!
Depois
de toda essa aventura apenas por uma toalha, finalmente pude ir ao
banheiro tomar banho. Uma coisa já tinha certeza: Não seria
relaxante. Estava um pouco incomodada por mexer nas coisas da Amy sem
permissão. Quer dizer, ela fez isso comigo diversas vezes, mas ela é
ela. Eu não sou acostumada a fazer coisas sem permissão. É errado!
Imaginava se ela iria ficar irritada comigo por mexer em,
praticamente, tudo em seu quarto.
–
SAM? SAAAM??? CADÊ VOCÊ??? – Gritou Amy do lado de fora
do banheiro
–
No banheiro – Falei razoavelmente alto. Não queria gritar como
ela, mas também queria que me ouvisse.
–
ONDE???
–
NO BANHEIRO! – Não tinha como. Se ela estava gritando, então
acho que não teria problema em gritar também.
–
Tá tomando banho? Pode ir rápido? Preciso me arrumar!
Eu
havia esquecido completamente que ainda faziamos faculdade! Fazia
tanto tempo que não ia que já nem me lembrava mais. Sem demorar, me
apressei no banho. Adoraria passar uns sete minutos, mas não tinha
essa chance. Logo depois, me enxuguei o mais rápido que pude, me
vesti e saí do banheiro. Amy já me esperava ansiosa o momento em
que eu iria sair. Sem pensar duas vezes, ela entrou no banheiro me
puxando para fora e se trancou. Faculdade deve ser realmente
importante para ela.
05:49
Arrumadas
finalmente, Amy foi para a cozinha fazer o café da manhã. Como ela
não tinha tempo para sair para comprar pão novo, ela pegou a
frigideira no armário, pegou quatro ovos da geladeira e decidiu
adicionar algumas fatias de bacon. Logo depois, colocou água para
ferver. Isso seria um café da manhã bem americano. Não sei se ela
fazia isso apenas por gostar desse tipo de comida ou só queria me
impressionar. Não sou de comer esse tipo de alimento gorduroso, mas
admito que o cheiro estava bom.
–
Você vai pra Faculdade? – Perguntei calmamente apoiada no
balcão da cozinha.
–
Vou. Você vai?
–
Não sei... Ainda não sei se é seguro. Ainda tem meus pais que
devem-
No
mesmo segundo, Amy bateu na pia e soltou um grunhido.
–
EU ESQUECI DAQUELES CORNOS! MAS QUE PORRA!
–
Eu... Eu posso voltar pra casa. Eles te deixariam em paz.
–
Não! Eu não vou... – Sua expressão de raiva mudou para
desconfiança, franzindo a testa e os olhos – Quer
saber? Se quiser ir, vá. Eu não fiz tudo isso só pra você ir
embora, mas se quiser ir, vá. Mas ao menos diga aos seus pais pra me
deixarem em paz!
–
Eu não quero ir, mas também não quero que você vá presa por
minha culpa!
–
Claro que quer. Você passou o dia todo dizendo que queria voltar pra
casa dos seus pais!
–
Mas só porque eu ainda achava errado o que aconteceu lá em casa! Eu
posso aprender a viver com você. Eu gosto de ficar com você e não
quero que algo ruim lhe aconteça por minha culpa.
Amy
ficou pensativa por uns segundos. Mas, antes que ela pudesse concluír
seu raciocínio, os ovos que estavam na frigideira começaram a
estourar óleo, a fazendo dar um pulo para trás com o susto.
Rapidamente, ela pegou a espátula e começou a mexer os ovos para
não grudarem. Por mais que tenha assustado junto com ela, não pude
evitar dar uma discreta risadinha pelo susto que ela tomou.
–
Você não... Você achou graça, sua piranha?! – Falou Amy
enquanto me olhava se segurando para não rir da minha cara de quem
viu a coisa mais engraçada do mundo.
–
Desculpa, mas foi engraçado. Você pulou igual um gato assustado!
–
É, to vendo que você gosta mesmo de mim. Piranha! – Falou
enquanto voltava a mexer os ovos.
–
Vai, continua. Termina seu raciocínio.
–
Você não quer morar aqui? Ao menos aqui você pode ter sua vida e
não viver a vida que os outros te mandam.
–
Não sei... – Falei muito pensativa
–
Pense bem. Posso te ajudar a conseguir um emprego, podemos ir juntas
para a faculdade, passar dias e noites juntas, assistir filmes e até
fazer gravações daqueles roteiros que a gente tanto sonhou em
filmar!
–
… – Continuei pensativa.
–
Mas pense bem. Se você quiser, podemos voltar pra sua casa e
conversamos com seus pais.
–
O que? – Falei espantada com a ideia que poderia dar tanto
errado, como poderia dar certo.
–
Se você decidir, você sabe que terá que fazer isso. Podemos
conversar com eles, pegar suas coisas importantes e trazer pra cá.
Mas claro, isso se seus pais decidirem ouvir. Obviamente, você terá
que falar com eles. Eu só vou dar apoio em caso de emergência.
–
Ah, mas se a GENTE vai conversar com eles, por que EU que vou ter que
abrir a boca?! – Falei indignada com a ideia que, agora, tinha
total certeza que iria dar errado.
–
Porque se eles me virem lá, eles vão suspeitar que eu influenciei a
“filhinha” deles. Ai vão ficar todo tipo: “Ain, aquela lésbica
nojenta ficou influenciando minha garota. Ela corrompeu minha filha,
agora ela gosta de chupar bu-“ – Falou Amy debochando dos meus
pais.
–
Tá, chega. Eu entendi. – Interrompi antes que tivesse que
ouvir mais do que eu queria.
–
Quer dizer, ao menos você nunca deu sinal de gostar de bu-
–
TÁ, JÁ ENTENDI!
–
Enfim, tá pronto.
Amy
abriu o armário de pratos e pegou dois pratos de vidro rasos,
deixando um perto de mim e outro perto dela. Logo depois, colocou os
ovos semi-mexidos no meu prato e uma fatia de bacon, fazendo o mesmo
no dela. Antes de comer, ela pegou a água quente e começou a coar o
café. Assim que ficou pronto, ela separou xícaras e colocou metade
para cada uma e pegou uma caixa de leite na geladeira, mas apenas
colocou para ela.
–
Posso colocar leite? – Ela perguntou enquanto eu já estava
levando pedaços de ovos à boca em uma única garfada. Apenas
balancei a cabeça em concordância.
Assim
que ela colocou leite na xícara, comi pedaços do ovos de uma vez.
Um arrependimento, pois os ovos estavam muito salgados! Eu nem sequer
havia visto ela colocando sal! Sem pensar duas vezes, peguei a xícara
com café com leite e mandei para dentro, o que se tornou outro
arrependimento, pois o café estava sem açúcar.
–
Calma garota! Eu nem coloquei açúcar! – Amy falou rindo da
minha desgraça.
09:01
Depois
de comer os ovos de destruíção arterial da Amy como café da
manhã, passei a manhã assistindo TV, enquanto esperava Amy pegar as
cartas na entrada do prédio. Iriamos ir visitar meus pais ao
meio-dia, já que meus pais não estariam em casa até esse horário.
Havia decidido que iria morar com Amy de agora em diante. Por mais
que iria achar estranho morar com minha melhor amiga, talvez fosse
bom. Estaria em boa companhia, iria aprender coisas que meus pais
nunca quiseram me ensinar, teria alguém para me animar quando
estivesse em dias ruins e sem falar da enérgia maravilhosa que tinha
em seu apartamento. Seria uma experiência totalmente nova. No mais,
seria igual nos filmes! Amy era minha colega de quarto da faculdade!
–
Amore, tá afim de sair? – Disse
Amy abrindo a porta sem nem entrar em seu apartamento.
– Mas meus pais ainda não
vão estar em casa!
–
O que?... – Amy disse
pensativa – Ah, não.
Quero que seu pais se danem. Recebi uma carta da Heather, me convidou
para ir visitar ela.
– Bem, ela te convidou, não
eu. Não sou bem-vinda lá.
–
Para de ser idiota – Falou
com apertando os olhos e levemente irritada. – Você
não pode ficar aqui sozinha. No mais, seria bom você conhecer uma
pessoa nova. Vocês vão se dar bem. Eu juro!
–
Hm... Você tem certeza? –
Falei pensativa – Não
quero chegar lá e descobrir que estou atrapalhando.
– Acredite, vocês vão se
dar bem. Ela é até um pouco parecida com você.
Então
nós não vamos nos dar bem, com toda certeza!
Me
encostei no sofá, respirei profundamente e suspirei conformada. Por
mais que eu não quisesse ir, não tinha muita escolha. Ontem já foi
um dia muito estranho só por estar no apartamento da Amy e ela não
estar aqui. Não quero repetir isso de novo. Me vi obrigada a ir
junto na casa dessa tal de Heather.
– Ah... certo, eu vou junto.
–
Obrigada! Lhe garanto que não vai se decepcionar! – Falou
Amy mais animada do que deveria.
Peguei
minhas meias e botas e as calçei. Felizmente, já havia vestido
minhas melhores roupas, então não tinha muito com o que me
preocupar. Apenas peguei meu celular e partimos a caminho da casa da
Heather. O que eu não esperava é que teriamos que seguir um MAPA
até a casa dessa garota!
Arredores
da Cidade
10:54
Estavamos
no meio do nada. Por algum diabos de motivo, essa garota morava
dentro de uma floresta nos arredores da cidade. Não só tivemos que
pegar um ônibus em direção ao lado leste da cidade como também
andar por vinte minutos em uma estrada de terra até chegar em uma
trilha que dava para o interior de uma floresta. Essa garota tava
fugindo da polícia também?!
–
Agora sei porque ela nunca mais apareceu por lá. Olha o caminho que
ela tem que andar pra chegar na cidade! – Falou Amy já
arfando.
– Eu já fiquei preocupada só
de ver que ela fez um mapa. Quem que faz um mapa só pra chegar na
sua casa!? – Falei arfando e com os pés doendo.
– Ao menos estamos chegando.
Só precisamos achar a clareira que ela citou na carta.
Não via a hora de chegar e,
talvez, poder sentar e descansar meus pés. Ficar pisando em pedras
destruiu meus pés e não conseguia ignorar a dor a cada passo que eu
dava. Levamos mais dez minutos caminhando pela trilha de terra e
desviando de insetos no caminho até, finalmente chegarmos na
clareira. Podiamos ver sua casa logo de cara. Por mais cansada que
estivesse, o sentimento que a paísagem me trouxe foi de paz.
– Então... é aqui que ela
mora??? – Falei arfando, mas com um enorme sorriso no rosto e
felicidade na voz.
– Agora entendo porque ela
nunca voltou. Esse lugar é maravilhoso!
Sua casa era localizada no
centro de uma clareira com visão para um vasto pasto amarelado que
conectava com o outro lado da floresta. Sua casa em si, era uma casa
de madeira pintada de branco cheia de plantas e flores, algumas em
potes e outras crescendo ao redor da casa, algumas até estavam
penduradas no teto. Tudo ao seu redor era natural e colorido. E o
melhor, não havia pessoas por perto! Ela devia viver uma enorme paz
por aqui, uma paz tão grande que era impossivel alguma enérgia
negativa entrar.
Por
um momento, enquanto caminhavamos em direção à sua casa, não pude
deixar de imaginar como deveria ser essa “Heather”. Pelo local
que ela morava, ela deveria ser uma mulher feliz, que veste vestidos
longos e coloridos, dançando pelos campos como uma finlandesa
conectada com a natureza. De repente, Amy parou na frente da casa e
gritou seu nome. Alguns segundos depois, a porta se abriu...
– Oh, Amy. Você veio! E
trouxe... quem é você? – Heather falou levemente nervosa com
minha presença.
Ela
não era NADA como pensei, mas exatamente como Amy falou. Ela era
ridiculamente parecida comigo. Magra, alta, cabelos negros e
completamente bagunçados, pele quase pálida e usava apenas roupas
pretas. O contraste dela com o ambiente ao seu redor era ridículo!
–
Oh, essa é Samantha, minha amiga da faculdade que eu te falei um
tempo atrás. – Amy
disse apontando sua mão na minha direção.
–
Oi. – Falei
timidamente e sem saber o que fazer.
Poderia
ser apenas impressão minha, mas Heather me olhou de cima para baixo
diversas vezes, me analisando como um scanner.
–
Oi. Entrem. – Ela
disse com um tom frio em sua voz, se virando e entrando em sua casa.
Ao menos fomos aceitas.
Assim
que entramos em sua casa, não pude deixar de ignorar os constantes e
ensurdecedores cantos de vários pássaros diferentes. Devia ter,
pelo menos, uns dez pássaros em sua casa. Logo no primeiro cômodo
da casa, a sala, já conseguia ver três pássaros engaiolados com as
gaiolas pendurados na parede.
A
casa em seu interior não era tão chamativa e impressionante com seu
exterior. A sala era relativamente espaçosa, cabendo um sofá, uma
estante, uma mesa de trabalho e os três pássaros, sobrando espaço
para vasos de plantas que estavam no chão. A cozinha ficava logo
depois da sala e tinha exatamente o mesmo tamanho. Tinha um armário
de madeira simples no canto direito e uma mesa de jantar de madeira
encostada na parede. No outro lado da cozinha ficava a geladeira e a
pia, nada mais. Logo em frente, em um curto corredor, havia dois
quartos e um banheiro. O primeiro quarto devia ser quarto apenas para
os pássaros, pois não havia mais nada além de gaiola de pássaros
e uma mesa cheia de penas. O próximo quarto ficava de frente com o
banheiro e esse devia ser o quarto da Heather. Havia posters de
mulheres, maioria atrizes de cinema e alguns posters de jogos e
bandas de metal. Porém, assim como a Amy, ela também mantinha seu
quarto bem enfeitado, arrumado e protegido com uma bacia com água.
Heather e Amy com certeza passaram tempo juntas e dava para notar
isso.
Enquanto
explorava sua casa, pude sentir um pouco de energia negativa ao meu
redor, forte o suficiente para me deixar com um leve desconforto.
Antes que pudesse acontecer algo, decidi voltar para a sala e ficar
com as garotas lá mesmo. Me sentei ao lado da Amy e fiquei apenas
observando elas conversarem. Seria o melhor a se fazer.
–
Como tem ido a vida? Estava morrendo de saudade de você, garota!
–
Tá... indo. Estou me virando do jeito que posso. Infelizmente, ainda
não consegui me resolver e duvido que vou conseguir. Não é seguro
voltar.
–
Você ainda continua sentindo aquelas energias?
–
Elas nunca vão embora. Mesmo morando aqui, ainda sinto muitas
energias ruins. Acredito que estou sendo perseguida por espiritos.
–
Ah... isso é uma droga. Esperava tanto que pudesse voltar pra lá.
Eu e a Sam estamos morando lá agora. Seria legal ter você por lá.
–
Estamos? – Falei confusa com a afirmação da Amy
–
Q-quero dizer, se ela quiser, estaremos morando no mesmo apartamento.
– Amy se corrigiu, nervosa.
–
Isso é bom. Você passa muito tempo sozinha por lá.
–
O que posso fazer? É a vida. – Falou Amy conformada.
–
E você? Fala um pouco de você. – Falou Heather olhando em
minha direção.
–
Não se incomode comigo. Podem continuar conversando. – Falei
tentando desviar meu olhar.
–
Mas eu quero saber sobre você.
–
Eu sou amiga da faculdade da Amy. Não tenho nada mais de
interessante.
Pude
notar os olhos da Heather virando em direção à Amy e voltando a
atenção para mim. Eu não queria contar quem sou, não via motivo
para tentar fazer amizade com alguém que parecia estar bem estando
apenas com Amy. De repente, pude sentir minha cabeça doendo e uma
sensação de tontura. Tentei me manter o mais discreta possível
mesmo assim. Apenas me encostei no sofá e tentei relaxar.
–
Samantha? Você não parece tão bem. Quer um copo de água? –
Perguntou Heather, já se levantando do sofá.
–
Aceito... – Falei com a voz um pouco fraca.
Enquanto
Heather foi para a cozinha, fiquei no sofá com a Amy. Por algum
motivo, esse incomodo estava só piorando. De um pequeno incomodo ao
redor do corpo, estava virando dor de cabeça. De dor de cabeça,
estava virando tontura. E de tontura estava virando uma enorme
pressão e dor no corpo todo. As enérgias da casa estava me
destruíndo! Podia sentir que, logo logo, iria desmaiar como na outra
vez na faculdade.
–
Sam? Você tá bem? – Perguntou Amy sussurando.
–
Não. Estou me sentindo como naquele dia da faculdade.
–
Quer ir tomar um ar? Ficar lá fora?
–
Preciso agora!
Amy
me ajudou a levantar do sofá, mas, de repente, assim que me
levantei, pude ouvir o som de vidro se quebrando no chão da cozinha.
Rapidamente, Amy colocou de volta no sofá e correu para ver o que
havia acontecido.
–
HEATHER!!! AI MEU DEUS! – Amy gritou em desespero.
–
NÃO, ME DEIXA! – Gritou Heather, mas não tinha visão dela.
Pude ver Amy se afastando da
cozinha lentamente. Ela estava claramente assustada. Rapidamente, ela
voltou até mim, me levantou do sofá novamente e me ajudou a andar
até a varanda, onde pude me sentar na escada. Sem perder tempo, ela
voltou para dentro da casa para tentar ajudar Heather. Estava me
sentindo mal, muito mal e por vários motivos. Não entendia o por
que desse excesso de negatividade. A casa, as decorações, o local.
Tudo desse lugar era perfeito para manter uma enérgia positiva, algo
agradável, mas ainda sim estavamos sendo atacas por enérgias ruins.
Não sabia seu estava causando essas interferências ou se ele estava
me seguindo. Desde o momento que saí do apartamento, aquela enérgia
boa que estava sentindo sumiu e o antigo desconforto voltou. Tinha
certeza que ele havia nos seguido novamente e estava zangado. Aquele
sonho devia ter sido um sínal.
Levou
por volta de meia-hora para nós duas voltarmos ao normal, ao menos
em um nível mais aturável. Havia decidido ficar do lado de fora por
um tempo e deixar Amy e Heather conversando. Como a porta ainda
estava aberta, podia ver as duas na sala. Heather havia cortado a mão
com os vídros do copo e já havia feito um curativo. De repente,
pude ve-la vindo em minha direção. Só podia esperar que Amy não
tivesse falado mais do que devia.
–
Samantha, podemos conversar a sós?
–
Podemos... eu acho.
–
Ótim-
De
repente, os pássaros da Heather começaram a cantar mais alto que o
comum no quarto dos fundos.
–
Pode me acompanhar? Preciso cuidar dos meus pássaros.
–
Ah... claro.
Enquanto
Heather já se dirigia até os fundos da casa, eu me levantei o mais
lentamente possível, apenas tentando evitar cair por tontura. Assim
que consegui, fui até a sala parei perto da Amy.
–
Você contou alguma coisa pra ela? – Sussurei
–
Contei tudo. Cada detalhe.
–
Por que? – Sussutei tentando não gritar de raiva enquanto
olhava quase espremendo os olhos.
–
Ela vai te ajudar a se livrar dele. Vai falar com ela, não a deixe
esperando.
Saí
da sala ainda com expressão de raiva. Não conseguia acreditar que
Amy fosse tão boca-aberta! Mesmo incomodada, continuei indo até o
quarto dos fundos, onde encontrei Heather sentada em um banquinho
cuidando de um ferimento de seu pássarinho.
–
Feche a porta.
Sem
questionar, apenas fechei a porta e me sentei em uma cadeira de
madeira próximo da porta.
–
Sabe, essa casa não foi construída por mim. Estava aqui,
abandonada. Era uma casa realmente antiga. Consegui reformar com o
que eu encontrava por ai ou comprando materiais. Trabalhar como
técnico e programadora me ajudou bastante para conseguir dinheiro.
Se eu tivesse saído de casa sem ter como me sustentar, com certeza
estaria na rua. Lógico, se não fosse pela Amy, não teriamos como
alugar aquele apartamento. Ainda assim, nem sempre a vida vai ser do
jeito que você quer... – Disse Heather enquanto cuidava de um
ferimento na asa do seu pássaro, o colocando na gaiola logo em
seguida.
–
Sim, mas onde quer chegar? – Perguntei tentando buscar uma
lógica nessa conversa.
–
…nossas conquistas e ganhos não são o suficiente para nos
trazer felicidade. – Falou enquanto pegava um rolo de fita
adesiva na gaveta da mesa. – Nós, humanos, sempre desejamos
por mais. Pensamos em caminhos alternativos e pensamos nos caminhos
que não tomamos. Por mais que eu tivesse conseguido minha
independência de certo modo, ainda estava insatisfeita, continuava
infeliz. – Falou enquanto tentava remendar o pedaço da grade da
gaiola que havia quebrado. – Ainda não estava satisfeita, pois
me faltava algo importante para mim, algo que nunca tive.
–
E o que seria?
–
Meus pais nunca foram os mais amorosos. Eram superprotetores, queriam
que eu seguisse o caminho que eles achavam ser o melhor. Obviamente,
desviei do caminho deles. Tomei decisões que... não foram legai. Me
distanciei deles, nunca fui a filha preferida deles. Quando saí de
casa, achava estar livre da pressão que estava sentindo ali, mas a
falta do amor que eles nunca me deram persiste até hoje. Eu nunca
senti amor, nunca me senti amada. A falta do amor e o julgamento de
seus pais são poderosos o bastante para quebrar sua filha. Eles me
quebraram em um nível impossível de se reparar.
–
Então lhe faltava amor?
Heather
confirmou acenando com a cabeça enquanto guardava a fita na mesa.
–
Me faltava amor familiar, faltava amizades, faltava um amor
reciproco. Sempre fui isolada desde pequena. Aprendi a suspeitar das
pessoas, perdi minha confiança na sociedade. Mesmo com Amy, ainda
não me sentia segura.
–
Mas Amy nunca faria nada de ruim.
–
Sim, ela não faria. Ela nunca fez. Mesmo sendo brincalhona, ela
nunca me machucou, nunca me magoou, nunca foi além de onde deveria.
De todas as pessoas que convivi, ela foi a única que me respeitou e
amou como sou.
–
Então por que saiu de lá?
–
...Ela...ela não me merecia. Mesmo estando com ela, meus pensamentos
negativos focavam no que eu nunca tive, focavam em uma dor
sentimental que prejudicava pessoas ao meu redor. Amy não merecia
isso. Ela já tem os problemas dela e não precisava de mais uma.
Então, tomei essa decisão difícil de sair e morar aqui, nessa
casa.
–
Não parece ter sido tão difícil.
Heather
arregalou os olhos e olhou com raiva para mim.
–
Você esteve lá? Você estava sentindo o que eu senti? Você
estava pensando o que eu pensei?
–
Não.
–
Então como você já pode deduzir como foi?
–
Desculpa, é que-
–
Você julga demais e já percebi no momento que você apareceu na
porta. Se quiser que eu te ajude, vai ter que deixar essa mentalidade
egoísta de lado!
–
...certo... – Falei com a cabeça baixa, apenas tentando evitar
brigar com ela. – Mas quero entender qual o sentido de toda
essa história.
Heather
se acalmou e se ajeitou no banco antes de voltar a falar.
–
Todos nós temos nossa história. Eu tenho a minha, você tem a
sua e Amy tem a dela, mas o que passamos não nos torna mais
“coitada” que a outra. Por mais que eu tenha me destruído por
falta de amor, eu reconheço meus erros e tento compensar pensando em
melhorar no futuro. Aprendi a viver sozinha, amando eu mesma.
Descobri que, sem amor próprio, não há como receber amor. Você,
por outro lado, se deixou ser acorrentada.
–
Acorrentada?
–
Você se prendeu a uma memória, a um passado que é destinado a ser
apenas passado. O espirito do seu namorado não te assombra por ser
algo negativo, ele te assombra pois você não o deixa partir.
–
...o-o que?
–
Você se deixou ser derrubada por algo inevitável. A morte de uma
pessoa amada não é fácil de se suportar, mas você parou sua vida
por isso. Essa fraqueza exposta faz com que seu namorado ainda viva
através de você. Ele vive absorvendo sua energia, sua felicidade.
Enquanto você persistir em ser assim, pior vai ser. Você não vai
aguentar o peso de um espirito te consumindo. E, por você ser
sensitiva, tudo isso será duas vezes pior.
–
M-mas... mas isso não faz sentido! Eu nunca havia sentido isso
antes!
–
Porque você nunca havia perdido alguém antes. A morte dele
despertou um medo em você. Você tem medo da morte, ainda mais medo
de perder quem você ama. Você está desesperada em acabar com essa
dor da perda e amedrontada em ter que suportar isso novamente.
Heather
se levantou do banquinho, pegou a gaiola do seu pássaro e o colocou
perto da janela.
–
Sabia todos esses pássaros são selvagens? Eu os adotei pouco a
pouco depois que me mudei pra cá. Alguns voavam e paravam na minha
varanda. Sempre dava um pouco de comida para eles e eles iam embora,
livres no céu. Alguns desses batiam em árvores e ficavam aguardando
o momento de sua morte. Eu os resgatei e cuidei até que pudessem
ficar melhor e voltar a voar.
–
Por que você tem tantas gaiolas?
–
Por que?... Porque eu me apeguei a eles. A natureza é hostíl, mas
ela não está contra nós e nem a nosso favor. Isso vale para
qualquer ser vivo. – Falou olhando para mim e apontando. –
Tenho medo de que esses pássaros voem e esse voô seja o último
da vida deles. Me apeguei a eles, fiquei dependente deles. Mas, no
fim, nós dependemos um do outro. Engaiolados, eles não tem como
buscar comida, buscar água. Eu dou comida, água e amor para eles,
enquanto eles retribuem sendo uma criação perfeita da natureza e me
dando um motivo para continuar. Mas... e se eu abrir essa gaiola? –
Heather falou abrindo a portinha lentamente. – Esse pássaro
vai voar ou vai ficar? E se ele voar, será que um dia ele vai
voltar? Se ele não voltar, eu devo ficar triste ou feliz por
deixa-lo ir e ter sua liberdade como um ser livre? – Falou
enquanto o pássaro ferido saltava indo em direção à mão de
Heather. – A vida é isso. Não podemos prender pessoas a nós.
Há quem nos queira por perto e quem devemos deixar partir. Nesse
caso, eu os coloquei em uma situação de dependência naqual eu
posso desfazer.
“Prometo
nunca te abandonar. Nunca!” Essa era nossa promessa... Estou
prendendo Folger inconscientemente??? Como eu vou deixa-lo ir?
–
Acho... Acho que estou entendendo o que quer dizer...
–
Que bom. Me alegra não ter gasto saliva a toa.
–
Mas eu só tenho uma dúvida...
–
Diga.
–
Como vou fazer para... quebrar... essa corrente?
Heather
acariciou a cabeça do pássaro e o colocou de volta a sua gaiola.
–
Basta se amar. Enquanto você puder se amar, se valorizar e aceitar
quem você é, você vai mostrar que sua alma não é fonte de
energia para um espirito. Assim, ele não terá nenhuma opção além
de partir. Lógico, ainda existem mágias, orações e enfeites, mas
a base de tudo é ter amor.
–
Ah... Isso não parece tão fácil...
–
Porque você está fraca, fragil. Acredite no poder de seu coração,
pois consigo enxergar uma pessoa forte e determinada por trás desse
rosto cansado. Não se esqueça: você não está sozinha.
–
Bem... obrigada. Mas tenho só mais uma pergunta...
–
Diga.
–
Por que...?
–
Por que o que? – Heather me olhou confusa
–
Por que você tá me ajudando?
–
Eu preciso de motivo para ajudar alguém? – Disse Heather
enquanto me olhava com um sorriso no rosto. – A nossa sociedade
cresceu com a ideia de que devemos ajudar em troca de recompensas.
Esquecemos que nós somos animais de uma única espécie, nos
separando por etnia, cor e fisionomia, quando somos apenas humanos.
Ajudar não é um serviço, apenas um ato de humanidade.
Heather
ficou de pé me encarando.
–
E já é quase meio-dia. Preciso fazer o almoço. Se me der
licensa... – Falou Heather enquanto já saia do quarto e indo em
direção à cozinha.
–
Bem... obrigada. – Falei sozinha enquanto me levantava e ia em
direção à sala.
Ficamos
na casa da Heather por mais algumas horas depois do almoço. Ficamos
conversando sobre coisas aleatórias, deixando elas conversarem mais
e me envolver menos, mas tentei começar a ser um pouco mais positiva
com elas. Não fazia ideia se isso iria funcionar, mas era um começo.
Felizmente, aquele infeliz incidente que havia acontecido não voltou
a acontecer.
Assim
que percebemos que já era quase quatro horas da tarde, decidimos que
era melhor voltar para o apartamento. Iria escurecer e ainda teriamos
que atravessar uma floresta. Saímos de sua casa e ela nos acompanhou
até a estrada.
–
Obrigada por nos convidar. Eu estava morrendo de saudades de
você! – Disse Amy abraçando Heather.
–
Eu que agradeço. Estava sentindo falta de uma companhia amigável.
–
Obrigada por me ajudar. Desculpa por se causei algum tipo de
incomodo. – Falei timida.
–
Não se preocupe. Se um dia quiser vir aqui de novo, você é
bem-vinda. Apenas faça o que eu te falei. Acredito que vai conseguir
melhorar.
Não
consegui dizer nada, apenas responder com um sorriso e um aceno
positivo com a cabeça. Amy e Heather se soltaram e começamos a
andar em direção ao ponto de ônibus.
–
Se cuidem! Espero vê-las algum outro dia! – Gritou Heather
acenando para nós.
–
Aguardo ansiosa por esse dia! – Gritou Amy fazendo o mesmo.
Não
demorou até nosso ônibus aparecer. Amy entrou primeiro e fui logo
atrás. Felizmente, estava vazio, o que significa que seria uma
viagem tranquila. Amy pagou as nossas passagens e atravessamos a
catraca. Como entrei primeiro, pude escolher um assento. Peguei o
assento da janela na última fileira. Gostava de observar a paísagem
pela janela em viagens.
–
Então, o que você achou dela? – Perguntou Amy enquanto
guardava o dinheiro na carteira.
–
Ela é... legal. – Falei encostada na janela e apoiando meu
rosto no ombro.
–
Só isso?
–
Ela é... interessante.
–
Sua expressividade é contagiante.
–
Quero dizer, eu gostei dela. Apenas não absorvi ainda o fato de que
a conheci.
–
Entendo. Você só quer relaxar, né?
–
Se possível.
–
Certo. Descanse. A viagem vai ser demorada.
A
verdade é que ela é a pessoa mais inspiradora que eu já conheci. A
forma que ela pensa, a vida que ela viveu, as suas decisões... Ela é
totalmente diferente de qualquer pessoa que já conheci. No fundo,
gostaria de passar mais tempo com ela, mas sabia que ela não é a
pessoa mais paciênte e isso era claro. Talvez, algum dia, iriamos
nos encontrar novamente. Mas sabia que isso iria demorar assim como a
viagem de volta para casa. Sem perceber, já havia caído no sono
dentro do ônibus. Agora era só questão de tempo.
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