Capítulo 4
Longe de Casa
Casa
da Amy
14:20
29
de Setembro de 2014
Haviamos
chegado na casa da Amy, um pequeno apartamento no segundo andar com
dois quartos, uma cozinha logo na entrada junto da sala e um banheiro
no entre os quartos. Para minha surpresa, seu apartamento era bem
limpo e ordenado. Considerando sua personalidade, imaginava um
cenário pós-apocalíptico.
- Lar doce lar! – Disse Amy entrando e abrindo os braços como se estivesse apresentando algo impressionante.
- Uau... não... não era assim que imaginei. – Falei surpresa, mas com a voz desanimada.
Caminhei
um pouco pela cozinha e sala olhando ao redor. Seu sofá era um sofá
de madeira com as almofadas um pouco rasgadas, mas ao menos ela
tentava manter limpo. Em frente, havia uma TV de tubo em cima de uma
estante de madeira. A TV havia alguns arranhões no vidro, mas
parecia funcional. Em baixo, havia um receptor de TV digital. Já
sabia que eu não poderia ver desenhos por aqui.
- Não me incomodo, mas... não quero te magoar, mas não quero ficar aqui.
- Por que não?
- Essa não é minha casa. Eu quero voltar para a minha casa.
- Com seus pais?
- Bem, sim. Eu sei que eles não são perfeitos, mas-
- Perfeição está longe deles.
- Mas eles são meus pais! – Gritei
- Seus pais são uns doentes! – Gritou Amy. – Como você ainda consegue defender eles?! Eles são homofóbicos, são agressivos e pouco se importam com você! Te tirei da rua no dia que você desmaiou e me trataram como lixo! Estava cuidando de você e eles ainda acharam ruim. Agora, você não faz NADA e ainda apanha sendo inocente!
- Eles só se preocupam demais.
Tentava
pensar em alguma resposta ou motivo dos meus pais agirem dessa forma
durante tantos anos, mas quanto mais pensava, mais sem argumentos eu
ficava.
- Se fosse só eu, tudo bem, que se foda. Eu não gosto dos seus pais e eles não gostam de mim. Mas eles tem problemas de confiar até em você! Logo você, a Sra. Certinha, que nunca fez nada de errado. Se eles não confiam nem na própria filha, obviamente devem ter algum problema mental.
- ...Entendo o que quer dizer...
- Não, você não entende. Você é certinha demais pra ir contra seus pais. Mas tudo bem, entendo se quiser voltar. Só não me peça mais nada se voltar. Não espere que eu vá te visitar e muito menos me importe em te ajudar. – Falou caminhando em direção ao balcão na cozinha e se apoiando de costas, como se estivesse esperando uma resposta minha.
Não
sabia o que dizer e, de certo modo, concordava com ela. No fundo,
ainda buscava formas de tentar defender meus pais, mas ainda sentia
dores das cintadas de meu Pai. Em silêncio, caminhei em direção ao
sofá e me sentei.
- Então? – Perguntou Amy
- Então o que?
- Vai ficar ai em silêncio com cara de bunda ou vai me responder?
Ainda
fiquei em silêncio, relutante em responder. Mas quanto mais pensava
em voltar, mais queria voltar para o meu quarto e descrever minha
alma em meu diário. Mas, saber que Amy não iria mais aparecer em
minha vida me magoava. Talvez pudesse ficar alguns dias. Acho que
algumas semanas não iria machucar...
- Pode... mostrar onde posso dormir?
- Hm. Obrigada pela consideração. Venha, vou te mostrar.
Me
levantei do sofá e segui Amy por um corredor curto de frente com a
sala. À direita havia uma porta de madeira, a única de todo o
apartamento que estava fechada. Antes de abrir, Amy bateu três
vezes, como se estivesse aguardando resposta. Sem obter resposta,
finalmente a abriu. Havia mais alguém morando aqui?
- Tá, ela ainda não voltou.
- Ela quem?
- Minha colega de quarto. Aqui, esse será seu quarto.
Quando
finalmente pude entrar no quarto, fui atingida por uma intensa
energia. Começou como apenas uma pressão no corpo, mas logo se
tornou tontura, sensação de que algo tentava esmagar minha mente,
dores no corpo e pressão baixa. Tive que me obrigar a distanciar
daquele quarto,não conseguia nem pisar ali e Amy parecia ter
percebido.
- Energia ruim? – Perguntou Amy, não parecendo estar surpresa.
- Sim, como sabe???
- Ela reclamava disso também. Por isso foi embora.
- E você espera que EU durma nesse quarto?!?
- Não sabia que ainda estava tão cheio de energias ruins. Eu não consigo sentir isso. Ela disse que essa energia estava a seguindo. Já faz mais de três meses que ela se foi, então achei que a energia já teria ido também.
- O que quer dizer com “Ela se foi”? – Falei espantanda. Não só teria que lidar com o espirito do meu namorado, mas também com uma garota que eu não conheço.
- Ela se mudou daqui. Disse que era o melhor a se fazer.
- Ah... E como sabe que ela pode voltar?
- Ela ainda manda o dinheiro do apartamento todo mês. Disse que só iria voltar quando conseguisse resolver os problemas dela.
Não
seria uma má ideia seguir o caminho dessa garota. Ainda mais sabendo
que o espirito que me persegue pode matar pessoas apenas por eu
pensar nisso.
- Faria o mesmo se eu tivesse como. Sumir de um modo que não atrapalhe a vida de mais ninguém.
- As vezes você consegue ser super insensível com meus sentimentos. – Falou Amy batendo a porta do quarto logo em seguida.
- Pra quê isso?! – Gritei de susto.
- Esquece. Você nunca vai entender. – Falou Amy zangada indo em direção à saída do apartamento.
- Entender o que? Onde está indo??? – Perguntei indo atrás da Amy.
- Vou pegar suas roupas na sua casa. Quer que eu traga alguma coisa?
- O que?! Você tá louca?!
- Quer ou não quer?
Amy
estava ficando estranhamente estressada. Não era comum ve-la hostil
desse jeito e isso só era o começo. Devo ter dito algo que
realmente a magoou... talvez seja minha personalidade que a estivesse
magoando. Ainda assim, ela faz de tudo por mim... por quê?
- Você tem certeza? E se meus pais te encontrarem?
- Bato neles de novo. Não me incomodaria. E é melhor você nem começar a defender eles. Eles estão errados e você sabe disso.
- …
- VAMOS, FALA O QUE VOCÊ QUER! – Gritou Amy, me dando um leve susto.
- Tá bom! Para de gritar! Pega meu diário e meu celular na minha mesinha perto da cama.
- Tá. Se cuida.
Sem
dizer mais nada, Amy pegou a chave da porta e a bateu. Logo depois,
pude ouvir o som da porta se trancando. Comecei a me sentir mal, mas
não por tudo que havia acontecido, mas sim por ter deixado Amy tão
irritada depois de tudo que ela fez por mim. O dia havia ido de “bem”
para “catastrófico” de uma hora para outra. Não esperava que
isso tudo fosse acontecer hoje. Pior ainda, tudo isso aconteceu por
minha culpa. Se eu não estivesse me sentindo como lixo por tanto
tempo, Amy não teria que passar por isso. Nenhuma de nós teria.
Poderia estar em meu quarto agora, mas tamanho problema me fez estar
trancada na casa da minha amiga.
Sem
ter muito o que fazer, me sentei no sofá da sala, liguei a TV apenas
para não deixar o silêncio tomar conta da minha mente e fiquei
sentada, apenas olhando para imagens e ouvindo sons que não me
tinham interesse algum. Sabia que, se eu ficasse sozinha no silêncio,
iria deixar minha mente turbulenta. Pensamentos ruins iriam surgir,
sentimento de culpa e iria querer chorar. Sabia que ficar assistindo
programas aleatórios na TV não iria durar para sempre, mas contanto
que mantenha os meus pensamentos ruins distantes, iria servir.
17:23
Sem
perceber, já havia dormido no sofá da Amy por horas e ela ainda não
havia retornado. Me levantei e olhei ao redor, vendo se Amy não
havia chegado, deixado algo e saído de novo, mas não havia nada de
diferente no apartamento.
- Amy? Amy? Amy, você tá ai?
Não
obtive resposta. Ela realmente não tinha chegado ainda. Isso me
deixava preocupada, ainda mais porque minha casa não é tão longe
da dela. Sem meu celular, não poderia nem ligar para ela. Só podia
esperar que ela estivesse bem.
Cansada
de ficar no sofá, decidi me levantar e dar uma olhada pelo
apartamento até Amy chegar. Comecei pela cozinha, já que era o
cômodo mais próximo.
Por
mais que seja pequeno, a cozinha parecia ter apenas o necessário:
uma geladeira, fogão, balcão e um armário. A geladeira, apesar de
ter sido pintada de branca, era evidente que era um modelo antigo.
Havia marcas de descuido e parte estava descascando. O fogão era
quatro-bocas e o vidro do forno estava tão arranhado que era
impossível ver o que havia dentro. Abrindo apenas de curiosidade, vi
algumas panelas com óleo, uma pequena e uma grande. Aparentemente
era usada para fazer comidas diferentes sem usar o mesmo óleo. Ao
lado, estava o balcão. Abrindo as portas, vi as panelas guardadas em
ordem, de menor para maior, frigideira dentro de frigideira e panela
de pressão guardada de modo que não ocupasse muito espaço. Estava
legitimamente impressionada pela capacidade da Amy de ser tão
ordenada. Pensava que eu era a maluca por limpeza e compulção em
guardar coisas em ordem, mas ela era muito pior que eu. No armário,
encontrei pacotes de massa de macarrão, chocolate em pó, caixas de
leite e etc. Era um armário relativamente cheio. Ao menos só com o
que poderia ser necessário. Fiquei surpresa em ver que não havia
muito doce ou comida industrializada em sua casa. No final das
contas, Amy só tem uma atitude rebelde, mas pode ser uma mulher que
se importa muito com saúde e limpeza.
Saíndo
da cozinha, fui checar o banheiro, a primeira porta virando o
corredor à esquerda. Tentei abrir a porta completamente, mas algo
estava bloqueando. Quando fui checar, havia garrafas de produtos de
limpeza atrás da porta. O banheiro em si era pequeno. Um pequeno
corredor com uma pia e um espelho, uma privada e um box com o
chuveiro. Nada de impressionante. Assim como a cozinha, o estado do
banheiro era impecável. Ao lado, entre a pia e parede da porta,
havia um rodo de madeira já com pano. Porém, não parecia um pano
de chão qualquer. Levantei o rodo para checar melhor e percebi que
era a camisa que ela usava na época do ensino médio, durante o
primeiro ano. Amy não iria pensar duas vezes antes de transformar
roupa velha em pano de chão. Uma pena, era uma camisa tão bonita.
Saindo
do banheiro, pensei em dar mais uma olhada no quarto da colega da
Amy, mas decidi deixar por último. Não sabia se aguentaria aquela
energia novamente. Segui para a porta no fim do corredor, o quarto da
Amy.
Abrindo
a porta, me deparei com seu lado rebelde. Havia posters de mulheres,
filmes e jogos nas paredes. A cama estava bagunçada, havia um cesto
de lixo logo na entrada do quarto e a janela estava aberta, protegida
apenas por uma grade de ferro. Havia um caderno em cima de sua cama,
mas, quando coloquei o pé em seu quarto, senti o chão molhado.
Olhei para ver no quê havia pisado e notei uma bacia de água branca
no chão. Sem pensar duas vezes, apenas voltei, fechei a porta e
corri para o banheiro lavar meu pé. Não sabia no quê havia pisado,
mas não quero ficar para saber. Quando ela chegar, ela que limpe. É
quase como se ela não quisesse que ninguém com um pingo de higiene
entrasse lá.
Por
fim, só havia restado o quarto da colega da Amy. Antes de sequer
pisar no corredor que levava a esse quarto, respirei fundo, tentei
arrumar coragem e caminhei em direção a porta. Nem precisava estar
perto da porta para sentir tamanha energia negativa que havia ali
dentro. Já estava começando a ficar com tontura só de ficar ali.
Quando toquei na fechadura, sentia como se algo estivesse apertando
meu coração. Mas, quando estava prestes a abrir a porta, ouvi a
porta da sala ser destrancada e corri o mais rápido que pude de
volta ao sofá e me ajeitei como se tivesse feito nada.
- Oi gatinha, amor da minha vida. Desculpa a demora – Falou Amy, cansada e carregando algumas sacolas de compras.
- Onde esteve?! Você me deixou preocupada!
- Desculpa, precisava de um tempo sozinha. Aproveitei e passei no mercado.
Amy
deixou as sacolas no balcão e se apoiou, colocando sua mão nas
costas e se inclinando como uma velha morrendo de dor nas costas.
- Desculpa por te irritar hoje de tarde.
- Não esquenta com isso. – Falou com a voz falhando.
- Já está se sentindo melhor?
- Já, já estou mais calma. Obrigada. Está com fome? O que você fez enquanto estive fora? – Falou enquanto tirava as compras da sacola e colocava no balcão.
- Nada demais. Fiquei aqui no sofá, assisti algumas coisa, dormi e dei uma olhada pela casa.
- Meu Deus, você realmente deve estar faminta. – Agora tirava as compras do balcão e guardava no armário.
- Essas são compras de algo que estava faltando?
- Não. Coisas pra nós. Espero que goste de pizza. Vamos fazer noite da pizza.
- O que?! Você não precisava gastar dinheiro comigo!
- Calada. Eu praticamente te sequestrei. O mínimo que posso fazer é uma noite da pizza... Aliás, falando em sequestro...
Amy
começou a mexer em uma das sacolas e pegou meu diário, meu celular
e meu carregador. Porém, apenas o diário ela jogou para mim.
- Você podia ter me avisado que seus pais são policiais, não podia?
- Eu... eu esqueci... Espera, você leu meu diário!?
- Umas páginas. Você achou que EU não iria dar uma olhadinha? Você é muito ingênua as vezes.
- Você não consegue ficar cinco minutos sem querer saber algum segredo meu!? – Falei gritando.
- Hm... Não.
- Mas que saco, Amy!
De
repente, Amy deixou as compras caírem.
- Tem certeza que quer fazer isso de novo? Tem certeza?!
- Fazer o que?
- Não se faça de besta. Eu to fazendo o que posso por você. Eu só queria saber um pouco mais sobre você, só isso.
- Mas eu não gosto que leiam meu diário.
- Eu vou ser procurada pela polícia por SEQUESTRO! O Mínimo que você pode me deixar fazer é te conhecer um pouco mais! Mas que porra! Nos conhecemos desde o ensino médio e você não confia em mim depois de tantos anos! O que eu preciso fazer para que alguém valorize o que faço? O QUE??? – Amy gritou e terminou indo em direção ao seu quarto.
- Amy!...
Me
levantei do sofá e a vi correndo para seu quarto, batendo a porta.
Novamente, estava me sentindo péssima. Hoje eu estava me esforçando
para deixar Amy se sentindo mal. A deixei assim logo cedo, deixei de
tarde e deixei agora, no anoitecer. Então, percebi que meu egoísmo
e falta de amor próprio estava nos afetando. Ela dificilmente me
decepcionou em todos esses anos, foi uma das pessoas que mais me
tratou com respeito e, realmente, ela fazia muitas coisas por mim,
mesmo quando Folger estava presente. Ainda assim, nada me fazia
entender POR QUE ela fazia essas coisas. Acho que já estava na hora
de retribuir os feitos dela. Pelo menos o que posso.
Peguei
meu diário do sofá e fui em direção ao quarto da Amy, mas, no
caminho, eu me dei conta das compras que estavam no chão. Fiquei
indecisa entre ir até o quarto dela ou ajuda-la a guardar as
compras. Já havia atormentado ela demais por um dia, então decidi
guardar as compras primeiro. Seria bom dar um tempo para ela.
Comecei
guardando as compras que haviam caído, logo depois, comecei a
guardar as que ainda estavam no balcão e depois comecei a guardar as
que ainda estavam na sacola. Para minha surpresa, ela havia comprado
alguns picolés, exatamente da marca e sabor que eu gosto. Assim que
vi os picolés, me dei conta de que, toda a mercadoria que eu
guardei, eram ingrediêntes e comidas que eu gostava. Ela tinha
comprado quatro sacolas só de coisas que EU gostava de comer. Ela
não queria fazer uma noite de pizza para nós, queria fazer uma
noite para MIM!
Assim
que terminei de guardar as compras, peguei o diário e fui até o
quarto da Amy. Antes de bater na porta, encostei o ouvido e pude
ouvi-la chorar. Nunca a ouvi chorar antes, não sei se isso acontecia
em segredo ou era algo difícil de se acontecer, mas estava
acontecendo. Logo depois, dei três batidas leves na porta.
- Entra – Falou Amy, com a voz abafada.
Abri
a porta lentamente e a vi deitada na cama com o rosto virado para o
travesseiro. Ela tinha vergonha de que a vissem chorando. Mas, quando
dei um passo para dentro do quarto, ela se virou.
- Lave os pés.
- O que? – Perguntei surpresa.
- Lave os pés!
Quando
eu percebi, a bacia com água ainda estava ali. Não havia percebido
antes, mas havia um pano logo em frente.
- O que é isso?
- Água com sal grosso.
- Ah...
Sem
questionar, apenas lavei os pés na água e os sequei no pano. Quando
caminhei um pouco mais em frente, pude perceber melhor seu quarto. Na
porta, havia um objeto pendurado no teto com alguns tubos de madeira
pendurados por corda. Na janela, havia diferentes plantas. Em sua
sapateira, havia incenso queimado. Nunca havia visto ele lado
espiritual da Amy, muito menos pensava existir.
- Uau... eu não sabia que você tinha esse lado espiritual.
- Não posso dizer que tenho... Foi Selene quem me contou sobre essas coisas.
- Selene?
- A minha colega.
- Ah...
Quando
o assunto acabou, ela voltou a chorar no travesseiro. No fundo,
queria ficar aqui, no pé da cama, apenas tentando conversar com ela.
Mas sabia que não seria tão fácil, não é isso que ela faria se
fosse eu ali na cama, chorando. Subi em sua cama e me sentei ao seu
lado.
- Amy... desculpa por hoje.
- O que adianta você se desculpar? Você vai fazer isso de novo. Não me peça desculpas se você não aprende com seus erros.
- Não diga isso, isso machuca!
- E como você acha que me sinto? – Falou Amy olhando para mim com manchas de lágrimas em seu rosto. – Hein? Você que me sinto bem quando você me trata sem respeito? Quando você se trata sem respeito? Quando você diz para encontrar amigas melhores? Quando você diz que quer morrer? Quando diz que ninguém te ama? Quando você diz que ninguém nunca vai te amar como Folger te amou? O que eu to fazendo? O que eu andei fazendo desde quando te conheci? Não foi amor o suficiente ou só você que não percebe o valor que eu te dou?
- É claro que dou valor!
- Não, você não dá! Se desse ao menos cinco porcento do valor, eu não estaria aqui, chorando na cama, na rua e qualquer lugar que vou porque minha melhor amiga não me deixa ajuda-la!
- Mas por que você faz tudo isso por mim? Eu não tenho nada de importante!
- PORQUE EU TE AMO, SUA IDIOTA!!!
Ao
invés de me ajudar a diminuir toda essa confusão, essa frase apenas
havia me deixado ainda mais confusa.
- Você...
- Eu te amo. Eu achava que você poderia ser apenas uma amiga, mas você não é. Eu criei sentimento com você, criei uma enorme depedência, criei um forte laço de amizade com você que nenhuma outra pessoa jamais teve. Você é minha e única melhor amiga.
De
repente, Amy me abraçou na cintura e começou a chorar na minha
perna.
- Eu não quero perder você, não quero ver você ir embora da minha vida. Não aguento mais perder pessoas que amo!
Depois
de presenciar esse lado da Amy, eu entendi. O lado durona disfaçava
as cicatrizes e ferimentos que a vida deixou nela. Eu, sendo uma
pessoa que conseguia entender esse sofrimento dela, me tornei alguém
tão próximo que nos torna impossíveis de separar. Explicava minha
dificuldade em largar ela e ela me largar. Não sei se posso dizer
que sou dependente de sua presença, mas os dias que eu fiquei
distante foram dias angustiantes, dias estranhos e dias em que me
sentia solitária e abandonada. Com ela, me sinto bem, me sinto
segura e me sinto amada, mesmo que de forma estranha.
Sem
saber o que fazer, comecei a acariciar os cabelos da Amy, assim como
ela fazia comigo. Não tinha ideia do que fazer para conforta-la, mas
tentaria meu melhor.
- Você... Você quer ler meu diário?
- Você não está fazendo isso por pena.
- Não, não estou. Eu quero que você leia. Posso ler junto com você, se quiser.
Amy
se levantou, enxugou o rosto na coberta e se sentou na cama.
- Você tem certeza que quer fazer isso?
- Vamos ler. É o mínimo que posso fazer por você...
- Você não precisa fazer nada por mim.
- Desculpa por te fazer se abrir assim.
Amy
largou o olhar de choro e começou a sorrir carinhosamente para mim.
- Não se preocupe, estou querendo contar isso já tem meses. Me sinto mais leve assim. Eu que tenho que me desculpar pelo meu drama.
- Não precisa. Admito que... tenho sido um pouco insuportável ultimamente.
- Não diga isso. Você está passando por uma fase ruim, dias sombrios. Se você se esconder no escuro, estarei sendo uma luz a te procurar. Tenho certeza que você faria o mesmo por mim.
- Você me ama tanto assim?
- Você faz meu coração se sentir bem. Eu acordo cedo todos os dias apenas para te ver.
- Hm... Tem certeza que você não está apaixonada por mim?
Amy
corou e começou a rir.
- O que!? Não não não... quer dizer... talvez... Talvez eu tenha. Mas sabe? Não precisamos disso. Eu me sinto bem em ser sua melhor amiga. E espero que sejamos apenas isso: melhores amigas.
- Você tem certeza que é isso o que sente?
- Não, não tenho certeza, mas é o que meu coração diz. Se meu coração diz que é o certo, não irei questionar.
Começamos
a nos olhar por alguns segundos, até percebermos o doce e estranho
momento romântico que nos levou a rir e nos abraçar como duas
bobas. Depois de muito tempo, finalmente estava me sentindo um pouco
melhor. O quarto exalava uma energia positiva incrível que não
sentia já fazia semanas. Não queria que esse momento acabasse.
Mesmo que não pudesse sentir uma amorosa paixão, não podia dizer
que essa conversa me fez despertar um amor por ela que nunca havia
sentido. Era algo verdadeiro, algo sincero e algo puro, sem más
intenções e nem sujo. Nunca havia tido uma amiga como ela e
passaria a agradecer todos os dias por te-la por perto.
- Você... você ainda quer ler meu diário? – Perguntei com um sorriso bobo que tentava constantemente disfarçar.
- Claro... aliás, você tem um belo sorriso.
- Obrigada. – Falei virando o rosto de tamanha vergonha que estava sentindo.
Abri
meu diário e comecei a ler minhas anotações recentes. Todas sendo
bem depressivas, destrutivas e negativas. Ao menos dez páginas
estavam cheias de pensamentos ruins. Então, em uma tentativa de
atrair coisas boas, decidi ler apenas anotações mais antigas,
coisas do começo do ano ou final do ano passado. Havia muitas
memórias e sentimentos bons no passado. Talvez era isso que Amy
queria, me fazer voltar a sentir essa alegria do passado ao invés de
me prender e seguir em um futuro triste e deprimente. Talvez quisesse
me fazer olhar para esse presente e transforma-lo em um futuro mais
alegre. Se isso fosse acontecer, aconteceria ao lado dela.
Passamos
horas e horas lendo meu diário, lembrando de momentos engraçados e
alguns um tanto estupidos e vergonhosos, mas em todos eles nós
riamos, faziamos piadas e guardavamos sentimentos bons em nosso
coração. Eventualmente, a noite caiu, nós duas nos cansamos e
pegamos no sono. Mesmo sem comer, tomar banho ou qualquer ato de
higiene e alimentação, ficamos tão entretidas em memórias e nós
mesmos que nem percebemos. Isto é, até amanhã. Amanhã com certeza
acordariamos imundas e arrependidas. Ao menos essa seria a primeira
noite sem pensamentos ruins ou sensações negativas. Mas algo ainda
persistia. Não, algo parecia ter ficado pior. E saberia o que em meu
sonho.
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