Capítulo Um
Maldição
Casa da Samantha
07:22
25 de Setembro de 2014
Havia acordado no chão frio do banheiro, nua, acabada e com uma forte dor de cabeça. Me levantei e me olhei no espelho. Minha maquiagem estava borrada, meu cabelo estava bagunçado e imundo, havia um pequeno corte na minha boca e havia sangue em meu rosto, mas não havia corte ali. Senti algo escorrendo em meus pulsos. Quando olhei, havia vários cortes feitos com lâmina de apontador. Já devia ser o quinto apontador que quebrava naquela semana.
De repente, uma mulher de cabelos negros, alta e um pouco magra entrou no banheiro. Ela me olhou levemente assustada, mas não parecia chocada. Aliás, já era uma cena que via fazia dias.
– Oh, Amy… O que faz aqui? – Perguntei com a voz cansada e a garganta dolorida.
– Eu fui ver se você está bem… – Amy disse calmamente olhando cada centímetro do meu corpo. – Que merda você fez agora? – Disse com um pingo de surpresa em sua voz.
– Tá ai uma pergunta que eu também gostaria de saber. – Falei com a voz falha enquanto me levantava.
– Você não pode continuar assim. – Amy disse tom sério. – Vamos, estamos atrasadas pra faculdade.
– Espere um pouco. Preciso tomar um banho pelo menos. – Falei me levantando com um pouco de tontura.
– Tá, mas seja rápida. Vou esperar aqui fora.
Amy saiu do banheiro e fechou a porta. Antes de ir para o chuveiro, baforei em minha mão e cheirei… fui atacada pelo meu próprio bafo de álcool. Ao menos agora sabia porque acordei no banheiro desse jeito.
Amy era a minha única e melhor amiga desde o colegial. Eu imaginava a dor dela ao me ver assim. Eu mesma me lamentava por estar naquele estado lamentável. Costumava ser um pouco mais alegre e bem-humorada. Agora, a alegria e bom humor havia se substituído por tristeza constante e mal humor misturado com um inacabável sarcasmo tóxico. As vezes me perguntava por que ela continuava sendo minha amiga invés de se juntar com as garotas sucedidas e alegres.
Durante o banho, não conseguia parar de pensar no pesadelo que tive. Já fazia duas semanas que sonhava com aquilo e o quanto isso estava piorando minha situação psicológica. Desde aquele dia, tenho tido a constante sensação de que alguém sempre estava perto de mim, algo me observando. Devia ser apenas imaginação minha.
Assim que saí do banheiro, fui até meu quarto logo em frente e me vesti com uma calça preta, camisa vermelha e um casaco preto. Logo em seguida, me sentei na cama e coloquei minha bota preta. Peguei minha caixa de maquiagens e usei o espelho manchado do guarda-roupas para me maquiar. Voltei ao banheiro para ver melhor como estava e… me desanimei. Por mais que eu estivesse tentando ficar mais apresentável possível, era inútil. O mínimo que fiz foi pentear meu cabelo e só. Voltei ao meu quarto pra pegar minha mochila e fui direto para saída me encontrar com a Amy. Antes de sair, tentei disfarçar o desanimo e a tristeza antes de me apresentar para Amy. A coitada não precisava ter que ficar suportando problemas de uma fracassada.
– Está pronta? – Amy perguntou na saída.
– Estou… – Falei tentando fingir um tom animado, mas falhando imediatamente.
– Hm… – Amy começou a me olhar estranho por um momento, desconfiada da minha resposta. – O que foi, meu amor? Por que está tão triste?
Eu não sabia disfarçar minha tristeza. Não conseguia nem se fosse para salvar minha vida.
– Não é nada. Nada que seja novo pra você… – Falei desanimada.
– Você ainda tem sonhado com… aquilo? – Amy perguntou preocupada.
– Esquece. Vamos indo. – Falei enquanto já abria a porta de casa indo pra rua. Esse não era um assunto que eu gostava de falar.
– Tá… desculpa. – Amy disse desconfiada, mas decepcionada.
Nós saímos de casa e seguimos em direção ao ponto de ônibus. No caminho, Amy tentou diversas vezes puxar assunto comigo, mas estava tão desanimada que dificilmente a respondia. Isso me deixava ainda pior do que já estava, mas não era algo que eu podia mudar. Estava sem assunto e sem vontade de conversar, mas ela queria me deixar bem. A coitada realmente não merecia isso.
Faculdade
08:44
Mesmo nós duas estando levemente atrasadas, conseguimos chegar a tempo pra aula. Entramos no estúdio sem o professor perceber, deixamos nossas coisas encostadas na parede e nos juntamos à turma. Fazíamos faculdade cursando Audiovisual, afinal eramos duas amantes de filmes, com desejo de que um filme nosso fosse assistido e lembrado por anos. Podia ser sonhar demais, mas era nosso sonho!
Hoje era um dia que eu estava um pouco mais tensa que o normal. Havia uma apresentação de um curta que eu não tinha certeza se havia terminado. Havia deixado para Amy trabalhar melhor nisso depois que comecei a virar uma criatura que se esconde em uma caverna.
– Você terminou nosso trabalho? – Perguntei cochichando no ouvido de Amy.
– Sim, deixei meu pendrive na mochila. – Amy respondeu séria olhando fixada para frente.
Isso havia me deixado um pouco mais aliviada, mas ainda estava com vergonha de apresentar.
Assim que o professor terminou de falar com o grupo, cada um pegou seu pendrive em suas mochilas, alguns pegaram CDs e outros nem trouxeram. Todos os nossos projetos seriam apresentados num telão pra todos verem.
– Samantha e Amy, por favor, apresentem seu projeto. – Disse o professor entediado.
– Oh Deus… – Falei baixinho enquanto me levantava junto com Amy.
– Fica tranquila, vai dar tudo certo. – Amy disse tentando me confortar com um sorriso no rosto. Uma tentativa sem muito sucesso.
Caminhamos pelo corredor de pessoas indo em direção ao notebook do professor. Amy lhe entregou o pendrive e inseriu. Mal havia começado a apresentação e já estava dando tudo errado, pois o pendrive estava com problemas de mal contato. Levou algumas tentativas de encaixe até finalmente funcionar. Em questão de segundos, nosso trabalho já estava no telão.
A primeira cena mostrava Amy vestida com uma capa preta segurando uma espada de madeira em cima de uma rocha em um fundo de tela verde com enormes labaredas de fogo que pegou de algum site. Logo em seguida, a câmera muda pra mim, jogada no chão de terra, manchada de sangue e lama.
– As suas esperanças acabaram, criança. Aqui será sua cova! – Ela disse forçando uma voz grossa e apontando sua espada em minha direção.
– Seria esse meu fim? Estava desarmada e sem energias para lutar. Como vou sair dessa? – Falei narrando os pensamentos da minha personagem.
Nesse momento, eu não conseguia olhar pra tela com tamanha vergonha que estava sentindo.
– Você não vai encostar um dedo nela! – Disse uma voz masculina que me fez virar os olhos de volta pro telão. Mas, um sentimento de arrependimento veio logo em seguida.
– Fo-Folger… – Falei com nó na garganta, como se todo o meu ar tivesse ido embora de repente.
Folger estava vestido com uma armadura de madeira coberta de papel-alumínio que havíamos feito em casa. Ele apareceu segurando uma espada de madeira e ficou na minha frente, me protegendo.
Memórias desse dia voltaram como espinhos de uma rosa. Nós nos divertimos, rimos e fizemos muitas piadas a respeito do roteiro que havíamos escrito. Nesse dia, Folger até deixou de ir ao trabalho apenas pra nos ajudar. Quanto mais eu lembrava, mais meu coração sangrava com os espinhos perfurando cada vez mais profundamente.
– Desculpa, preciso sair. – Falei enquanto corria em direção à saída.
Corri do estúdio em direção ao banheiro me segurando pra não desabar no meio do corredor. Felizmente, era horário de aula pra todos os cursos e os corredores estavam vazios. Entrei no banheiro, me escondi e me tranquei em um dos boxes e comecei a chorar incontrolavelmente. Não era a primeira vez que chorava no banheiro, tampouco seria a última.
Não fazia ideia de quanto tempo eu havia passado chorando no banheiro, mas pude ouvir alguém entrando.
– Sam, cadê você? – Disse uma voz feminina, preocupada.
– Vá embora! – Gritei agressivamente.
– O banheiro é publico. Vamos, sai daí.
A mulher começou a bater na porta do box em que eu estava.
– Sou eu, Amy. Vamos, sai daí. A nossa apresentação já acabou. O professor adorou! – Amy disse animada.
– Eu não ligo! – Falei agressivamente.
– Oi amorzinho. – Amy disse animada.
Quando olhei para cima, Amy estava me olhando por cima do box ao lado.
– O que foi? Por que tá chorando? – Amy perguntou preocupada.
– Não interessa. – Respondi em voz baixa.
– Se não interessasse, não perguntaria. – Amy disse ironizando.
– Ele tava no projeto… eu… não tava preparada pra isso… – Falei tentando engolir o choro.
– Oh… foi isso… – Amy olhou pro lado com um olhar de culpa. – Me desculpa por isso. Eu teria te perguntado antes, mas como ainda era um assunto delicado…
– Tudo bem, não precisa se desculpar. Mas ainda assim… – Falei tentando me acalmar.
– Você quer ir embora mais cedo? Eu posso avisar ao professor e pegar suas coisas--
– Não, relaxa. Eu… eu só preciso me recompor. Se eu ir pra casa vai ser pior. – Falei um pouco agitada, interrompendo Amy.
– Por que? – Amy perguntou com muita confusão na voz.
– Você sabe como são meus pais… – Respondi séria.
– Ah sei… uns amores… – Amy disse com um forte sarcasmo.
Amy pulou do box e entrou no meu, quase me acertando por poucos centímetros.
– Você tá maluca?! – Gritei.
– Vamos, eu vou te ajudar. Se alguém te ver assim vai ser pior. – Amy falou animada.
Amy destrancou a porta, me levantou e me puxou até a pia do banheiro. Pela segunda vez no dia, minha maquiagem estava borrada por lágrimas e eu estava parecendo uma palhaça de filme de terror.
Peguei um pedaço de papel e comecei a tirar minha maquiagem.
– Fica de olho na porta, por favor. Não to a fim de receber bullying hoje. – Falei agitada, me apressando em tirar a maquiagem.
– Quem anda fazendo bullying com você? – Ela perguntou indo em direção à porta.
– Todo mundo. Isso serve de resposta? – Respondi grosseira.
– E por que? – Amy perguntou indignada.
– Não sei. Talvez porque eu seja uma pessoa deprimente, estranha e um completo ninguém?! – Respondi agressivamente irônica.
– Então deixe de ser! – Amy disse na mesma moeda.
– Você diz como se fosse fácil… – Falei tentando me acalmar, mas ainda um pouco agressiva.
– Não vou dizer que a vida é fácil, mas também não se pode deixar ficar assim pra sempre! – Amy disse preocupada.
– Você é tão cheia de respostas. Me diga então como vou parar de sofrer bullying? – Falei sarcasticamente.
– Só fracos recebem bullying. Quando você é radical, como eu, você deixa na primeira. Na segunda, você pega o primeiro objeto na sua frente e vai direto na cabeça. – Amy disse quase rindo da própria resposta.
Eu parei no mesmo instante de limpar o rosto e tive que olhar pra expressão de convencida que Amy tinha em seu rosto.
– Mas que MERDA você tá falando?! Você tá aqui pra me ajudar ou o quê? – Falei indignada.
– Desculpa, mas é assim que resolvo as coisas. Tava só tentando a-
– Olha, vamos logo voltar pro estúdio. – Falei interrompendo Amy, terminando de lavar o rosto.
Assim que terminei de lavar e limpar meu rosto, joguei os papéis no lixo e apaguei a luz. Mas, quando ia fechar a porta, pude ver uma figura humana parada atrás de mim através do espelho, mas quando olhei para trás, não havia ninguém. Fechei a porta e seguimos de volta pro estúdio. Devia estar chegando em algum estágio de loucura. Ao menos não precisaria assistir nosso projeto de novo.
Saída
12:02
Quando a aula finalmente terminou, ficamos um pouco mais no estúdio pra tirar umas duvidas com o professor sobre a prova que teríamos e, então, saímos do prédio, famintas. Mal podia ver a hora de voltar para casa.
– Espero que seja só eu, mas sinto que essa prova vai ser um inferno. – Amy disse pegando seu celular do bolso.
– As vezes acho que o professor nos odeia. – Falei sarcástica, mas com a voz falhando.
– Você acha? Eu tenho certeza! Ele é meio louco de todo modo. – Amy disse mexendo em sua bolsa, pegando sua carteira. – Ei, quer ir comer alguma coisa? Tem uma lanchonete aqui perto.
– Não, eu não trouxe dinheiro. – Falei calmamente.
– Não tem problema, eu pago. – Amy disse animada.
– Não precisa, sério. Eu já vou pra casa. – Falei soltando uma leve risada.
– Mas você é difícil viu? VAMOS!
Amy me pegou pela mão e me puxou pela rua em busca de uma lanchonete. Por mais que eu dissesse não, era difícil fazer ela entender. Mas, no fundo, eu queria passar um tempo com ela, apenas não queria que tivesse que gastar dinheiro comigo.
No caminho, vimos dois homens parados na entrada de uma loja de equipamentos esportivos, dois brancos, mais velhos que nós e fortes. Um vestia uma camisa polo azul e o outro vestia uma camisa xadrez branca com linhas azuis. Percebemos seus olhos nos observando, mas apenas seguimos reto sem dar atenção. Porém, uma péssima sensação começou a me incomodar. Ao olhar pra trás, os dois homens estavam nos seguindo. Começamos a andar mais rápido até chegar em algum lugar movimentado. Eles não poderiam nos incomodar lá.
Encontramos uma pizzaria no caminho um pouco antes da lanchonete em que iriamos. Como parecia estar mais movimentado do que a lanchonete, decidimos ficar por lá mesmo.
– Ótimo, era só o que precisávamos. – Falei sarcasticamente incomodada.
– Relaxa, eles não vão ficar aqui por muito tempo. – Amy disse calma
– Espero que esteja certa. – Falei olhando fixamente para eles, irritada.
– Sam, pode ir pedindo nossa pizza e encontrando uma mesa? Preciso ir ao banheiro. – Amy perguntou calma, indo em direção ao banheiro.
– Tá, vai lá. – Respondi indiferente, como se fosse automático.
Enquanto Amy ia ao banheiro, fiquei no balcão de atendimento pedindo nossa pizza. Não conhecia essa pizzaria e muito menos sabia se era boa, apenas pedi uma pizza de muçarela quatro queijos e me sentei em uma mesa no canto direito da pizzaria, um lugar longe das janelas, escondida. Após alguns minutos, Amy se juntou na espera.
Após vinte minutos, a pizza estava pronta. Devoramos a pizza inteira em dez minutos. Conversamos por cinco minutos e os homens ainda estava na porta da pizzaria. Eles não sairiam a menos que nós saíssemos.
– Eles ainda estão lá fora. E agora? – Falei baixinho para Amy.
Amy não respondeu nada naquele momento, apenas olhou para fora com o punho fechado e bufou, voltando sua atenção para mim novamente.
– Ugh, homens! – Amy resmungou.
Ela olhou novamente. Um deles estava gesticulando de uma forma estranha, alterado.
– E ainda estão bêbados! – Amy disse furiosa.
– Precisamos achar um jeito de sair. Eu não vou morar em uma pizzaria por causa de dois escrotos. Eu já devia estar em casa essa hora. – Falei irritada.
– Calma, Gatinha. A gente vai sair daqui. Só me deixe pensar um pouco.
Amy colocou a boca apoiada em seu punho fechado e começou a bater na mesa com suas unhas da outra mão.
– Já sei. Tem uma delegacia no outro lado da rua. É algumas quadras daqui, mas não é longe. Se conseguirmos atravessar a rua já estamos em vantagem. – Amy disse baixinho para mim.
– Não acha arriscado, ainda mais nesse horário? – Perguntei insegura desse plano.
– Não quero nenhum macho estranho encostando os dedos em mim. Tem alguma ideia melhor? – Amy respondeu irritada.
Apenas neguei acenando com a cabeça. Não concordava com a ideia dela, mas não via muitas opções. No fundo, única coisa que eu queria é que morressem e nos deixasse em paz.
– Então vamos! – Amy disse séria, olhando fundo nos meus olhos.
Nos levantamos da mesa e segui em direção à porta enquanto Amy ia ao balcão pagar a conta. Observei a rua por um momento e não parecia ter tanta movimentação. Mas, foi só Amy se juntar a mim que carros, ônibus e caminhões surgiram do inferno apenas para nos atrapalhar.
Assim que saímos da pizzaria, nosso plano já havia dado errado. Os homens haviam conseguido bloquear nosso caminho na calçada. Amy segurou forte minha mão e tentou passar por um deles, mas ele persistia em bloquear.
– Ei, pra quê a pressa? Vocês duas são tão lindas. Por que vocês não vem com a gente? Vamos nos divertir muito lá em casa. – Disse o homem de camisa xadrez com um terrível bafo de cerveja barata.
– Nos deixem em paz. Não estamos com paciência pra idiotas como vocês. – Disse Amy enquanto empurrava o homem pra fora do caminho.
– Vocês vão realmente fazer isso com a gente?! Vamos pegar vocês, vagabundas! – Disse o homem de camisa polo.
– Não liga pra eles. – Amy disse apertando o passo enquanto me puxava.
Continuamos a caminhar pela calçada esperando o tráfego ficar mais calmo. Enquanto isso, os dois homens continuavam nos seguindo. Minha ansiedade já estava disparada e meu nervosismo estava me matando.
– Eu não entendo, o que eles querem com a gente? O que eles viram em nós? – Falei em evidente desespero.
– Eles não estão a fim de beleza, são apenas dois imbecis bêbados e excitados. – Amy disse furiosa.
Quando o tráfego finalmente acalmou, nós seguimos atravessar a rua, mas um dos homens agarrou minha mão, puxando Amy junto e nos fazendo parar no meio da rua.
– Me solta! – Gritei tentando fazer o homem soltar minha mão.
Nesse momento, senti um vento gelado passando pelo meu rosto. De repente, ouvimos um barulhento e constante buzinar de um caminhão. Em um piscar de olhos, o caminhão atropelou os dois homens na nossa frente, derrapou e virou pela rua, atingindo um prédio próximo, pintando a pista com duas longas trilha de sangue e órgãos. Meu coração parecia ter parado por um instante, havia ficado sem ar, tudo parecia ter acontecido em câmera lenta na minha frente. Quando finalmente assimilei o que havia acabado de acontecer, gritei em choque, me soltei da Amy e corri pra calçada, onde tropecei no meio-fio.
– Oh Deus. Sam, espera! – Amy gritou.
Amy correu em minha direção, mas eu não reagi aos seus gritos, apenas não podia tirar o olhar do acidente e tremer. Não demorou pra começar a chorar.
– O-o que foi isso??? Por-por que isso tinha que acontecer??? – Falei com nó na garganta.
– Você está bem? Eles te machucaram? – Amy perguntou desesperada me segurando pelos ombros.
– O caminhão passou na minha frente… Eu podia ter sido atingida! Eu-
– Mas você não foi, isso que importa! Agora se controla, eu sei que foi horrível de ver, eu também estou chocada, mas temos que voltar pra casa. Ficar aqui não vai nos ajudar em nada! – Amy disse com a respiração alterada enquanto calava minha boca com sua mão.
Ela pegou minha mão, me levantou e me abraçou forte. Podia ouvir e sentir o coração dela batendo rápido como tambores. Eu não sabia o que sentir, mas sei que ela me mantinha segura. Me fazia sentir segura.
– Vamos, eu vou te levar pra casa. Hoje não é um bom dia pra ficar na rua. – Amy disse enquanto me abraçava e caminhava.
Eu sabia que eu estaria segura com ela não importasse a situação. Eu não a merecia. Não seria digna de seu amor e afeto. Me sentia um lixo por não ser tão boa quanto ela. Jamais conseguiria proteger alguém como ela me protegia.
Casa da Samantha
13:56
Quando chegamos em minha casa, Amy me acompanhou até a sala e me ajudou a me sentar no sofá. Ainda estávamos abaladas, perturbadas com a cena que haviamos presenciado. Por mais que eu tentasse esquecer, não conseguia tirar as imagens da cabeça. Meu corpo tremia incontrolavelmente, havia chorado durante o caminho inteiro e já sentia que não havia mais o que chorar.
– Se continuar assim, vai secar. – Amy disse forçando um tom animado.
Amy ficou em silêncio com um sorriso no rosto, mas, assim que notou que eu não quis dizer algo e ainda estava chorando, ela tirou aquele sorriso rapidamente.
– Eu sei que aquilo foi horrível de ver, mas acontece! – Amy disse tentando me confortar.
– Se fosse só aquilo… – Sussurei.
– Então o que foi? – Amy perguntou.
– Eu… eu queria que ele estivesse aqui. Ele saberia como me confortar… – Falei tentando conter o choro.
– Eu não sei? É isso? – Amy perguntou indignada.
– O que? – Perguntei surpresa com sua resposta.
– Você tá literalmente dizendo que não sou boa em te confortar. É isso? Tudo bem então, vou pra casa. Tchau. – Ela disse enquanto arrumava sua bolsa e andava em direção à porta.
– Não, não é isso! – Falei nervosa.
Me levantei do sofá num pulo e me agarrei nas costas da Amy, apertando sua cintura com força.
– Por favor, fique. – Falei tentando me acalmar, mas desesperada devido ao meu erro na escolha de palavras.
Amy deu uma risadinha, me soltou e se virou, me apertando com seu abraço e forçando minha cabeça em seus peitos na qual eu tentei me afastar.
– Mas é claro que eu fico, Gatinha! Era só brincadeira, tá? – Amy disse rindo.
Ela me soltou, mas me olhou nos olhos um pouco entristecida, porém, com evidente marca de sorriso no rosto.
– Mas… por favor, não diga aquilo novamente. Eu sei que não sou o Folger, mas eu estou tentando fazer o meu melhor por você. – Amy falou.
– Eu sei, não foi essa minha intenção. É que- – Falei nervosa tentando me explicar antes de ser interrompida.
– Tudo bem, eu entendi. Eu sou sua amiga, não vou te largar de uma hora pra outra. – Amy disse calmamente, com sinceridade e conforto na voz.
Por um momento, ela havia conseguido tirar um sorriso sincero de meu rosto após horas chorando rios.
– Você tem um sorriso tão lindo. Adoro quando você sorri. – Amy disse olhando fixamente para mim.
Nós nos abraçamos com carinho. Coloquei minha cabeça em seu ombro e ela começou a acariciar meus cabelos de um jeito suave e confortante, como Folger fazia.
– Por favor, Sam. Tente esquecer o dia de hoje. Toda vez que pensar a respeito, pense em outra coisa. Pense em coisas positivas. – Amy disse enquanto passava a mão em meu cabelo.
– Não é tão fácil quanto você faz parecer. Eu não controlo esses pensamentos persistentes… – Falei calmamente, soltando um leve suspiro.
De repente, ela parou de me acariciar. Quando levantei a cabeça, ela colocou seu colar em meu pescoço. Um colar feito com barbante e uma paleta verde de guitarra pendurada.
– Então, toda vez que se sentir mal, leia o que está atrás da paleta e lembre-se de mim. Enquanto estiver com esse colar, eu estarei com você. – Amy disse carinhosamente.
– O-o que? Eu… Não, não, eu não posso aceitar. Esse colar é seu. – Falei em choque com a surpresa.
– Era. Agora é seu e quero que guarde com carinho. Não é o melhor presente… mas é de coração. – Amy disse.
– E-eu… eu não tenho palavras pra-
– Não precisa dizer nada. É um presente meu pra você e farei o possível pra te ver bem. Fiz esse colar quando ainda estava no colégio- – Amy disse carinhosamente antes de interrompe-la.
– Na aula de artes!? Quando tivemos que fazer nossos próprios acessórios? – Perguntei um pouco mais confortável e sorridente.
– Sim! Como sabia? – Amy perguntou surpresa.
– Nos conhecemos nesse dia. Lembro que você tinha me chamado por causa da minha pulseira espetada feita com couro e pedaços de latinhas. – Falei soltando uma leve e curta risada.
– Eu lembro disso! Por falar nisso, nunca mais te vi com aquela pulseira. Eu adorava ela. – Amy disse animada.
– Eu… joguei fora. Aquilo machucava. – Falei constrangida.
– Ah… mas que droga. – Amy disse decepcionada.
De repente, ouvimos motor de carro e o portão da garagem se abrindo. Nesse momento, nós duas pulamos do sofá na mesma hora.
– Meus pais chegaram! – Falei surpresa.
– Essa é minha deixa. Tchau, Gatinha. – Amy disse me dando um beijo na testa.
– Tchau. Vai pela cozinha! – Falei com pressa, levando Amy até a cozinha.
Ela abriu a porta da cozinha, mas, antes de sair, ela parou e se virou pra mim.
– Ei, Sam. – Amy disse sorrindo.
– O que? – Perguntei com um olhar sério.
– Sabia que eu ia conseguir te distrair. – Amy disse piscando para mim e soltando um sorriso convencida.
Eu não havia conseguido entender o que ela queria dizer com isso, mas, assim que o carro entrou na garagem e o motor desligou, eu corri para porta da cozinha e expulsei Amy antes que meus pais entrassem. Logo em seguida, peguei uma folha de papel toalha e comecei a limpar as marcas de lágrimas do meu rosto.
Assim que terminei, meus pais entraram com algumas sacolas de compras e levaram direto pra cozinha. Eles olharam um pouco suspeitos para mim por um momento.
– Aquela garota não esteve aqui, né? – Meu pai disse desconfiado.
– N-não. Ela foi direto pra casa depois do curso. – Falei tentando mentir para eles… algo que não sou boa.
– Mas esse cheiro de perfume masculino… – Minha mãe disse cheirando o ambiente.
– Fui eu. Ahn.. Meu perfume acabou e precisei de um, então peguei o do pai. – Falei ficando um pouco nervosa.
– Ah. Você tá muito mal influenciada por aquela nojenta. Não me surpreende os pais dela terem a largado. – Minha mãe disse em um tom agressivo.
– E não use meu perfume! É pra homens, não garotas! Sem falar que são caros pra ficar gastando. – Meu pai disse dando uma leve bronca.
Toda vez que meus pais chegavam era uma briga diferente. Quando Amy estava aqui era ainda pior. Eu não os aturava de jeito algum, mas não tinha o que fazer, era submissa a eles. Se não fosse, seria expulsa ou sofria alguma agressão diferente. A paz momentânea que Amy tinha conseguido me fazer sentir se foi num instante e a vontade de chorar havia voltado.
– Tá bom, desculpa. Eu vou pro meu quarto. – Falei indo em direção às escadas.
– Tá. Daqui a pouco o almoço tá pronto. – Minha mãe disse indo para cozinha com as compras.
– Tá. – Gritei.
Subi as escadas, fui direto para o meu quarto e me tranquei. Não demorou pra começar a chorar novamente. Me joguei na cama e chorei no travesseiro apenas para ninguém poder me ouvir. Meus pais pouco se importavam, apenas queriam que eu fizesse aquilo que eles mandarem e meus sentimentos pouco importam.
Enquanto chorava, senti alguém encostar em meu ombro. Por reflexo, eu havia colocado minha mão no ombro e senti a mão de alguém ali, mas, quando percebi que havia alguém me tocando, me virei e não havia ninguém. Observei todo o quarto e não havia absolutamente ninguém. Eu achava estar louca. Severamente louca!
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