Senta que lá vem história
Aviso: Essa é uma história real, sendo a MINHA experiência com os eventos Up!ABC de 2014 e 2018. Também, como ainda não havia me aceitado como mulher-trans, estarei descrevendo os fatos no sentido MASCULINO!
Up!ABC comemora 15 anos de eventos com mais um evento em Abril, no dia 18 e 19. Algo muito bacana, já que não fazia ideia da existência disso até 2014. Por que não comemorar esse aniversário contando um pouco da MINHA experiência com os eventos?
Evento de 2014
Em
2014, eu e uma amiga (Francielle, que também já fez parte do blog)
fomos ao Up!ABC 2014 (Caça ao Tesouro, se não me engano). Como esse
era o meu PRIMEIRO evento de anime que eu iria ir, estava nervoso e
confuso. Saímos de Ribeirão Pires e fomos para Santo André. De lá,
pegamos a van que nos levou até o evento, como combinado. Chegando
lá, encontramos mais algumas amigas que temos em comum e outras
pessoas que elas conheciam. Dali em diante, coisas aconteceram.
O
evento em si era como qualquer evento de anime: Grande, cheio de
gente com cosplay e vários lugares para comer e jogar. Passamos as
primeiras horas do evento andando pelo prédio, olhando o lugar,
tirando fotos (Pelo menos ELAS estavam) e depois fomos comer. Havia
muitas salas de jogos mas, infelizmente, não me sentia confortável
o suficiente para jogar. Nada realmente relevante aconteceu esse ano,
mas vale a pena citar por motivos comparativos. A única parte ruim
do evento foi a ansiedade que estava me atacando ali. Pois estava em
um lugar desconhecido, cheio de gente que não conheço e com
temática que eu NÃO era totalmente ligada. Sem falar que, como
essas amigas eram os únicos rostos conhecidos dali, raramente me
distanciava delas. Foi uma primeira impressão esquisita, o que me
deixou bem distante por 4 anos.
O
Evento de 2018
Em
2018, eu já estava decidido que não iria em eventos de animes. Não
era meu lugar, não me sentia confortável em eventos e já havia
entendido isso. Porém, nesse ano, uma amiga insistiu que eu e mais
um grupo fossemos ao evento. Enquanto elas já estavam querendo, eu
ainda estava bem relutante. Depois de um tempo, acabei concordando.
Olhei no site e nas páginas do Facebook sobre o evento e o que teria
lá e acabei concordando em ir. Comprei o ingresso antecipado, deixei
esse dia em especifico livre e o grupo já havia CONFIRMADO que iria
ir. ÓTIMO!
No
dia, eu apenas tinha dinheiro para passagem de ida, comida e volta.
SÓ! (Nessa época, ainda não estava trabalhando. Quando cheguei em
Santo André como instruído pelo site, fiquei na entrada da estação
aguardando pela Van que iria buscar quem fosse para o evento.
Aguardei 1 HORA ali, esperando a tal Van e nada apareceu. Como eu
ainda não sabia a direção para chegar lá e muito menos sabia que
a Estação Utinga parava na FRENTE do prédio do evento, tive que
dar meu jeito de chegar lá e não fazer os 30 reais que gastei no
ingresso fosse gasto em vão.
Ao
lado da estação havia um posto policial. Perguntei para eles se
eles sabiam onde ficava a Universidade Anhanguera. Eles me deram a
direção exatamente para a Universidade... Mas deram para a
Universidade ERRADA! Saí da estação e fui direto para o centro de
Santo André, onde encontrei o prédio que eu já sabia que era o
errado. Como a merda já tava feita, precisava voltar para a estação.
Tecnicamente, era só voltar pelo mesmo caminho que fui, correto?
Sim. Uma pena que meu senso de direção me falhou nesse dia, pois me
perdi completamente no centro. Assim começou jornada para voltar
para a estação de trem.
Enquanto
procurava o caminho de volta, comecei a pedir informações para quem
podia. Nessa brincadeira, encontrei uma moradora de rua que não
sabia o caminho para a estação, mas sabia a história e origem de
navios da marinha; Uma palhaça de rua que estava com raiva do
governo e o quão injusto é o Brasil. Então, finalmente encontrei a
estação.
Quando
FINALMENTE encontrei a estação, descobri que, atrás do ingresso,
havia o endereço EXATO de onde era o lugar. Preciso nem dizer o quão
estupido estava me sentindo, certo? (E isso era só a ponta do
iceberg). Dali, comecei a minha jornada pelo VERDADEIRO prédio do
evento. E isso me levou para a maior caminhada que já tive em minha
vida: Da Estação Santo André até Utinga.
Novamente,
segui caminho perguntando a direção para pessoas na rua. Muitas não
sabiam onde era, outras sabiam que era só seguir reto pela estrada.
Mas, no geral, todas me pediam para pegar um trem e ir até Utinga.
Como não tinha dinheiro para pegar trem novamente, tive que seguir o
caminho a pé.
Nessa jornada encontrei vários tipos de pessoas, incluíndo duas
travestis super gente boa que até fiz um pouco de amizade.
Infelizmente, elas também não sabiam a direção (Mas se vestiam
muito bem). Eventualmente, comecei a encontrar mais pessoas que
sabiam o caminho exato. Estava chegando perto!
Depois
de quase duas ou três horas de caminhada, eu já não estava mais
aguentando. O sol estava quente, não estava aguentando o calor e
meus pés estavam me matando. Em certo ponto, já não estava mais
nem conseguindo ficar de pé direito. Depois de tanto descer e subir
rua, errar caminhos e ter que parar pessoas estranhas na rua, tive
que parar para descansar, nem que tivesse que sentar na rua mesmo.
Nesse momento, tirei a blusa que estava usando, me sentei na calçada
e parei para descansar e respirar. Quando finalmente consegui um
pouco mais de folego para continuar, encontrei um barzinho que
parecia que estava ali apenas para me salvar. Com peso na consciência
em ter que gastar parte do dinheiro da comida, comprei um picolé, o
mais barato possível e uma garrafinha de água. Com isso, pude
recuperar um pouco das minhas energias e descansar. De certo modo, eu
me arrependi dessa escolha, pois, depois de mais alguns minutos
andando, finalmente encontrei o prédio do evento. O alivio que senti
é indiscritível. Apenas queria entrar e encontrar minhas amigas.
Assim
que entrei no evento, já notei logo de cara que as coisas mudaram
bastante de 2014 para 2018, mas, por algum motivo, sentia que havia
MENOS salas e atrações que 2014, o que me deixou bem incomodada.
Mas havia acabado de entrar no evento, então podia ser só
impressão. Continuei andando pelo evento procurando minhas amigas
até que, finalmente, encontrei UMA delas e ela estava acompanhada de
gente que eu não me misturava, gente que eu realmente detestava.
Quando pergunte a ela onde as outras estavam, imagine minha raiva e
surpresa ao ouvir que ela foi a ÚNICA que estava no evento. Não
apenas havia me matado para ir em um evento que não estava afim, mas
também as pessoas que eram o motivo de ter ido não foram e a única
que foi iria ficar acompanhada de gente que detesto.
O
resto do evento foi pura lástima. As atrações não eram
interessantes. As comidas eram caras, os jogos que haviam disponíveis
não me interessavam e os jogos que disseram que iria ter não
tinham. Todo o evento e a situação em si me deixou num estado
miserável. Para piorar a situação, comecei a passar mal no evento.
Pensei que fosse fome, pois havia passado muito tempo andando e não
havia comido nada significativo. Com o pouco de dinheiro que eu
tinha, comprei um pacote de batatas chips e uma coca pequena,
sobrando dinheiro apenas para as passagens de volta. Mas, mesmo
depois de comer, ainda estava passando mal. O que era um pequeno mal
estar virou uma dor insuportável pelo corpo, dores estomacais e uma
dor angustiante nas pernas. Para piorar a situação, aquela única
amiga sumiu completamente do evento. Não importa o quanto eu
andasse, não a encontrava de jeito nenhum. Eventualmente, desisti
completamente do evento e fui embora, seguindo caminho o mesmo
caminho que fiz para chegar.
Dessa
vez, eu já sabia o caminho que devia tomar, mas o que eu havia
esquecido é que havia estações de trem próximas, que facilitariam
muito minha vida. Andei todo o caminho de volta, fazendo mais pausas
para descansar que o normal, já que estava completamente frágil de
tanta dor.
Depois
de tanto sofrimento (desnecessário), finalmente peguei o trem de
volta para Ribeirão Pires, peguei o ónibus de volta para casa e
ainda tive que andar mais 20 minutos. Quando finalmente cheguei,
tomei uma garrafa de água e pude descansar finalmente. Infelizmente,
depois desse dia, passei 15 dias de cama sofrendo de uma dor horrível
que não esperava sentir. Desde então, decidi nunca mais ir em um
evento nem que me arrastem. Obviamente, toda vez que vejo algo da
Up!ABC eu tenho flashbacks do vietnam.
Tudo
isso foi horrível. A perda de dinheiro, a falta de comprometimento
das minhas amigas, a falta de informação e atualização dos sites
e páginas, mas também tudo por minha culpa por não ter pesquisado
uma rota mais rápida e fácil de ir até o local. Hoje em dia eu
trabalho como entregadora e tenho meu dinheiro, mas a vontade de ir em eventos morreu
completamente. Sem falar que eu fico levemente engatilhada quando vejo aquele prédio laranja toda vez que passo por Utinga.
E
essa é minha história. Absolutamente irrelevante, desnecessária e
totalmente fora dos meu planos, mas é algo que achei interessante de
públicar. Afinal, pessoas gostam de ver idiotas se fodendo. Se há
uma história que levarei pelo resto da minha vida, essa com certeza
é a história.
Vejo
vocês na próxima postagem!
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