quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Capítulo 9 - No Jardim

 ~Legends Hunter~

Capítulo 9

No Jardim


Os dias em minha mente estava passando em um piscar de olhos. A verdadeira Eu havia chegado no limite. Sem ter paz em vida e sem paz em sua própria mente, já havia aceitado o sofrimento eterno que teria que suportar. Aos poucos, as cercas no quintal ficavam mais e mais protegidas, ficando mais altas ou adicionando arames. As janelas estavam sendo protegidas por grades. Não sabia dizer se essas proteções eram para me proteger ou proteger a si mesma das memórias perturbadoras, mas, de todo modo, estava sentindo os efeitos de sua escolha. Não aparecia mais ninguém aqui. Victoria havia desaparecido por completo e a única coisa que podia fazer era olha o mundo exterior pela janela do quarto. Estava adoecendo na solidão igual a ela.

Houve um tempo em que ela tentou se afastar das pessoas, evitar amizades e conversas. Mais uma vez, memórias haviam sido engatilhadas, mas não eram prejudiciais, apenas serviam para lembrar dessa fase de sua vida. Felizmente, isso não durou muito tempo. Samantha sabia que isso não era de seu feitio. Ela adoeceu por um tempo pela falta de contato com outras pessoas, o que a fez querer ter novas amigas. EU queria ter mais amigas. Mesmo sendo apenas parte da mente da Samantha, eu podia sentir que não estava contribuindo em nada para fazê-la esquecer da triste situação que ela estava. Se eu não encontrasse alguém para conversar logo, nós duas enlouqueceríamos.

Ignorando um pouco a segurança ao redor da casa, deixei algumas pessoas entrarem, mas apenas Victoria veio. Não era a melhor das visitas, mas ao menos tinha com quem conversar agora. Não dava pra saber se adiantaria algo, já que era apenas uma memória conversando com a própria mente, mas se isso a ajudasse a se distrair então era o certo.

Oi, Vic. Bem-vinda. – Falei sem entusiamo algum.

Oi. – Falou Victoria no mesmo humor.

– Entre, por favor. – Falei liberando passagem.

Por que você me chamou? Você não vai ficar chorando de novo, né? Por favor, isso é ridículo! – Falou Victoria de forma rude.

O que? Não, não! Eu só queria conversar. – Falei em pânico.

– Falar sobre o que?

– É… É sobre algo que aconteceu uns dias atrás. – Falei envergonhada.

Ou seja, problema, como sempre. É só disso que você sabe falar!

– Eu não posso ter alguém para desabafar?! Eu não quero ficar guardando problemas! – Falei irritada.

E eu não sou obrigada a ficar suportando essa sua negatividade. Tchau. – Falou Victoria se virando e indo embora.

Vic, espera!

Victoria caminhou em direção à saída e, então, desapareceu sendo levada como poeira ao vento. Sua casa também desapareceu logo depois, assim como Weslley.

Não… de novo não...

Eu não conseguia entender qual era o meu problema. Não entendia o por que de todos se afastarem de mim ou por que me exploravam. Eu não queria machucar ninguém sendo um poço de problemas, mas acho que era isso que estava destinado para mim; ser nada além de um poço de problemas.

Fechei a porta e me sentei na poltrona em frente a lareira. Precisava pensar. Mesmo sabendo que eu conhecia mais pessoas além da Victoria e Weslley, não tinha certeza se mais pessoas apareceriam aqui. E, se aparecessem, eu estava com um medo real de afastá-las com meus problemas como fiz com a Vic. Estava realmente destinada a sofrer sozinha, mesmo que eu não quisesse… até que, tal pensamento, me deu uma ideia.

Corri para o quarte e comecei a vasculhar armários e gavetas em busca de papéis e algo para pintar. Quando olhei nos fundos da minha gaveta de presentes, encontrei meu antigo caderno de desenhos, ainda com algumas páginas em branco. Logo ao lado, estava meu estojo com meus lápis e canetas.

Olhando um pouco o caderno, tive lembranças de diversos momentos da minha vida, pois cada desenho tinha um significado. Eu nunca fui boa em desenho, pois nunca foi o meu forte, mas eu sempre desenhava quando não conseguia colocar sentimentos em palavras. Rever esses desenhos era como ver um diário feito de imagens.

O primeiro desenho que observei era de uma figura humana com vários cortes no corpo, mas as mãos cheias de sangue. Levei um tempo para tentar lembrar do que se tratava, mas então lembrei que isso foi feito em uma época que eu só queria soltar minha raiva interior, mas não tinha coragem de machucar ninguém, então apenas me machucava.

O segundo desenho era uma tentativa falha de fazer um retrato do Folger, quando ainda tinha uma admiração por ele, bem antes de começarmos a namorar. O desenho, porém, nunca foi finalizado, pois minha falta de habilidade me levou a abandonar o desenho e me desmotivar.

O terceiro desenho, porém, era o mais importante e curioso. Era de uma garota plantando pedaços de papéis num jardim e as flores que nasciam tinham rostos de pessoas que eu admirava, sejam amigos próximos ou artistas. Esse desenho foi feito quando estava sozinha, mas queria ter alguém próximo para me fazer companhia. Agora, esse desenho iria ser minha forma de colaborar para distrair Samantha de sua dor.

Usando as páginas em branco, peguei meus lápis de cores e uma caneta e comecei a desenhar meus amigos, mas, invés de pensar nos amigos conhecidos, desenhei amigos novos, pessoas que iriam me entender e estar comigo sem me abandonarem. Claro, como minha habilidade em desenho ainda era horrível, não estava me esforçando muito para fazer algo bem-feito, mas bonito o suficiente para deixar minha mente fazer todo o trabalho.

Depois de horas desenhando novos amigos, construindo suas personalidades e características únicas, arranquei os papéis do caderno e fui até o quintal. Do quintal, pude ver um caminho de árvores logo atrás da casa. Quando me aproximei, percebi um enorme jardim com vários pontos prontos para plantação. Usaria esse exato jardim para plantar meus novos amigos.

Caminhei em direção a uma das fileiras de terra, cavei um buraco para cada amigo e picotei os papéis, jogando cada pedaço do respectivo desenho em seu devido buraco e os enterrei. Eu sei que isso parece loucura, mas eu já estava no meu limite e nada mais fazia sentido, então qual era o problema de plantar e colher amigos novos? Afinal, estaria fazendo dos meus últimos dias, dias mais felizes para mim e para Samantha.

Voltei para casa, fui até a cozinha e fiz chá. Logo depois, me sentei na poltrona em frente a lareira e tentei relaxar enquanto bebia uma xícara de chá quente. Estava um pouco ansiosa para saber se essa ideia louca funcionaria, mas não podia fazer nada além de esperar.

Logo após tomar meu chá, voltei para meu quarto e peguei meu diário na minha gaveta de presentes. Precisava anotar mais algumas coisas. Lógico, sendo meu diário, isso traria ainda mais memórias. Mas pouco importava. Milagrosamente, eu não estava preocupada com isso. Uma vez na vida eu não me preocupei com algo. Voltei para a sala, me sentei na poltrona e comecei a ler o diário, trazendo mais memórias. Victoria… Weslley… Jennifer… Eddie… nomes de pessoas que já haviam saído da minha vida de vários modos diferentes, mas todos por minha culpa… exceto Weslley.

Havia nomes de pessoas que eu queria muito e que, se estivessem comigo, não estaria nesta situação. Amy… Folger… As duas pessoas que mais se importaram comigo, mesmo com todos os problemas que causei. Não sei o que Folger faria se ele estivesse comigo. Talvez não estivesse presa em minha casa, talvez estivesse terminando minha faculdade, teria seguido bem minha vida. E Amy… Eu precisava urgentemente dela, mas ela fugiu… assim como todos em minha vida. Era a traição de quem menos esperava, mas era questão de tempo. Apenas espero que ela possa me perdoar…

Meus pais, por outro lado, é por culpa deles que eu estava nessa situação. Sempre fui a “garota preciosa” da família, sendo extremamente protegida e tendo total atenção, seja boa ou ruim. Fui criada sabendo respeitá-los seja por bem ou por mal, mas… O que eles faziam comigo não me fazia respeitá-los, apenas me fazer sentir medo deles. Medo… Medo é a definição de nosso relacionamento ao longo dos anos. Ainda mais tendo pai policial e mãe juíza, ambos criados com pais exigentes e conservadores, era a receita perfeita para arruinarem minha vida. Imaginava se era por motivos parecidos que Amy largou dos pais dela e buscou morar sozinha tão cedo. Talvez se eu tivesse feito o mesmo… se eu não tivesse voltado para casa, tudo seria diferente… enfim.

Após horas lendo meu diário e lembrando de vários momentos da vida, anotei o dia de hoje e alguns acontecimentos recentes e voltei para o quarto. Já ia anoitecer e precisava dormir. Novamente, o dia ainda estava passando mais rápido que o comum.

De repente, ouvi um estrondo vindo da casa ao lado. Olhei pela janela, mas não via nada de errado, mas seja lá o que tivesse acontecido, podia ser interferência exterior. Não sabia dizer o que estava acontecendo com a Samantha, pois esse era o mundo dela agora, mas talvez eu fosse ouvir coisas que acontecessem no exterior.

Vendo que nada parecia ter mudado no mundo e que tudo ainda estava normal, tomei banho, troquei minhas roupas e me deitei. Apenas não sabia o que esperar do próximo dia. Porém, mesmo enquanto dormia, fui perturbada diversas vezes por barulhos vindo da casa ao lado. Algo estava muito errado ali, mas não iria ir investigar.

No dia seguinte, fui acordada bem cedo por barulhos na minha porta. Mesmo de pijama, fui correndo até a porta abrir. Até que, para minha surpresa, dei de cara com pessoas novas, pessoas humanas, parados na frente da minha casa para me receberem. O meu plano deu certo, eu tinha novos amigos!

Por favor, entrem! – Falei alegre abrindo passagem.

Os cinco amigos entraram na minha casa, me abraçando e dando beijos nas bochechas, todos felizes por me verem e eu feliz por vê-los. Três ficaram parados perto de mim, esperando fechar a porta. Mas dois já foram diretos para o sofá.

Vamos, sentem-se. – Falei após fechar a porta e me dirigindo até minha poltrona.

Os outros três sentaram próximos dos outros dois, não sobrou espaço no sofá e o amigo restante teve que se sentar na outra poltrona, próximo de mim.

Bem-vindos à minha casa. Quais são seus nomes? – Perguntei educadamente.

Você quem nos criou. Você decide como vamos nos chamar. – Falou o amigo ruivo.

– Espera, nenhum de vocês possuem nomes? – Perguntei surpresa.

Em silêncio, todos apenas negaram em um gesto com a cabeça. Isso havia me pegado de surpresa, pois esperava que cada um tivesse um nome próprio quando os coloquei para crescer. Mas era minha culpa, eu devia ter imaginado isso quando montei suas personalidades.

Bem… então… sendo assim… Acho que vocês precisam de um nome… certo? – Perguntei extremamente nervosa.

Não fique nervosa, Sam. Não estamos lhe julgando. Por favor, fique á vontade para pensar em nossos nomes. – Falou a garota de cabelo escuro.

Oh… – Falei surpresa pela gentileza e calma dela – Obrigada.

Como realmente não podia deixar todos sem nomes e não chamaria eles de “Amigos” e colocar apenas um número como se fossem prisioneiros, precisei parar um pouco para pensar.

Comecei pela garota de cabelo escuro que acabara de falar comigo. Ela parecia ser gentil e compreensiva, o tipo que eu mais precisava. Ela era alta, magra, mantinha o longo cabelo escuro alisado preso, usava bastante maquiagem e vestia roupas caras, principalmente vestidos.

Você vai se chamar… Priscilla. – Falei apontando para a garota de cabelo escuro.

Obrigada, Sam! – Falou Priscilla com um sorriso e os olhos fechados.

O próximo seria o garoto ruivo que havia respondido primeiro. Ele era alto, forte, mas magro. Seu cabelo era ruivo e tinha um visual bem bagunçado bem espetado. Parecia ter a personalidade forte e um jeito bem durão e direto. Precisava de alguém com tais características para me proteger.

Você… Você vai se chamar Samuel. – Falei apontado para o garoto ruivo.

Tudo bem por mim. – Falou Samuel em um tom indiferente.

A próxima era uma garota morena, mediana, magra e com longos cabelos negros. Assim como Samuel, ela parecia ser durona também, mas passava uma energia divertida para nós. Seria ótimo ter alguém que passe boas energias para nós.

Você vai se chamar… Allana. – Falei apontando para a garota morena.

Obrigada! – Falou Allana fazendo um sinal de aprovação com o dedão.

O próximo era um garoto moreno, baixo, magro e de cabelo castanho e curto. Ele parecia ter muita energia, pois, mesmo sentado no sofá, ele mexia as pernas com frequência e quicava no sofá. De olhar, já podia perceber que era do tipo agitado, extremamente animado e provavelmente falador.

Você vai se chamar…

– Ei, posso sugerir um nome? Por favor!!! – O garoto falou me interrompendo.

Hm… Claro, sem problemas. – Falei surpresa.

Ruan! Eu gosto de Ruan, soa legal, não? Espero que goste! – Ruan falou animado.

Gostei. Muito bom. Será Ruan então.

– Obrigado!!! – Falou Ruan ficando mais agitado.

Por fim, só havia restado um garoto. Um garoto branco, alto, mediano e com cabelo escuro chegando até o ombro. Desde o começo da conversa, ele não havia dito uma única palavra, mas sentava de forma educada e apenas nos ouviu nesse tempo todo. Com certeza tinha um estilo mais reservado, educado e discreto.

Você também quer escolher seu nome? – Perguntei olhando para o garoto.

Não, muito obrigado, Samantha. Por favor, prefiro que escolha meu nome. – Falou o garoto sem tirar o olhar sério do rosto e dizendo as palavras lentamente.

Certo… Você vai se chamar Frank, tudo bem? – Perguntei.

Hm… Obrigado. – Falou Frank em um tom envergonhado.

O que foi? Não gostou?

– Não, não é isso. Apenas… não sei reagir, desculpa. – Frank falou escondendo o rosto.

Não não, está tudo bem. Ainda estou conhecendo vocês. Espero que vocês gostem de mim. – Falei olhando para todos.

Estamos aqui para ajudar no que for. Basta dizer. – Falou Priscilla.

Obrigada! – Falei com um sorriso fraco no rosto. – Vocês aceitam chá? – Perguntei.

Eu aceito! – Falou Priscilla e Allana com as mãos levantadas.

Aceito uma xícara. – Falou Frank sem expressão.

Não, obrigado. – Falou Samuel

Com açúcar pra mim! – Falou Ruan com as mãos levantadas.

Certo. Já volto. Podem passear pela casa se quiserem. Fiquem á vontade. – Falei indo para a cozinha.

Obrigado! – Falaram os garotos.

Obrigada – Falou Priscilla.

Precisa de ajuda com alguma coisa, Sam? – Perguntou Allana.

Se quiser me acompanhar, não ia reclamar.

Com os outros na sala, eu e Allana fomos até a cozinha preparar chá. Talvez algo mais sairia também. Ainda estava me acostumando a ideia de ter meus próprios amigos. Ao mesmo tempo que era estranho, era bom, pois já não me sentia mais sozinha. Isso estava funcionando bem, mas não sabia até quando funcionaria. A verdadeira Samantha estava morrendo no mundo real. Mas, enquanto tivesse alguém com quem conversar na minha mente, talvez aguardar a morte não seria tão doloroso.

Então, conte mais sobre você. – Falei para Allana.

O que posso contar? – Perguntou Allana.

Não sei, conte o que quiser. – Respondi.

Não, o que eu posso contar? Tipo… Eu não tenho nada para contar. Eu ainda não experimentei muito do mundo.

– Ah… Desculpa. – Falei me arrependendo de ter perguntado.

Tudo bem, somos novos afinal.

Sem responder por vergonha, peguei a chaleira elétrica, enchi com água e liguei para ferver a água. Enquanto isso, Allana pegou farinha do armário, fermento em pó, essência de baunilha, chocolate picado e açúcar. Logo depois, foi até a geladeira e pegou manteiga e ovo e colocou todos no balcão.

O que você vai fazer? – Perguntei.

Cookies de chocolate. – Respondeu Allana pegando uma tigela no armário.

Você saber como fazer cookies!? – Perguntei surpresa.

Posso aprender. – Falou Allana misturando ingredientes em uma tigela.

Enquanto Allana tentava cozinhar, eu fui até o armário e peguei xícaras para todos, mas uma coisa me incomodava: Todas as xícaras eram iguais as que meus pais tinham. Não apenas eram as xícaras dos meus pais mas também eram xícaras feias, não havia nenhuma que não fosse deles. Obviamente, fiquei decepcionada.

Ah… só tenho xícaras feias. – Resmunguei

Crie novas. – Falou Allana ainda misturando ingredientes.

Criar novas? Do que você tá falando? – Perguntei intrigada.

Você nos criou, não? Você pode criar xícaras novas. – Respondeu de forma positiva.

Isso fazia sentido. Afinal, esse é meu mundo, eu o criei e posso fazer o que quiser com ele! Fazer xícaras novas não seria complicado.

Encarei a xícara em minha mão e comecei a pensar em formas e desenhos para uma nova xícara. Todas as formas que pensava alteravam a xícara em tempo real, como se fosse um líquido que se solidificaria assim que eu encontrasse a xícara ideal. Quando finalmente encontrei a forma perfeita, todas as outras xícaras tomaram a mesma forma de crânio de cor preta. Não conseguia acreditar que aquilo realmente funcionava!

Isso funciona! Posso fazer isso com qualquer objeto!? – Perguntei eufórica.

Você inventou esse mundo, você tem controle de qualquer coisa. – Respondeu Allana calmamente.

Obrigada! Não teria pensado nisso sozinha.

Quando olhei para Allana, ela estava batendo massa para os cookies. Então, de repente, a batedeira virou uma bandeja com todos os cookies crus já feitos e prontos para irem para o forno.

Como você fez isso!? – Perguntei impressionada.

Como fiz o quê? – Perguntou Allana.

Isso! – Respondi impressionada e intrigada.

Isso o quê?! – Perguntou confusa.

Você transformou a massa crua em cookies instantaneamente! – Falei impressionada.

Eu não fiz nada demais. Eu segui a receita normalmente. – Falou Allana indo levar os cookies ao forno.

Receita…? Eu não conseguia entender o que acabara de acontecer. O mais estranho é que eu não sabia fazer cookies.

Allana colocou os cookies para assar e, logo depois, foi até o congelador, pegou um picolé de flocos e sentou na cadeira perto da mesa de jantar.

Então, o que gosta de fazer? – Allana perguntou antes de dar a primeira mordida no picolé.

Vocês não sabem? – Perguntei.

Por que saberiamos? Somos suas criações, não seu diário. – Allana respondeu grosseiramente.

Ah… – Falei desviando o olhar. – Desculpa, eu achei que--

Não, tudo bem, ainda estamos aprendendo. – Allana falou. – Enfim, conte logo o que gosta de fazer!

Tive que me sentar um pouco e pensar a respeito. Haviam muitas coisas, mas essas coisas podiam ser divididas em duas categorias: Coisas que eu gostava de fazer e coisas que queria fazer. Infelizmente, haviam mais coisas que eu gostaria de fazer do que eu gostava, já que maioria dessas coisas não conseguia porque era proibida ou apenas gostava de fazer acompanhada e, dificilmente, havia alguém comigo, com exceção do Folger… ele sempre esteve comigo. Era a única pessoa que meus pais deixavam entrar em casa sem nenhum problema. Nunca havia pensado no motivo para tal comportamento deles.

Bem… eu gostava de ir ao cinema, andar no shopping e ia na biblioteca com a Amy, mas gostava de fazer essas coisas acompanhada… – Falei.

Você podia ir na biblioteca sozinha, não? – Allana perguntou intrigada.

Sim, mas conversar sobre livros enquanto procurava um livro novo para ler era divertido. Só Amy gostava de fazer isso. Folger não era do tipo que lê e raramente saia com minhas outras amigas. – Falei cabisbaixa.

Ah… – Allana falou dando mais uma mordida no sorvete. – Bem, tem mais alguma coisa que goste de fazer? Ou gostava, nesse caso. – Perguntou desanimada.

Tem coisas que eu queria fazer, mas nunca pude.

Tipo quais?

Haviam mil coisas que eu morria de vontade de fazer, mas eram coisas que não conseguia fazer sozinha, meus pais não deixavam ou coisas que tinha vergonha de comentar a respeito com qualquer um, ainda mais por conta do meu jeito de ser. No final das contas, eram todos desejos reprimidos.

Eu sempre quis gravar curtas com alguém. Eu e Amy escrevíamos roteiros o tempo todo quando estávamos no ensino médio. Quando acabou… as coisas desandaram. Quer dizer, ainda tinha a faculdade, mas não era a mesma coisa… Fora isso, sempre vontade de fazer dança, teatro, parkour… E sempre tive uma vontade gigantesca de explorar o mundo à fora, principalmente florestas. Sempre gostei de florestas. – Respondi.

E o que te impedia de fazer essas coisas? – Allana perguntou.

Meus pais. Medo. Vergonha… muitas coisas. – Respondi sem pensar duas vezes. – E via Amy poucas vezes. Meus pais proibiam de sair e não gostavam de vê-la em casa.

– Que patético. Eles são otários! – Allana falou indignada.

É… acho que são mesmo… – Falei duvidosa se era certo concordar com ela. Não era a primeira a dizer o mesmo.

Qualé Sam! Não crie respeito por quem nunca te respeitou. Isso é patético também! – Allana falou se levantando e indo até o forno.

Mas eles são meus pais! São minha famí--

– Eles podem ser deuses se quiserem, mas jamais respeitaria deuses quem não me respeitam! Deixe de ser tão patética! – Allana falou irritada. – E os cookies estão prontos. O chá deve estar também.

Não sabia dizer se o que sentia pelos meus pais era respeito ou… medo. Só sabia que não era a primeira pessoa a odiar eles. Eles me colocaram nessa situação, mas, ainda assim, eu os defendia…

Me levantei da cadeira e fui até a chaleira já desligada. A água já estava no ponto. Peguei os sachês de chá de camomila e coloquei nas xícaras de todos seguido de um cubo de açúcar e a água fervida.

Chá industrializado? Sério? – Allana falou me olhando decepcionada.

Eu só tenho assim! – Falei magoada.

Ah Samantha, me faça o favor! – Allana gritou.

Eu não sei como são as folhas! Eu não consigo imaginar elas!

– JESUS, SAMANTHA! – Allana falou pegando a bandeja com cookies e indo para a sala.

Desculpa! – Gritei querendo chorar.

Havia conseguido decepcionar minha amiga imaginária. Era um novo recorde de fracasso até o momento. Só faltava derramar chá quente em todo mundo enquanto levo para eles.

Coloquei todas as xícaras em uma bandeja metálica, enxuguei as marcas de lágrimas que haviam escapado e segui de volta à sala carregando a bandeja em uma mão como uma garçonete de restaurante chique. Porém, assim que coloquei os pés na sala e vi todos comendo os cookies que Allana havia preparado, minha mão começou a tremer e tive que segurar a bandeja com as duas mãos antes que eu realmente derrubasse chá quente em alguém.

Aqui está o chá. – Falei colocando a bandeja na mesa entre nós.

Chá industrializado? Esperava algo mais… sofisticado. – Frank falou pegando uma xícara.

Xícaras de caveira? Isso é um tanto… mórbido. – Priscila falou pegando a xícara e analisando.

Desculpa… – Falei magoada.

Tudo bem, Sam. Sei que você fez na melhor das intenções. – Priscila falou tentando me confortar.

Não que seja a mais inteligente. – Allana falou antes de tomar um gole do chá.

Uau… obrigada… eu acho. – Falei entristecida me sentando.

Ao menos os cookies estão ótimos. – Ruan falou pegando outro cookie.

Eu fiz os cookies. – Allana falou.

Ah… – Ruan falou disfarçando pegando mais um cookie antes de terminar o anterior.

O clima ficou estranho, silêncio tomou conta da sala após todos os “amorosos” comentários. Era impossível saber se eles estavam ali para me ajudar ou me enterrar de vez. Era para estarem me apoiando não me afundando mais!

Então… vamos dar um rolê? – Allana perguntou para Samuel.

Qualquer coisa é melhor. – Samuel falou se levantando do sofá.

Onde vocês vão? – Perguntei.

Dar uma volta no bairro. – Allana respondeu.

Não querem ficar para conversar e tomar chá!? – Perguntei entristecida.

Volto quando arrumarem um assunto importante. Aliás, o chá está horrível. – Samuel falou indo para a porta junto com Allana.

Quer bater um dominó? – Ruan perguntou para Frank.

Por favor!Frank falou já se levantando.

Vocês também?! – Falei de coração partido.

Desculpa, mas isso tá chato. EI-

– Conversamos mais tarde. – Frank falou empurrando Ruan até as escadas

Eu não conseguia acreditar que meus próprios amigos imaginários haviam me largado sozinha. Isso me fez me sentir em um nível de fracasso tão grande que era difícil digerir. Comecei a chorar imediatamente, como de costume. Estava tão triste que havia esquecido que Priscila ainda estava ali, na minha frente, sentada com um olhar de decepção.

Hm hm hm… um rostinho tão bonito não deveria se manchar com lágrimas. – Priscila falou decepcionada.

O que você espera que eu faça!? Até eles me abandonaram! Quem vai me querer se nem vocês me querem por perto!? – Falei chorando.

Você ficaria perto de si mesma? Você gostaria de se ter como companhia? – Priscila perguntou.

Desse jeito? Nunca!

Então por que eles iriam?

Eu não soube como responder. Palavras não saiam de minha boca e nada passava em minha mente além de absoluto desespero.

Eu… Eu só queria alguém que pudesse me fazer companhia, alguém pra dar sentido a minha vida…

– Se você não dar o primeiro passo para as mudanças, ninguém vai te salvar. Muitos tentaram, você sabe disso. Ainda assim, você não os ouviu. – Priscila falou, antes de se levantar do sofá e caminhar em minha direção. – Você nunca vai conseguir superar a morte desse jeito. Muito menos manter pessoas assim. Todos nós estamos dispostos a ajudar, mas depende apenas de você querer ser ajudada. – Falou com as mãos em meus ombros. – Mas sabe uma coisa que podemos fazer para ajudar essa menininha a levantar o astral? Por que não surpreendemos todos com uma nova Samantha? – Falou muito entusiasmada.

O que quer dizer? – Perguntei enxugando o rosto.

Vamos. Você vai sair desse pesadelo como uma princesa!

Sem qualquer aviso, Priscila pegou minha mão e me puxou pela sala, escada acima em direção ao meu quarto. Lá ela me colocou sentada de frente para um espelho muito manchado de uma mesa de maquiagem que não estava em meu quarto antes.

De onde isso--

– Sem mais questionamentos! Eu quero que você desligue sua mente por enquanto e deixe qualquer preocupação pra lá. – Priscila falou muito entusiasmada. Horripilantemente entusiasmada.

O que você--

– SHH! Apenas me deixe controlar a situação. Priscila falou calando minha boca com seu dedo.

Calada, fiquei sentada no banquinho observando Priscila correndo pelo quarto para um lado e para o outro como uma barata tonta. Não sabia o que ela estava fazendo ou procurando, mas estava determinada a encontrar. Então, após olhar debaixo de um caderno de capa rosa, ela encontrou uma chave com o formado de um corpo e a usou para abrir as portas do meu guarda-roupas.

Então, o que temos aqui… hm… – Priscila falou observando o guarda-roupa como uma câmera de vigilância. – Você realmente gosta de preto, não? – Falou sorrindo e com a mão no queixo, pensativa e curiosa. – Mas tenho certeza que isso é só a primeira camada. Será que encontro algo interessante procurando mais fundo?

Priscila pegou algumas peças de roupas pretas e analisou como se estivesse analisando um diamante. Insatisfeita, pegou tais peças e jogou no chão. Logo depois, ela pegou outras peças, sendo essas mais rasgadas. Analisou e jogou no chão. Com as outras peças de roupas ela fez a mesma coisa. Eventualmente, ela perdeu a paciência e começou a jogar roupas no chão igual um cachorro cavando buraco em terra. Após alguns segundos, algumas roupas começaram a cair na cama invés do chão. Então, de repente, a chuva de roupas pretas começou a tomar cor e roupas coloridas caiam com mais frequência na cama do que no chão. Ela sabia de algo e estava planejando algo, mas não sabia dizer se era algo bom ou ruim.

Após limpar meu guarda-roupa e formar uma montanha de roupas pretas descartadas, Priscila organizou as roupas na cama e trouxe para perto de mim.

Sabia que encontraria algo! – Priscila falou arfando e olhando para mim com um sorriso como se tivesse vencido uma longa batalha.

Mexendo na mesa de maquiagens, ela tirou vários acessórios, ferramentas e, claro, maquiagens e colocou tudo em cima da mesa para fácil acesso.

Então, a majestade tem alguma sugestão ou posso fazer o melhor look para minha rainha? – Priscila perguntou com uma tesoura na mão e a outra mão na cintura.

Eu poderia muito bem me levantar e fugir como sempre fiz, mas estava curiosa e intrigada que precisava ver onde essa loucura ia dar. Afinal, eu não perderia muita coisa, já que não passaria de um mês no estado que estava. Relutante, acenei negativamente com a cabeça.

Ótimo. Aceitar mudanças já é o primeiro passo.

Priscila pegou meus longos cabelos ruivos e começou a cortar. Já estava me arrependendo e era só o começo.

Não fique tensa. Relaxe, deixe os problemas para trás e ouça apenas minhas palavras. Ouça o som das palavras, pense em seu significado e sinta o peso. Ficaremos aqui por um tempo. – Priscila calmamente em um tom suave. – Sei que as coisas tem sido difíceis para você. Não gosto de me repetir, mas já me repetindo, nós estamos aqui para lhe ajudar, mesmo que indiretamente. Apenas não fique magoada com os garotos, Ok? Eles foram duros com você, mas isso é só conflitos de personalidades diferentes. Eles não querem seu mal de modo algum.

– Eles não precisavam ser tão duros. Aquilo me magoou demais! Eu não esperava tal comportamento…

– Posso saber por quê?

– Eu criei vocês para me ajudarem, não acabarem mais comigo. – Falei irritada.

Mas se você nos criou, então por que você não previu que tal coisa poderia acontecer? Você espera que nós saibamos coisas sobre você, mas você não reconhece as próprias criações. Sem querer, você fez personalidades com traços oprimidos… ou talvez fossem traços que lhe faltam?

Do que você tá falando!? – Falei ainda mais irritada.

Sua pergunta não é uma resposta para minha pergunta. E não precisa se irritar, eu não estou brigando com você.

– Desculpa… é só--

– Isso é um dos problemas: suas desculpas.

O que!?

– Você deixa as pessoas pisarem em você constantemente e ainda se desculpa por ser pisoteada!

– O que você quer que eu faça!? Se eu discutir, saio como a errada e ignorante. Se não discuto, saio como fraca.

– Então você prefere sair como fraca? E o que me diz das desculpas que você dá por qualquer coisa, mesmo quando está certa? – Priscila perguntou finalizando o corte. – Você parou para pensar o motivo?

Eu já falei--

– Aquela desculpa não é válida. Pense, pense na sua vida, pense no que viveu até agora. Pense nos eventos que levaram Samantha a ser a Samantha que conhecemos hoje. Pense e você encontrará respostas. – Priscila falou me interrompendo enquanto mexia nas roupas.

Pensar em vinte e um anos de experiências não seria fácil. Passei por tanta coisa… ainda assim, havia momentos que eu sabia identificar a raiz do mal, o ponto em que minha vida seguiu o caminho trágico. Tive péssimas amizades e experiências traumatizantes, mas quanto mais pensava, mais evidente ficava que o problema maior vinha de dentro de casa: Meus pais. Meus pais sempre me trataram de forma inferior, cresci acreditando ser inferior, aprendendo a abaixar a cabeça sempre que disserem que estou errada, com medo da punição por ir contra as regras. Se a punição que temia dos meus pais eram agressões, a punição que sofria das minhas amizades era suportar o abandono. Não havia uma dor pior do que a dor de laços se rompendo depois de tanto se apegar a alguém…

Eu… Eu tinha medo dos meus pais. Me desculpar sempre me pareceu a palavra-chave para escapar de problemas… – Falei trêmula e cabisbaixa.

Você via a palavra como uma saída, mas nunca entendeu seu significado. Pedir desculpas sem ao menos sentir algum pingo de arrependimento são desculpas vazias. Você já fez isso muitas vezes. – Priscila falou me levantando do banquinho. – Mas se essa é a sua desculpa, então o que tem a dizer sobre as desculpas que você dava para suas amizades, mesmo quando estava certa? – Perguntou tirando minhas roupas.

Eu… Elas todas pareciam ser mais legais e divertidas que eu… Eu me apeguei a elas… Eu acho que tinha medo delas me abandonarem por minha culpa.

E mesmo assim elas te abandonam. Sabe por quê?

– Todas se cansaram de ouvir desculpas o tempo todo e nunca ter mudanças… eu ouvi muito isso…

– Hm… É. Não era isso que eu ia dizer, mas isso também serve.

– Então?

– Abre os braços. – Priscila falou com uma fita métrica na em mãos e abrindo os braços e pernas como uma estrela.

Assim que imitei sua posição, Priscila começou a tirar minhas medidas com a fita.

Ótimo, fica assim. Fica mais fácil colocar as roupas novas.

– Tá bom. Continue com o que estava dizendo.

– Bem, as pessoas não te abandonam pelas desculpas exatamente. Algumas realmente se cansam de ouvir desculpas, mas outras simplesmente não se importam. Quem se importa, quem ama, ficam com você. A verdadeira Samantha se importou demais por muito pouco.

– Eu não devia?

– Claro que não! Não se importe por quem não se importa com você. Você só vai desgastar sua saúde mental em troco de nada. Você pensa que isso é bondade, mas elas vão usar isso para lhe explorar! – Priscila falou olhando fundo em meus olhos. – Não espere que as pessoas irão te ajudar para sempre. Ajude alguém que precisa de ajuda e estará fazendo um ato de bondade, mas não é certo esperar que todas essas pessoas irão te ajudar de volta. Muito menos que irão te ajudar continuamente. Agora, em algum momento você já pensou em SE ajudar? Em algum momento você deixou de se colocar em último plano e pensou em si mesma?

Essa era uma pergunta que não sabia responder. Talvez eu nunca tenha…

Eu… Eu pensei em eu mesma quando decidi me isolar.

Mentira, você fez isso pensando nas pessoas ao seu redor. Você desistiu da sua faculdade, desistiu da sua melhor amiga para se isolar em casa com medo de que mais tragédias fossem acontecer. – Priscila falou apontando para mim.

E estou errada em querer proteger vidas?! – Perguntei indignada.

Em proteger vidas? Não. Mas desistir de si mesma por desconhecidos? Sim, totalmente. Não tente fingir que você não desejou a morte daquelas pessoas. Você sabe quem está por trás disso e sabe que seus desejos e a proteção dele estão ligadas. Não é errado se arrepender, mas é errado sentir pena daqueles que existem apenas para machucar. Mais uma vez, você desistiu de você e abaixou a cabeça para o mundo. Você ao menos consegue pensar o quão diferente sua vida seria agora se você não tivesse desistido? – Priscila falou irritada.

Tudo poderia ter sido diferente… Estaria com minha melhor amiga, estaria fazendo a faculdade que amo, estaria vivendo a minha vida normalmente. Se não fosse essa maldição me seguindo por qualquer lado… Tudo seria diferente.

Tudo seria diferente se tivesse escutado Amy quando ela me aconselhou que preciso de tomar minhas próprias decisões, a ser mais rígida. Tudo seria diferente se tivesse escutado Victória e não ter deixado o pessimismo tomar conta de mim. Tudo seria diferente se tivesse escutado o que diziam do Weslley e não ter caído igual uma idiota na armadilha dele. Tudo seria diferente se eu tivesse ido no caminho oposto do qual meus pais estavam me levando. Tudo poderia ser diferente se EU tivesse tido controle da minha vida, criado as atitudes que as pessoas me ensinaram a ter e as ignorei. O mais importante de tudo… tudo seria diferente se eu tivesse aceitado a morte do meu amor invés de mantê-lo vivo como uma alma amaldiçoada. Tudo que eu precisava para perceber isso era uma bronca de mim mesma.

Você sabe que essa dor, esse sofrimento não vão acabar enquanto você não acabar com a barreira que você mesma criou. Você sabe de onde vieram suas falhas, você sabe as raízes de seus problemas e as atitudes que lhe faltam. Nós temos o que lhe falta e estamos dispostos a ensinar. Eu não me arrependo nem um pouco de ter essa conversa com você ou se fui um pouco mais hostil do que eu deveria, mas--

– Eu mereci, entendi… Eu finalmente entendi. – Falei séria interrompendo Priscila.

Entendeu? O que você entendeu? – Priscila perguntou.

Entendi o que eu devo fazer, quem devo ser. Chorar não é um erro, não esconderei minhas lágrimas por ninguém, mas não chorarei por quem não choraria por mim. Não vou deixar que as pessoas me algemem como uma prisioneira e retire minha liberdade de ser quem sou. Não deixarei que pisem em mim como alguém inferior. Não deixarei que meus problemas consumam minha felicidade e apaguem os bons momentos.

Uhum. Tem algo mais que você aprendeu? – Priscila olhou para mim sorridente, confiante que finalmente havia feito seu trabalho.

Aprendi que… Aprendi a nunca mais fazer promessas que posso me arrepender.

De repente, Priscila começou a sapatear de felicidade na minha frente.

– ISSO! Meu tempo não foi desperdiçado!

– Obrigada por me fazer entender.

– Bastava olhar dentro de si mesma para se entender. Então, essa garota na minha frente é a Samantha?

– Me chame apenas de Sam. – Falei confiante com um sorriso.

Sam… Gostei. Então, Sam. Ainda está afim de um look novo?

– Manda ver.

Começando pelas roupas, Priscila me vestiu uma blusa canelada com listras roxas e pretas e colocou uma camisa social azul-escura aberta por cima. Logo depois, me vestiu com uma meia-calça preta e uma saia roxa, um pouco mais clara do que a blusa, mas o suficiente para combinar. Por fim, calcei uma bota preta. Com as roupas vestidas, sentei novamente no banquinho enquanto Priscila pegava as maquiagens.

Com as maquiagens em mãos, Priscila começou com o básico, passando um batom gloss rosa claro. Logo depois, passou um pouco de pó vermelho em minhas bochechas. Por fim, adicionou um pouco de sombra azul ao redor dos olhos. Eu não conseguia ver o que Priscila estava fazendo e como estava ficando, mas estava ansiosa para ver a nova Samantha.

Está pronta para a melhor parte? – Priscila falou sorrindo enquanto segurava uma lata de spray.

O que é isso? – Perguntei surpresa.

A melhor parte!

Sem qualquer aviso, Priscila lançou o spray em meu cabelo, mas parou quase que imediatamente.

Ah não… eu… eu acho que fiz uma besteira. Eu devia ter lembrado que não funciona desse jeito. – Priscila falou com arrependimento em sua voz.

O que você fez!? – Perguntei assustada.

Seu cabelo… é ruivo… Essa tinta é azul…

– Você deixou meu cabelo roxo!? – Gritei.

Desculpa! Não era minha intenção! Eu esqueci que não podia misturar cores desse jeito! – Priscila falou desesperada.

Apesar que… Roxo… seria um toque interessante. Com certeza uma mudança que seria bem-vinda.

Continue. – Falei calmamente.

O que?

– Continue pintando.

– O que!? Mas isso vai deixar todo seu cabelo roxo!

– Sim, exatamente. Continue.

– Mas roxo não é a cor de uma princesa. – Priscila falou confusa.

Eu não quero ser uma princesa. Quero ser eu mesma. E eu quero roxo! Pode disparar essa lata toda no meu cabelo!

– Ah… Ok… Se você deseja…

Priscila começou a pintar meu cabelo com o spray, pintando ponta por ponta, devagar e com bastante calma. Mas era impossível aguentar o pouco do spray que acaba inspirando. Não demorou até começar a me dar uma crise de tosse.

Oh, desculpa. Esqueci de te dar isso. – Priscila falou pegando a máscara na cama e me entregando.

Obrigada. – Falei colocando a máscara imediatamente.

Com a máscara colocada, bastou esperar para ver o resultado. Podia ver o espelho ficando cada vez menos manchado conforme Priscila ia pintando meu cabelo. Eventualmente, pude ver um pouco do meu corpo magrelo. Ao menos as roupas novas caiam bem. Não costumava usar saias, mas a combinação de meia-calça com saia me agradava.

Quando Priscila terminou de pintar, pude finalmente me ver e… eu estava tão… diferente. Aquela figura no espelho não era a mesma Samantha. Ela radiava uma energia poderosa, forte, ameaçadora, mas, também, radiava amor, suavidade, empatia. Eram tantas mudanças que era difícil acreditar que ela ainda era eu. Mas, quando bati os olhos no que estava pendurado em meu pescoço esse tempo todo, meu coração disparou. Era o colar que Amy havia me dado, seu colar de paleta. Imediatamente, retirei o colar e olhei atrás, mas não conseguia ler o que estava escrito. A Samantha real nunca havia chegado a ler o que estava escrito. Mesmo se eu imaginasse, não seria a mesma coisa. Precisava acordar imediatamente!

Rapidamente, coloquei o colar de volta em meu pescoço, me levantei do banquinho e dei um abraço na Priscila antes de sair do quarto correndo.

Ei, onde está indo!? – Priscila perguntou.

Obrigada por me fazer perceber onde errei. Nos encontraremos em algum momento! – Gritei correndo escada a baixo.

De repente, assim que cheguei na sala, a porta da frente se abriu e todos os outros amigos entraram me agarrando pelos braços e pernas. Tentei me soltar deles de todo modo possível, mas eles não me soltavam de jeito algum.

Levem-na para a cova. – Gritou Samuel.

O que vocês estão fazendo!? Me soltem agora! – Gritei tentando me soltar.

Você é um tanto que um incomodo, mas não tem o direito de nos descartar como você foi descartada. – Samuel falou.

Sem falar que sua estupidez é bem irritante. – Allana falou.

Seu pessimismo me incomoda. Uma vez na vida você poderia ser legal? – Ruan falou.

Mas eu vou mudar, seus idiotas! Me soltem logo! – Gritei.

– Pessoas como você nunca mudam. Existe uma certa ignorância que faz com que conselhos nunca cheguem aos seus ouvidos. Você com certeza deveria ouvir. – Frank falou.

De repente, eles me jogaram dentro de uma cova próxima da árvore em que acordei. Então, quando os quatro pegaram pás para me enterrarem, Priscila apareceu.

Me tira daqui! Eu falei que vou mudar! – Gritei desesperada.

Se você realmente quer mudar, não basta mudar suas atitudes. As vezes, temos que enfrentar nossos demônios.

Enquanto Priscila falava, senti minhas mãos e pernas pesarem. Pouco conseguia me mexer. O máximo que pude fazer foi segurar o colar e pensar na Amy enquanto todos me jogavam terra.

Se você quer acordar desse pesadelo, você deve encarar o pior deles. Se você realmente quer mudar, vai saber o que fazer. Você só tem uma chance. Se falhar, é melhor você se juntar a ele do que pesar mais um dia na terra. – Priscila falou.

Assim que ela terminou, terra caiu em meus olhos e não pude mais enxergar. Segurei forte o colar na esperança de que algo bom fosse acontecer. Então, de repente, senti uma mão segurar minhas mãos. Quando abri os olhos para ver quem era, um tremor seguido de um forte estrondo me apagou de vez.

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