Capítulo 2
Má Companhia
Casa
da Samantha
05:30
26
de Setembro de 2014
Não
havia conseguido dormir de noite. Por mais que tentasse, pensamentos
ruins impediam minha cabeça de ter paz. Não parava de pensar no
Folger, na morte daqueles dois homens, no futuro. Minha mente estava
mais barulhenta do que nunca nesta noite.
Decidi
parar na janela para ver as estrelas. Quando era criança, costumava
olhar o céu estrelado quando não conseguia dormir. Acreditava que,
se alguém amado partisse, essa pessoa se transformaria em uma
estrela e estaria sempre nos vigiando. Imaginava se Folger seria uma
grande estrela no céu escuro, se ele estaria cuidando de mim mesmo
que indiretamente.
Vendo
que o sol já estava surgindo, decidi desistir de tentar dormir e
permaneci na janela pra ver o nascer do sol. O céu azul-escuro
lentamente ficava mais claro conforme a parede de luz laranja subia
aos céus. Logo, o laranja ficou vermelho e o céu estava mais claro.
Por um momento, meus pensamentos silenciaram enquanto me distraía
com a beleza natural de algo que acontece todos os dias, mas nunca
havia prestado atenção. Algo tão simples e recorrente, mas que é
tão ignorado pela nossa constante busca por 'utilidade' no mundo.
“Quantas coisas maravilhosas ocorrem naturalmente ao nosso redor
todos os dias e nós os ignoramos...” pensei enquanto continuava a
observar a luz do sol se levantando do horizonte atrás das
montanhas e tomando o lugar do que restava da escuridão no céu.
De
repente, o som de motor de carro me tirou a atenção e me trouxe de
volta à minha realidade. Meus pais costumavam sair cedo de casa a
trabalho. Logo em seguida, o despertador do meu celular começou a
tocar sinalizando que era hora de levantar e me arrumar para a
faculdade. Nesse momento, a minha vontade era de cair na cama e
dormir profundamente, mas a certeza de que Amy iria até minha casa
apenas pra me acordar e me arrastar à faculdade era enorme. Então,
de má vontade, desliguei o despertador, peguei minhas roupas e fui
até o banheiro tomar banho. Mas, assim que pisei no corredor entre
meu quarto e o banheiro, senti uma mão encostar em minha cintura. Me
joguei contra a porta do quarto dos meus pais com os braços
levantados e juntos ao meu peito segurando as roupas e fiquei olhando
ao redor, mas não havia nada e nem ninguém por perto.
Já
não sabia o que pensar sobre esses acontecimentos bizarros. Já
fazia dias que eu andava paranóica com a sensação de que alguém
me vigiava constantemente, agora eu sentia que alguém me tocava toda
vez que estava sozinha. Isso só podia ser loucura minha, devia estar
ficando louca. Tantas coisas horríveis acontecendo ao meu redor
devem ter destruído qualquer fragmento de sanidade que eu ainda
havia, me deixando a beira da esquizofrenia. Qualquer coisa que fosse
fazer fazia insegura e amedrontada, até mesmo um banho relaxante me
deixava apreensiva.
Faculdade
07:54
Havia
me encontrado com Amy na porta da faculdade após mandar uma mensagem
para ela ir direto à faculdade. Assim como eu, ela também estava
com um olhar morto de quem não havia dormido bem durante a noite.
Sua expressão, por mais que tentasse, forçava felicidade, mas suas
olheiras entregava o cansaço. Eu, por outro lado, nem tentava
forçar. Estava realmente cansada e pertubada.
- Bom dia, Sam!
- Bom dia... se houvesse algo de bom.
- Já tá assim? Geez... o que foi?
- Não dormi bem, só isso. Tive pesadelos com... aquilo.
- Ah... pelo jeito, não é só eu.
- E também tem alguma coisa estranha acontecendo.
- Que coisa?
- Não sei... sinto que tem algo me observando.
Amy
me olhou estranho por um momento.
- Algo te observando?...
- Sim. Também, sinto algo me tocar.
Amy
começou a me olhar engraçado, como se estivesse tentando segurar o
riso.
- Você precisa de férias. Urgente.
- … o que... Você não acredita em mim?! – Falei indignada e surpresa com a reação duvidosa de Amy.
- Não me leve a mal, mas... tipo, como quer que eu acredite que um fantasma está te assombrando?
- Eu não falei nada sobre fanstama.
- Mas a descrição parecia muito com o que um fantasma faria.
- Sabe, vamos entrar logo. – Falei enquanto já caminhava em direção à entrada do prédio.
- Mas eu não... Sam, espera! – Gritou Amy correndo atrás de mim.
Seguimos
em direção ao estudio, mas, nos corredores, uma colega de classe
nos lembrou que era dia de prova. Ainda havia tempo de parar e
estudar. Como a porta do estudio ainda estaria fechada, decidimos
procurar algum lugar calmo, ao menos um lugar com pouco movimento.
Seguimos em direção à quadra, o lugar que, em teoria, era o menos
utilizado de todo o prédio. Biblioteca fica lotada em dias assim e
dificilmente conseguimos nos sentir confortáveis em lugares cheios.
Assim
que entramos na quadra, nos sentamos nas arquibancadas e começamos a
estudar até chegar o horário de ir fazer a prova. Mas, para a nossa
surpresa, uma turma de babacas decidiram entrar na quadra. Sabendo da
ma fama dos alunos de Educação Física, sabia que eles não estavam
aqui para treinar.
- Ei, Derek, tem duas mulheres aqui! – Disse um deles apontando diretamente em nossa direção.
- Não são mulheres, são só as duas fracassadas. A lésbica nojenta e a inútil que matou o namorado. – Disse Derek olhando em nossa direção.
- Vamos embora. – Falei para Amy enquanto pegava minha mochila.
Essa
era a nossa deixa para sair e procurar outro lugar. Mas, não
esperava surpresas da Amy.
- Quero ver você repetir isso na minha cara! – Gritou Amy já descendo as arquibancadas indo em direção a eles.
- Amy, vamos embora! – Continuei gritando, mas ela não parecia me ouvir.
- É, vão embora! Esquisitonas como vocês não são bem-vindas aqui.
- Quem você tá chamando de “esquisitona”, hein? – Perguntou Amy afrontosa.
- Você é surda? Você e a “Murta Que Geme” ali. Todo o prédio podia ouvir o choro. – Respondeu um dos homens, apontando na minha direção.
- “Buaaa Folger, to tão tristinha sem você. Buaaa” – O amigo de Derek tirou sarro de mim imitando choro. Os outros homens começaram a rir na hora.
Sem
aviso, Amy deu um soco no rosto do homem ao lado de Derek, mas Derek
reagiu mais rápido e o protegeu do soco, contra-atacando Amy com uma
rasteira, a fazendo cair. Aproveitando a chance, o mesmo homem correu
em direção à Amy e lhe deu um chute no estômago.
- AMY!!! – Gritei correndo em direção a ela.
Amy
começou a se levantar lentamente enquanto eu me aproximava. O mesmo
homem tentou acertar um soco em Amy, mas ela desviou. Não consegui
reagir a tempo e o soco me acertou em cheio no rosto, me fazendo cair
sentada. De repente, Amy ficou furiosa e pulou no homem, dando vários
socos seguidos até que Derek a tirou de cima dele, mas ainda
continou a agredi-lo com chutes até que Derek a empurrou para o meu
lado.
- Isso não vai ficar barato, lésbica imunda! Vocês vão ver só! – Gritou Derek enquanto levavam o amigo deles para fora da quadra.
Comecei
a chorar em silêncio enquanto tentava amenizar a dor do soco. Minha
mandibula doía horrivelmente junto com a bochecha esquerda. O dia
mal havia começado e já havia me arrependido de ter botado os pés
para fora de casa. Amy me abraçou enquanto chorava e começou a
acariciar meu cabelo.
- Me desculpe... – Falei chorando.
- Não há o que desculpar. Eu não gosto que falem mal de minha amiga.
- Você não precisava fazer isso...
- Eu faria. Faria mil vezes para te proteger.
Amy
abriu sua bolsa e pegou um pedaço de papel higiénico. Tirou minha
mão do meu rosto, olhou em meus olhos por alguns segundos e começou
a limpar minhas lágrimas. Enquanto limpava, ela olhava fundo em meus
olhos em alguns momentos. Não me sentia confortável, não sentia
digna de olhar seus olhos verdes como um duas esmeraldas perfeitas
brilhantes, então apenas desviava o olhar. Quando terminou de
limpar, ela segurou segurou minha cabeça reta por alguns segundos,
olhou em meus olhos e me deu um abraço apertado de frente,
encostando o rosto em meus ombros. Eu fiquei sem reação, não sabia
por que ela estava agindo desse jeito, não sabia suas intenções,
apenas congelei no lugar.
–
Me desculpa por te meter nisso.
Não era pra você sair ferida também. – Ela disse com
calma, pausadamente, mas sua voz estava ficando levemente estranha,
com se estivesse segurando choro.
Eu
não sabia o que dizer, nunca havia visto Amy desse jeito antes. Ela
tinha um lado frágil que não queria demonstrar. Não sabia o que
dizer, o que fazer, só podia seguir meu instinto. Sem dizer nada,
apenas a abracei de volta.
De
repente, meu celular começou a tocar dentro de minha bolsa. Isso me
fez despertar por um momento e lembrar que já a prova já devia ter
começado.
- Amy... nós vamos nos atrasar. – Falei calmamente em seu ouvido enquanto ela ainda me abraçava.
- Atrasar...?
Amy
estava agindo mais estranha que o normal. Era como se ela tivesse se
desligado completamente do mundo.
- Nós temos uma prova hoje, lembra? Já deve ter começado.
- Prova...?... AI MEU DEUS, A PROVA! – Ela gritou se levantando com pressa e me puxando junto.
Sem
demorar, ela pegou suas coisas que ainda haviam ficado nas
arquibancadas, guardou de qualquer jeito em sua bolsa e seguiu em
direção à saída da quadra. Como havia pego minhas coisas antes,
eu só precisava seguir ela. Mas, quando me aproximei da porta
próxima a tabela de basquete, senti um vento gelado passar por mim e
me senti fraca por um momento, como se minha pressão tivesse caído
subitamente. Amy não demorou a perceber minha falta e voltou.
- Aconteceu alguma coisa? Tá se sentindo bem?
- Eu... eu... – Comecei a perder a linha de raciocinio por um momento. Minha cabeça ficou confusa, minha visão turva, mas comecei a me recuperar logo. – Eu... eu to bem. Só tive uma pequena queda.
Me
levantei devagar e caminhei em direção à Amy, mas ela me parou.
- Tem certeza? Quer ir embora? Precisa de um médico?
- Eu to bem, sério. Vamos logo.
Continuei
a caminhar em direção ao estúdio mesmo sem Amy. Eventualmente nós
nos únimos novamente e subimos até o quinto andar. Eu não sei o
que foi aquilo, mas foi estranho. Passei o resto da manhã imaginando
se aquele soco não me afetou em algo grave. Aquele conflito foi
desnecessário, eles não tinham o que fazer ali, sabiam que nós
estavamos lá e decidiram nos atormentar. Queria que esses tormentos
parassem, mas, no fundo, tudo que queria era matar aqueles babacas.
Corredores
11:54
Haviamos
terminado a prova um pouco mais cedo, então decidimos sair mais cedo
também. Entreguei os papeis ao professor com absoluta certeza de que
havia fracassado horrivelmente. Não estava nem um pouco concentrada
e não havia estudado. Amy, por outro lado, parecia mais confiante de
si mesma.
- Essa prova foi mais fácil do que pensei.
Apenas
fiquei em silêncio. Ela não precisava saber do meu fracasso.
Nós
descemos as escadas e seguimos pelos corredores. Mas, no meio do
caminho, ouvimos uma barulhenta gritaria vindo da quadra. Aqueles
nojentos deviam estar treinando e um grupo de garotas cegas estavam
gritando por eles. Eu não podia sentir nada além de pena delas.
- Aqueles imbecis devem estar treinando. Vamos sacanear eles!
- Vamos embora.
Continuei
caminhando em direção à saída, mesmo sabendo que Amy havia ido em
direção à quadra. Decidi não me envolver dessa vez, não queria
que meu dia ficasse pior que já estava. Mas, as vezes, não somos
nós que decimos o destino.
Quando
já estava próxima da saída, ouvi um forte estrondo vindo da
quadra. Sem pensar duas vezes, voltei o caminho e corri em direção
à quadra. No caminho, me reencontrei com Amy, agora apavorada,
desesperada. Ela me agarrou e me abraçou, chorando em meus ombros.
- Amy, o que houve? O que aconteceu?? O que foi esse barulho??? – Perguntei desesperada.
- Derek e o amigo dele morreram! – Ela gritou chorando.
Quando
ela disse isso, senti meu coração apertar e meu corpo congelar. Me
soltei da Amy e corri em direção à quadra. Se isso fosse verdade,
era hoje que eu ia fazer o pior.
Quando
abri as portas da quadra, vi alguns homens tentando levantar a enorme
tabela de ferro que havia caído. Podia ver os braços e pernas dos
garotos para fora como últimos restos que haviam sobrado, o corpo
devia estar destruído.
Meu
coração congelou por um momento e não conseguia pensar em nada,
apenas olhava para a poça de sangue que escorria por debaixo da
tabela. Eu odiava eles, mas não era para ser assim!
- Eu pensei na morte deles... eu causei isso...
De
repente, Amy me puxou e começamos a correr para fora da faculdade.
Eu não queria sair, mas ainda estava chocada com o que havia visto e
tentando absorver esse pensamento. Eu havia matado eles, tamanho ódio
trouxe morte até eles.
Quando
finalmente saímos da faculdade, paramos para descansar. Amy já
estava com dificuldade para respirar.
- Por que ficou olhando aquilo? Você sabe que sua situação psicológica já está ruim, vai piorar – Falou Amy irritada,
- Eu matei eles... – Cortei Amy falando baixo e com a voz fraca.
- ...O que? Do que você tá falando?
- Eu matei eles... EU MATEI ELES!
Comecei
a chorar angustiada, tensa, sentindo um enorme peso em minhas costas.
- EU MATEI ELES!!! – Grite chorando.
Amy
me agarrou e calou minha boca com sua mão. Então, começou a me
puxar para longe do prédio e de qualquer sinal de civilização.
Podia ouvir sirene de ambulância e policia ao longe. Logo logo o
lugar estaria cercado e a assassina já teria fugido. Mas eu queria
me entregar. Eu os matei. Eu causei isso.
- Eu sou a culpa, eu matei eles. Eu fiz isso
- Pode parar de falar isso e tentar me explicar?
- Eu pensei em matar eles e isso aconteceu. Eu sou uma maldição, uma má companhia!
Amy
me agarrou pelos ombros e olhou em meus olhos, séria.
- Isso não tem nada a ver com você! Eu também pensei nisso e, se fosse assim, muita gente que odeio já teria morrido. Pare de dizer que você os matou!
- Mas eu havia pensado o mesmo quando estavamos fugindo daqueles homens e aquilo aconteceu!
- Tudo não passa de coincidências. Você não é responsável por isso. No mais, eles mereceram.
- Ninguém merece morrer. Ninguém. Eu sou uma má companhia, eu trago azar para todos.
- Pare de dizer isso!
De
repente, minha pressão abaixou. Me senti fraca, minha visão turva e
não tinha forças nem para me manter em pé. Sentia algo ruím
próximo de nós, mas não havia ninguém por perto.
Então, quando algo me tocou, comecei a ter dificuldade
para respirar, sentia uma forte pressão na cabeça como se algo
estivesse me espremendo, então, sentia como se fosse desmaiar a
qualquer momento.
- Sam, você tá bem??? O que foi??? – Amy falava comigo, mas não conseguia ouvir sua voz com clareza.
- Me leve pra casa... – Falei com o pouco de consciência.
Quando
Amy me levantou, não conseguia mais enxergar. Minha visão
obscurecia cada vez mais, mal conseguia mover minhas pernas. Logo,
havia desmaiado.
- Você não tem que resolver nada! Nós somos os pais dela, não você!
- Eu salvei a vida dela! Se não fosse por mim, ela estaria jogada na rua com algum estranho!
- Como podemos saber se você não tem envolvimento com isso!? Seu tipinho faria de tudo para fazer mal contra ela!
- Certo, se sua filha estiver morrendo no meio da rua, vocês que a busquem. Quando a encontrarem morta e jogada em uma lata de lixo em um saco preto, talvez vocês tenham algum amor por ela!
Ouvi
pessoas conversando, mas não entendia o que diziam. As vozes eram
familiares, tentava pensar a respeito, mas minha mente estava confusa
e os olhos cegos.
- Quem é você para dizer o que achamos dela?!
- Nós somos os país dela, nós decidimos o que faremos. Se a gente quiser, ela nunca mais sai daqui!
- Certo, então tranquem a droga da sua filha no quarto! Faça isso só para evitar a única pessoa que se importou com ela!
- Você quer estragar nossa filha!
- EU QUERO QUE VOCÊS MORRAM!
De
repente, senti meu corpo cair e então apaguei novamente.
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