quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Capítulo Dois - Má Companhia

~Legends Hunter~

Capítulo 2

Má Companhia



Casa da Samantha
05:30
26 de Setembro de 2014
Não havia conseguido dormir de noite. Por mais que tentasse, pensamentos ruins impediam minha cabeça de ter paz. Não parava de pensar no Folger, na morte daqueles dois homens, no futuro. Minha mente estava mais barulhenta do que nunca nesta noite.
Decidi parar na janela para ver as estrelas. Quando era criança, costumava olhar o céu estrelado quando não conseguia dormir. Acreditava que, se alguém amado partisse, essa pessoa se transformaria em uma estrela e estaria sempre nos vigiando. Imaginava se Folger seria uma grande estrela no céu escuro, se ele estaria cuidando de mim mesmo que indiretamente.
Vendo que o sol já estava surgindo, decidi desistir de tentar dormir e permaneci na janela pra ver o nascer do sol. O céu azul-escuro lentamente ficava mais claro conforme a parede de luz laranja subia aos céus. Logo, o laranja ficou vermelho e o céu estava mais claro. Por um momento, meus pensamentos silenciaram enquanto me distraía com a beleza natural de algo que acontece todos os dias, mas nunca havia prestado atenção. Algo tão simples e recorrente, mas que é tão ignorado pela nossa constante busca por 'utilidade' no mundo. “Quantas coisas maravilhosas ocorrem naturalmente ao nosso redor todos os dias e nós os ignoramos...” pensei enquanto continuava a observar a luz do sol se levantando do horizonte atrás das montanhas e tomando o lugar do que restava da escuridão no céu.
De repente, o som de motor de carro me tirou a atenção e me trouxe de volta à minha realidade. Meus pais costumavam sair cedo de casa a trabalho. Logo em seguida, o despertador do meu celular começou a tocar sinalizando que era hora de levantar e me arrumar para a faculdade. Nesse momento, a minha vontade era de cair na cama e dormir profundamente, mas a certeza de que Amy iria até minha casa apenas pra me acordar e me arrastar à faculdade era enorme. Então, de má vontade, desliguei o despertador, peguei minhas roupas e fui até o banheiro tomar banho. Mas, assim que pisei no corredor entre meu quarto e o banheiro, senti uma mão encostar em minha cintura. Me joguei contra a porta do quarto dos meus pais com os braços levantados e juntos ao meu peito segurando as roupas e fiquei olhando ao redor, mas não havia nada e nem ninguém por perto.
Já não sabia o que pensar sobre esses acontecimentos bizarros. Já fazia dias que eu andava paranóica com a sensação de que alguém me vigiava constantemente, agora eu sentia que alguém me tocava toda vez que estava sozinha. Isso só podia ser loucura minha, devia estar ficando louca. Tantas coisas horríveis acontecendo ao meu redor devem ter destruído qualquer fragmento de sanidade que eu ainda havia, me deixando a beira da esquizofrenia. Qualquer coisa que fosse fazer fazia insegura e amedrontada, até mesmo um banho relaxante me deixava apreensiva.
Faculdade
07:54
Havia me encontrado com Amy na porta da faculdade após mandar uma mensagem para ela ir direto à faculdade. Assim como eu, ela também estava com um olhar morto de quem não havia dormido bem durante a noite. Sua expressão, por mais que tentasse, forçava felicidade, mas suas olheiras entregava o cansaço. Eu, por outro lado, nem tentava forçar. Estava realmente cansada e pertubada.
    • Bom dia, Sam!
    • Bom dia... se houvesse algo de bom.
    • Já tá assim? Geez... o que foi?
    • Não dormi bem, só isso. Tive pesadelos com... aquilo.
    • Ah... pelo jeito, não é só eu.
    • E também tem alguma coisa estranha acontecendo.
    • Que coisa?
    • Não sei... sinto que tem algo me observando.
Amy me olhou estranho por um momento.
    • Algo te observando?...
    • Sim. Também, sinto algo me tocar.
Amy começou a me olhar engraçado, como se estivesse tentando segurar o riso.
    • Você precisa de férias. Urgente.
    • o que... Você não acredita em mim?! – Falei indignada e surpresa com a reação duvidosa de Amy.
    • Não me leve a mal, mas... tipo, como quer que eu acredite que um fantasma está te assombrando?
    • Eu não falei nada sobre fanstama.
    • Mas a descrição parecia muito com o que um fantasma faria.
    • Sabe, vamos entrar logo. – Falei enquanto já caminhava em direção à entrada do prédio.
    • Mas eu não... Sam, espera! – Gritou Amy correndo atrás de mim.
Seguimos em direção ao estudio, mas, nos corredores, uma colega de classe nos lembrou que era dia de prova. Ainda havia tempo de parar e estudar. Como a porta do estudio ainda estaria fechada, decidimos procurar algum lugar calmo, ao menos um lugar com pouco movimento. Seguimos em direção à quadra, o lugar que, em teoria, era o menos utilizado de todo o prédio. Biblioteca fica lotada em dias assim e dificilmente conseguimos nos sentir confortáveis em lugares cheios.
Assim que entramos na quadra, nos sentamos nas arquibancadas e começamos a estudar até chegar o horário de ir fazer a prova. Mas, para a nossa surpresa, uma turma de babacas decidiram entrar na quadra. Sabendo da ma fama dos alunos de Educação Física, sabia que eles não estavam aqui para treinar.
    • Ei, Derek, tem duas mulheres aqui! – Disse um deles apontando diretamente em nossa direção.
    • Não são mulheres, são só as duas fracassadas. A lésbica nojenta e a inútil que matou o namorado. – Disse Derek olhando em nossa direção.
    • Vamos embora. – Falei para Amy enquanto pegava minha mochila.
Essa era a nossa deixa para sair e procurar outro lugar. Mas, não esperava surpresas da Amy.
    • Quero ver você repetir isso na minha cara! – Gritou Amy já descendo as arquibancadas indo em direção a eles.
    • Amy, vamos embora! – Continuei gritando, mas ela não parecia me ouvir.
    • É, vão embora! Esquisitonas como vocês não são bem-vindas aqui.
    • Quem você tá chamando de “esquisitona”, hein? – Perguntou Amy afrontosa.
    • Você é surda? Você e a “Murta Que Geme” ali. Todo o prédio podia ouvir o choro. – Respondeu um dos homens, apontando na minha direção.
    • Buaaa Folger, to tão tristinha sem você. Buaaa” – O amigo de Derek tirou sarro de mim imitando choro. Os outros homens começaram a rir na hora.
Sem aviso, Amy deu um soco no rosto do homem ao lado de Derek, mas Derek reagiu mais rápido e o protegeu do soco, contra-atacando Amy com uma rasteira, a fazendo cair. Aproveitando a chance, o mesmo homem correu em direção à Amy e lhe deu um chute no estômago.
    • AMY!!! – Gritei correndo em direção a ela.
Amy começou a se levantar lentamente enquanto eu me aproximava. O mesmo homem tentou acertar um soco em Amy, mas ela desviou. Não consegui reagir a tempo e o soco me acertou em cheio no rosto, me fazendo cair sentada. De repente, Amy ficou furiosa e pulou no homem, dando vários socos seguidos até que Derek a tirou de cima dele, mas ainda continou a agredi-lo com chutes até que Derek a empurrou para o meu lado.
    • Isso não vai ficar barato, lésbica imunda! Vocês vão ver só! – Gritou Derek enquanto levavam o amigo deles para fora da quadra.
Comecei a chorar em silêncio enquanto tentava amenizar a dor do soco. Minha mandibula doía horrivelmente junto com a bochecha esquerda. O dia mal havia começado e já havia me arrependido de ter botado os pés para fora de casa. Amy me abraçou enquanto chorava e começou a acariciar meu cabelo.
    • Me desculpe... – Falei chorando.
    • Não há o que desculpar. Eu não gosto que falem mal de minha amiga.
    • Você não precisava fazer isso...
    • Eu faria. Faria mil vezes para te proteger.
Amy abriu sua bolsa e pegou um pedaço de papel higiénico. Tirou minha mão do meu rosto, olhou em meus olhos por alguns segundos e começou a limpar minhas lágrimas. Enquanto limpava, ela olhava fundo em meus olhos em alguns momentos. Não me sentia confortável, não sentia digna de olhar seus olhos verdes como um duas esmeraldas perfeitas brilhantes, então apenas desviava o olhar. Quando terminou de limpar, ela segurou segurou minha cabeça reta por alguns segundos, olhou em meus olhos e me deu um abraço apertado de frente, encostando o rosto em meus ombros. Eu fiquei sem reação, não sabia por que ela estava agindo desse jeito, não sabia suas intenções, apenas congelei no lugar.
Me desculpa por te meter nisso. Não era pra você sair ferida também. – Ela disse com calma, pausadamente, mas sua voz estava ficando levemente estranha, com se estivesse segurando choro.
Eu não sabia o que dizer, nunca havia visto Amy desse jeito antes. Ela tinha um lado frágil que não queria demonstrar. Não sabia o que dizer, o que fazer, só podia seguir meu instinto. Sem dizer nada, apenas a abracei de volta.
De repente, meu celular começou a tocar dentro de minha bolsa. Isso me fez despertar por um momento e lembrar que já a prova já devia ter começado.
    • Amy... nós vamos nos atrasar. – Falei calmamente em seu ouvido enquanto ela ainda me abraçava.
    • Atrasar...?
Amy estava agindo mais estranha que o normal. Era como se ela tivesse se desligado completamente do mundo.
    • Nós temos uma prova hoje, lembra? Já deve ter começado.
    • Prova...?... AI MEU DEUS, A PROVA! – Ela gritou se levantando com pressa e me puxando junto.
Sem demorar, ela pegou suas coisas que ainda haviam ficado nas arquibancadas, guardou de qualquer jeito em sua bolsa e seguiu em direção à saída da quadra. Como havia pego minhas coisas antes, eu só precisava seguir ela. Mas, quando me aproximei da porta próxima a tabela de basquete, senti um vento gelado passar por mim e me senti fraca por um momento, como se minha pressão tivesse caído subitamente. Amy não demorou a perceber minha falta e voltou.
    • Aconteceu alguma coisa? Tá se sentindo bem?
    • Eu... eu... – Comecei a perder a linha de raciocinio por um momento. Minha cabeça ficou confusa, minha visão turva, mas comecei a me recuperar logo. – Eu... eu to bem. Só tive uma pequena queda.
Me levantei devagar e caminhei em direção à Amy, mas ela me parou.
    • Tem certeza? Quer ir embora? Precisa de um médico?
    • Eu to bem, sério. Vamos logo.
Continuei a caminhar em direção ao estúdio mesmo sem Amy. Eventualmente nós nos únimos novamente e subimos até o quinto andar. Eu não sei o que foi aquilo, mas foi estranho. Passei o resto da manhã imaginando se aquele soco não me afetou em algo grave. Aquele conflito foi desnecessário, eles não tinham o que fazer ali, sabiam que nós estavamos lá e decidiram nos atormentar. Queria que esses tormentos parassem, mas, no fundo, tudo que queria era matar aqueles babacas.
Corredores
11:54
Haviamos terminado a prova um pouco mais cedo, então decidimos sair mais cedo também. Entreguei os papeis ao professor com absoluta certeza de que havia fracassado horrivelmente. Não estava nem um pouco concentrada e não havia estudado. Amy, por outro lado, parecia mais confiante de si mesma.
    • Essa prova foi mais fácil do que pensei.
Apenas fiquei em silêncio. Ela não precisava saber do meu fracasso.
Nós descemos as escadas e seguimos pelos corredores. Mas, no meio do caminho, ouvimos uma barulhenta gritaria vindo da quadra. Aqueles nojentos deviam estar treinando e um grupo de garotas cegas estavam gritando por eles. Eu não podia sentir nada além de pena delas.
    • Aqueles imbecis devem estar treinando. Vamos sacanear eles!
    • Vamos embora.
Continuei caminhando em direção à saída, mesmo sabendo que Amy havia ido em direção à quadra. Decidi não me envolver dessa vez, não queria que meu dia ficasse pior que já estava. Mas, as vezes, não somos nós que decimos o destino.
Quando já estava próxima da saída, ouvi um forte estrondo vindo da quadra. Sem pensar duas vezes, voltei o caminho e corri em direção à quadra. No caminho, me reencontrei com Amy, agora apavorada, desesperada. Ela me agarrou e me abraçou, chorando em meus ombros.
    • Amy, o que houve? O que aconteceu?? O que foi esse barulho??? – Perguntei desesperada.
    • Derek e o amigo dele morreram! – Ela gritou chorando.
Quando ela disse isso, senti meu coração apertar e meu corpo congelar. Me soltei da Amy e corri em direção à quadra. Se isso fosse verdade, era hoje que eu ia fazer o pior.
Quando abri as portas da quadra, vi alguns homens tentando levantar a enorme tabela de ferro que havia caído. Podia ver os braços e pernas dos garotos para fora como últimos restos que haviam sobrado, o corpo devia estar destruído.
Meu coração congelou por um momento e não conseguia pensar em nada, apenas olhava para a poça de sangue que escorria por debaixo da tabela. Eu odiava eles, mas não era para ser assim!
    • Eu pensei na morte deles... eu causei isso...
De repente, Amy me puxou e começamos a correr para fora da faculdade. Eu não queria sair, mas ainda estava chocada com o que havia visto e tentando absorver esse pensamento. Eu havia matado eles, tamanho ódio trouxe morte até eles.
Quando finalmente saímos da faculdade, paramos para descansar. Amy já estava com dificuldade para respirar.
    • Por que ficou olhando aquilo? Você sabe que sua situação psicológica já está ruim, vai piorar – Falou Amy irritada,
    • Eu matei eles... – Cortei Amy falando baixo e com a voz fraca.
    • ...O que? Do que você tá falando?
    • Eu matei eles... EU MATEI ELES!
Comecei a chorar angustiada, tensa, sentindo um enorme peso em minhas costas.
    • EU MATEI ELES!!! – Grite chorando.
Amy me agarrou e calou minha boca com sua mão. Então, começou a me puxar para longe do prédio e de qualquer sinal de civilização. Podia ouvir sirene de ambulância e policia ao longe. Logo logo o lugar estaria cercado e a assassina já teria fugido. Mas eu queria me entregar. Eu os matei. Eu causei isso.
    • Eu sou a culpa, eu matei eles. Eu fiz isso
    • Pode parar de falar isso e tentar me explicar?
    • Eu pensei em matar eles e isso aconteceu. Eu sou uma maldição, uma má companhia!
Amy me agarrou pelos ombros e olhou em meus olhos, séria.
    • Isso não tem nada a ver com você! Eu também pensei nisso e, se fosse assim, muita gente que odeio já teria morrido. Pare de dizer que você os matou!
    • Mas eu havia pensado o mesmo quando estavamos fugindo daqueles homens e aquilo aconteceu!
    • Tudo não passa de coincidências. Você não é responsável por isso. No mais, eles mereceram.
    • Ninguém merece morrer. Ninguém. Eu sou uma má companhia, eu trago azar para todos.
    • Pare de dizer isso!
De repente, minha pressão abaixou. Me senti fraca, minha visão turva e não tinha forças nem para me manter em pé. Sentia algo ruím próximo de nós, mas não havia ninguém por perto. Então, quando algo me tocou, comecei a ter dificuldade para respirar, sentia uma forte pressão na cabeça como se algo estivesse me espremendo, então, sentia como se fosse desmaiar a qualquer momento.
    • Sam, você tá bem??? O que foi???Amy falava comigo, mas não conseguia ouvir sua voz com clareza.
    • Me leve pra casa... – Falei com o pouco de consciência.
Quando Amy me levantou, não conseguia mais enxergar. Minha visão obscurecia cada vez mais, mal conseguia mover minhas pernas. Logo, havia desmaiado.
    • Você não tem que resolver nada! Nós somos os pais dela, não você!
    • Eu salvei a vida dela! Se não fosse por mim, ela estaria jogada na rua com algum estranho!
    • Como podemos saber se você não tem envolvimento com isso!? Seu tipinho faria de tudo para fazer mal contra ela!
    • Certo, se sua filha estiver morrendo no meio da rua, vocês que a busquem. Quando a encontrarem morta e jogada em uma lata de lixo em um saco preto, talvez vocês tenham algum amor por ela!
Ouvi pessoas conversando, mas não entendia o que diziam. As vozes eram familiares, tentava pensar a respeito, mas minha mente estava confusa e os olhos cegos.
    • Quem é você para dizer o que achamos dela?!
    • Nós somos os país dela, nós decidimos o que faremos. Se a gente quiser, ela nunca mais sai daqui!
    • Certo, então tranquem a droga da sua filha no quarto! Faça isso só para evitar a única pessoa que se importou com ela!
    • Você quer estragar nossa filha!
    • EU QUERO QUE VOCÊS MORRAM!
De repente, senti meu corpo cair e então apaguei novamente.


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