~Legends Hunter~
Capítulo 8
Empatia Apática
Acordei no chão gramado próxima de uma árvore em um quintal de uma grande casa de pedra e madeira, longe do meu inferno pessoal. Ao meu redor haviam outras casas, todas um tanto familiares. Uma casa que aparentava ser de uma família rica logo ao lado da casa que eu estava, bem à esquerda. Na direta, havia uma casa terrivelmente familiar, também com um quintal gramado. Em frente, haviam duas casas e um prédio entre elas.
Me levantei do chão e segui em direção à casa de pedra. Olhando mais de perto, tive a sensação de conhecer a casa. Quando entrei, me vi em uma sala de estar ampla e mobiliada, com lareira já queimando. Em frente, passando pela sala, havia uma escadaria levando ao quarto, também amplo e com paredes de vidro com visão apenas da frente da casa para a rua, sendo as outras paredes também feitas de pedra e madeira.
Esta era minha casa, ao menos a casa que eu sonhava ter desde os doze anos, mas não esperava encontrar uma vizinhança como essa. Ficava um tanto confusa ao pensar a respeito, mas não reclamava. Moraria na casa sem preocupações, afinal, era MINHA casa!
De repente, ouvi alguém batendo na porta e fui correndo para a janela ver quem era. Não conseguia ver o rosto, mas sabia que era um homem alto, forte e de cabelos loiros, uma figura familiar.
Desci as escadas e fui até a porta recebê-lo. Quando abri, tentei disfarçar minha timidez com um sorriso, mas, ainda assim, fui surpreendida pelo belo homem à minha frente carregando uma caixa de bombons e uma sacola.
– Olá, senhor! – Falei surpresa, mas tentando disfarçar com um tom feliz.
– Ei, Samantha! Finalmente te encontrei. – Ele falou.
– Como sabe meu nome!? – Perguntei rindo nervosa.
– Como assim? Você me contou ontem, não lembra? Nos portões do colégio. Me chamo Weslley.
Essa frase engatilhou imagens em minha mente. De fato, eu conhecia um Weslley durante o ensino médio, antes de conhecer Amy e ,até mesmo, Folger. Mas não entendia o que ele estava fazendo aqui. Aliás, “Ontem”?
– Ah, agora lembrei… Mas você já se formou, né? – Perguntei como se eu estivesse entendendo alguma coisa.
– Claro! Estou surpreso em ver que se mudou pro bairro. – Ele falou com um sorriso o tempo todo. – Trouxe esses presentes como forma de boas-vindas. – Falou me entregando a caixa e a sacola.
– Não precisava! – Falei com um pingo de felicidade em minha confusão.
Abri a caixa e eram apenas bombons, como previsto. Nenhuma surpresa. Mas, quando tirei o que estava dentro da sacola, vi que era um livro que não via fazia anos: “Replicante”. Mais uma memória veio átona, onde eu queimava este livro, mas não conseguia lembrar o por quê.
– Posso entrar? – Ele perguntou.
Olhei confusa para ele sem saber o que dizer. Havia tantas coisas acontecendo e passando pela minha cabeça que precisava de tempo para entender. Tive que inventar uma desculpa.
– Hm… AH, não, não. Ainda não. Eu me mudei agora e as coisas ainda estão… um pouco bagunçadas aqui.
– Eu te ajudo a arrumar. – Ele falou já tentando entrar.
– NÃO! – Gritei bloqueando a entrada. – Quer dizer, não precisa se incomodar. Pode passar amanhã? – Falei nervosa.
– Claro! Até amanhã então, gatinha. – Falou com um tom sedutor e mandando um beijo antes de sair.
Assim que ele se foi, fechei a porta e coloquei os presentes em cima da mesinha ao lado da lareira. Tentei me sentar na poltrona de frente ao fogo, mas alguém bateu à porta novamente e fui atender. Dessa vez, não pude ver quem era. Assim que abri, vi mais uma figura conhecida, uma mulher dessa vez. Ela era morena de cabelos negros e corpo voluptuoso, com bunda e peitos sendo bem… chamativos. Essa era Victoria, a única até o momento que ainda lembrava. Uma amiga de ensino médio que conheci um pouco antes de conhecer Amy.
– Bem-vinda à vizinhança, garota das sombras – Falou com um tom sarcástico.
– Victoria! Faz tempo que não nos vemos! – Falei surpresa.
– … O que? Nos falamos semana passada, doida. – Ela falou me olhando estranho.
– Falamos?… – Perguntei confusa.
– Sim! Você estava me falando de um menino ai que estava afim e coisa do tipo. Alguma coisa assim. – Falou com pouco interesse. – Enfim, posso entrar?
“Um menino que estava afim”? Não sabia dizer se eu estava afim do menino ou o menino estava afim de mim, mas acreditava que ela estivesse se referindo ao Weslley. Tive uma leve impressão de que nós já fomos muito mais que “amigos”…
– Claro, entre! Preciso conversar com alguém de todo modo. – Falei saindo do caminho.
– Que casão que você arrumou! – Falou Victoria entrando e olhando ao redor.
– É, bem espaçoso… – Falei fechando a porta.
Victoria começou a procurar um lugar para sentar e escolheu justamente a poltrona que ia me sentar. Não satisfeita, pegou a minha caixa de bombons e começou a comer sentada na minha poltrona como se fosse a rainha do mundo. Sem querer começar uma briga, apenas aceitei e me sentei no sofá ao lado, mas afastado da lareira.
– Então, o que você quer conversar? – Perguntei.
– Eu? – Perguntou distraída pelos bombons. – Ah, nada demais. Eu só vim te dar boas-vindas e te avisar um negócio.
– Que negócio? – Perguntei.
– Vou viajar uns dias com meu namorado pra Paris. Mal posso esperar! Vai ser tão legal. As luzes, as lojas maravilhosas… O hotel maravilhoso que ele arrumou pra nós. Já até consigo sentir… – Falou Victoria animada e terminando fazendo gestos estranhos com a cintura com os olhos fechados.
– Ah… legal. Isso é bom, eu acho… Parabéns pra vocês.
– Uma delicia… Mas e você, o que você queria falar? – Perguntou Victoria deixando seus desejos por um momento.
– Apenas não estou muito legal… Tem coisas estranhas acontecendo e, por mais que esteja nesse lugar tão bacana, sinto que tudo anda tão errado. Sinto falta de algumas pessoas. Estou confusa… – Falei desanimada.
– Ah… poxa, que pena. Isso é bem triste. – Falou Victoria em tom baixo com pouco interesse. – Sabe, odeio te ver triste. Se eu pudesse, te ajudaria nisso. Mas não sei como. Não sei se importaria também, não faria tanta diferença.
– Obrigada… Também… Talvez você ache estranho, mas sinto como se outra pessoa estivesse sofrendo. Alguém próximo…
– Isso é triste, mas sabe, as vezes você é muito pessimista e dramática. – Falou Victoria segurando minha mão e olhando em meus olhos. Talvez seja só alguma coisa ruim que você fica pensando a respeito. Seja mais positiva! – Falou Victoria se levantando da poltrona.
– Sabia que acharia loucura… – Falei entristecida.
– Olha, eu preciso ir agora. Te vejo outro dia. – Falou Victoria indo em direção à porta.
– Espera! – Falei me levantando do sofá e segurando em sua mão. – Você vai viajar quando?
– No fim de semana. Por quê?
– Talvez eu não esteja aqui quando voltar. – Falei acidentalmente.
Essas palavras não eram minhas, não havia pensado nelas e não queria que tivessem saído de minha boca. Mas, por algum motivo, elas surgiram em minha boca, como se fosse escolha de alguém superior dizer essas palavras.
– O que quer dizer com isso!? – Perguntou Victoria extremamente confusa.
– Nada, nada! Desculpa. Te vejo outro dia! – Falei empurrando Victoria para fora.
Assim que fechei a porta atrás da Victoria, corri para o quarto e me deitei na cama tentando pensar no que estava acontecendo. Não era algo que levaria muito tempo, apenas bastava ligar os pontos. Havia pessoas conhecidas me visitando, objetos familiares, uma casa que existe apenas em minha imaginação e palavras que saiam de minha boca sem nem pensar nelas. Era sim, de fato, tudo muito estranho. Mas bastou alguns minutos pensando para entender que esse era MEU mundo, minha mente, minhas memórias. Tive que relembrar quem eu era e qual era minha situação no mundo real. Esse mundo é meu esconderijo das dores do outro mundo. Aqui, eu teria controle, o que eu havia perdido no mundo real. Eu estava sofrendo e as dores estavam passando para cá. Podia parecer loucura, mas era apenas defesa. O quanto que o mundo estava me matando fez-se necessário me esconder.
Com a revelação em mente, eu poderia continuar meu dia. Não havia tanto tempo até eu e meu mundo se desfazerem ao doce toque da morte, mas tentaria fazer isso durar o máximo que pudesse. Afinal, tudo que eu precisava era de um momento de prazer e felicidade. Em meu mundo, bastava eu querer para que isso acontecesse. Mas… por algum motivo… ainda me sentia… insegura. Era meu mundo, minhas regras, certo? Mas, por que ainda me sentia insegura?
-----------------------------AVISO DE GATINHO----------------------
Desci as escadas de volta para a sala e lá, para minha surpresa, encontrei Weslley novamente. Ele estava sentado em meu sofá com duas xícaras com chá. Não sabia como ele havia entrado, mas não apresentava nenhum comportamento estranho.
– Weslley?! Como entrou? – Perguntei espantada.
– A porta estava aberta. Você disse que podia vir amanhã, certo? Eu vim. E trouxe chá pra você.
Já havia se passado um dia inteiro e eu não havia percebido?!
– Ah… Ah, sim, sim, claro. Como não pude perceber. Já se passou um dia todo! – Falei tentando disfarçar.
Me sentei no sofá com Weslley e peguei a xícara de chá e começamos a tomar enquanto conversávamos.
– Então… hm… legal você ter vindo hoje. – Falei tentando forçar um assunto.
– Precisava muito te ver. Passei a noite inteira ansioso por hoje. – Falou Weslley com um tom sedutor.
– Só pra me ver? – Perguntei
– Claro! Com absoluta certeza! – Falou com um tom sedutor.
De repente, conforme ia tomando meu chá, comecei a me sentir sonolenta. Novamente, memórias vieram a tona. Estava chorando, estava assustada. O que iria acontecer nessa conversa foi um dos fatores que arruinou minha vida!
– Você… Você colocou… alguma coisa… no chá? – Perguntei lutando para ficar acordada.
– Não se preocupe. Vai ser rápido. – Falou se aproximando de mim e colocando seu braço por cima do meu ombro.
De repente, comecei a perder totalmente minhas forças. Estava brigando para ficar acordada. A xícara havia caído no carpete e derramado o chá restante. Enquanto isso, Weslley começou a mexer com meus peitos enquanto me segurava com seu outro braço. Estava vivendo um pesadelo na qual eu não conseguia me livrar. Mas, sendo memórias, tudo estava acontecendo muito rápido. Quando percebi, estava com as pernas abertas. Logo em seguida, de bruços no meu sofá. Mesmo que não pudesse fazer nada e tudo estivesse pulando de atos, ainda conseguia sentir o mesmo medo e dores que senti pela primeira vez. Por fim, estava no chão, nua e indefesa, enquanto Weslley vestia sua calça e me deixava para trás.
– Você acha mesmo que alguém iria querer namorar sério com você? Você só é carne fácil e eu estava com vontade. Até nunca mais, fracassada! – Falou enquanto saía pela porta da frente.
------------------------------Gatinho gone -----------------------------
Eu não conseguia entender. Era meu mundo, minha mente. Por que eu não consegui impedir tal ato? Agora entendia porque havia queimado o livro. Porque não lembrava quem ele era. Mas isso… será… Será que nem mesmo em meu mundo eu posso me livrar dos traumas?
Eu era virgem quando isso aconteceu. Ainda fazia ensino médio, nos meus dezesete anos. Como era repetente, tinha bastante contato com alunos novos e alunos mais velhos. Weslley, no caso, há havia terminado o colégio, mas gostava de ficar no portão da escola para encontrar novas vítimas. Eu, tola, fui uma. Não havia amigas confiáveis o suficiente para me avisar de seus atos tampouco uma amiga para conversar além da Victoria. Havia acordado na rua muito tarde. Quando cheguei em casa, mesmo que meus pais não soubessem do que havia acontecido, havia levado uma surra intensa.
Mesmo em meu mundo, ainda podia sentir a presença deles, me olhando e julgando. Marcas de agressões apareciam em meu corpo pouco a pouco. Weslley nunca mais foi visto e sua casa desapareceu da vizinhança. O livro que estava na lareira havia virado cinzas. Mesmo que meu corpo neste mundo estivesse intacto, eu podia ainda sentir absolutamente tudo. Meu eu no mundo real parecia estar piorando. Por que isso estava acontecendo?! Não queria lembrar disso! Não importava o que eu tentasse mudar, parecia que eu não tinha controle algum em meu mundo.
Eu não estava segura. Nem em meu mundo, nem no mundo real. O estrago que causaram à minha mente estava em ponto crítico. Tudo que podia fazer era esperar não lembrar de mais memórias traumáticas.
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