~Legends Hunter~
Capítulo Final
Anestesia
Acordei desesperada em minha cama dando um grito e com muita falta de ar. Olhei ao redor e tudo parecia normal, do jeito que as coisas estavam. Podia ver o sol entrando pela janela, a porta do meu quarto estava aberta e haviam roupas no chão. Não sabia dizer se isso era real ou apenas mais um pesadelo, também estava muito assustada para querer descobrir. Não tive coragem de levantar da cama, afinal, o que poderia acontecer se eu passasse por aquela porta?… Não, isso não era o certo… Não podia deixar o medo me parar. Tinha que me lembrar constantemente do que Priscila havia me dito. O medo me incapacitou diversas vezes, medo me tirou o controle da minha vida, não podia deixar medo me parar agora ou então nunca sairia deste pesadelo.
Levantei cautelosamente da cama, checando cada canto ao meu redor e segui em direção à porta com as mãos juntas ao meu corpo. Quando pisei na linha que divide o quarto do corredor, levei um susto ao ver alguém saindo do banheiro. Mas, no mesmo instante, eu paralisei ao ver que quem havia saído era eu… A antiga eu, pelo menos, ainda mantendo meus longos cabelos ruivos. Porém, ela saiu pelada, cantarolando e dançando enquanto ia para o quarto. Seu pulso estava limpo, sem cortes e olheiras eram pouco evidentes. Essa era a antiga eu… antes de tudo aquilo acontecer…
Antiga Samantha me atravessou como se eu não estivesse parada na porta do quarto e seguiu direto para seu guarda-roupas e abriu as portas, parando para olhar quais roupas vestiria. Após alguns segundos, ela tirou um vestido tule preto bordado com flores e colocou na cama e, então, começou a pegar sutiã e mais algumas peças de roupas. Ela estava se preparando para… sair…?
– Ah não… – Falei no momento que eu entendi o que estava acontecendo.
Se o que eu pensei estiver certo, a próxima coisa que ela faria ia ser fazer coque despojado no cabelo. Meu coração estava agitado vendo eu mesma colocando o vestido, sabendo qual seria o próximo passo. E, assim que ela colocou vestido, seguiu direto para banheiro novamente para arrumar o cabelo. Para o meu azar, ela estava fazendo exatamente o que pensei: Um maldito coque no cabelo.
Eu sabia que isso era um mal sinal porque só existiu um único momento em minha vida que usei um coque assim e foi no dia que Folger morreu. Este pesadelo… não bastava tudo que eu já havia passado, eu teria que rever aquele dia maldito de novo. Não sabia se aguentaria ver aquilo outra vez, sem chance de acordar dessa vez como foi nos outros pesadelos. Tudo que podia fazer era assistir eu mesma me arrumando para o dia que mudaria minha vida.
Mesmo ansiosa, não podia deixar de notar o quão feliz eu era. Ainda mais o quão bonita eu era e o quão elegante eu estava. Lembro que aquele vestido não havia sido caro e que havia aprendido a fazer coque no cabelo através de um blog de moda. Talvez ainda sei como fazer… talvez ainda tenho aquele maravilhoso vestido… Não me importaria de repetir tal elegância sem lembrar de um dia trágico.
Assim que Antiga Samantha terminou de se arrumar e de se maquiar, ela voltou para o quarto, guardou suas maquiagens, pegou seu celular e desceu as escadas. Já que ninguém podia me ver, apenas a segui como uma fantasma… Isso soa tão irônico.
– Onde você vai tão arrumada? – Minha mãe perguntou.
Meus pais estavam na sala, mas minha mãe estava saindo da sala e indo para cozinha nesse momento. Mesmo nessa época eles ainda me tratavam como criança.
– Eu vou sair com Folger, lembra? – disse a Antiga Samantha.
– Por que? – Minha mãe perguntou
Antiga Samantha havia ficado surpresa com tal pergunta.
– Por-Porque é nosso aniversário de cinco anos!? – Antiga Samantha exclamou gaguejando com uma leve confusão.
– Aniversário de cinco… Ah, nossa. Já faz cinco anos?! Por que você não nos contou? – Minha mãe disse.
– Mas eu falei… Falei uma semana antes.
– Acho que não ouvi direito. Tudo bem então, pode ir. Fico feliz em saber que minha filhinha conseguiu desencalhar. E ainda com alguém que presta! Pelo menos você tem bom gosto pra alguma coisa. – Minha Mãe disse com muita felicidade, mas sarcasticamente.
– Obrigada… – Antiga Samantha disse, mas com clara tristeza no olhar.
Não apenas a Antiga Samantha havia ficado magoada, mas também eu havia ficado. Mesmos felizes eles ainda eram escrotos, imundos e podres! Na verdade, felizes eles pareciam ser piores do que já eram. Como pude defender eles por tanto tempo?!
De repente, pude ouvir uma buzina vindo da rua. Era ele… Não sabia se conseguiria ver ele novamente, vivo e bem.
– Ele chegou! To indo. – Antiga Samantha disse apressada já abrindo a porta.
– Tá levando o celular? – Minha mãe perguntou.
– Tô.
– Tá bom. Tchau. Se cuida. – Minha mãe disse
– Tchau! – Antiga Samantha gritou da rua.
Antes que Antiga Samantha entrasse no carro e me deixasse para andar, corri na frente dela e entrei no carro como uma fantasma, me sentando no banco traseiro enquanto ela sentou do lado do Folger, o recebendo com um beijo longo e romântico. Ele estava tão elegante nesse dia… O cabelo penteado para trás, terno preto fechado e calça preta, um completo galã de cinema. E o perfume… como podia esquecer do maravilhoso e hipnotizante cheiro do seu perfume? Eu gostaria de estar ao lado dele!… É muito estranho sentir ciúme de si mesma?
– Onde vamos primeiro? – Antiga Samantha perguntou.
– Cinema. – Folger disse.
– Cinema? Mas não iriamos no restaurante hoje? – Antiga Samantha perguntou confusa.
– E vamos. Mas reservei uma mesa para um horário especial. Temos tempo até lá. Além do mais, você não queria ver um filme? – Folger disse ligando o carro.
– Vamos ver Linhagens!? Você tá brincando comigo, né? – Antiga Samantha perguntou feliz e surpresa.
– Não, Antiga Eu, ele não está brincando… – Falei me repousando no banco de trás, com um leve ciúme.
– Você queria tanto ver. Ainda podemos andar um pouco antes de ir pro restaurante. A noite será toda nossa! – Folger disse calmamente, mas podia ver seu sorriso… Um sorriso malicioso que eu havia visto no dia, mas não tinha entendido. Isso me fez questionar no momento… Ele estava com segundas intenções?
Seguimos em direção ao centro da cidade em uma viagem de, pelo menos, uma hora. Ao menos não havia trânsito, o que deixou já ajudou bastante. Estávamos indo para o cinema mais chique da cidade para assistir Linhagens, o filme mais novo que havia estreado naquela semana. Lembro da minha excitação em saber que poderíamos assistir a adaptação de um dos meus livros favoritos. Uma triste história de um casal forçado a fugir da cidade por darem a luz a uma criança em um mundo que proibiu nascimento… Enfim, estava empolgada para assistir.
Assim que chegamos no centro, Folger estacionou o carro no estacionamento em uma rua próximo do cinema e do restaurante, ambos estando apenas algumas quadras de distância do outro. Então, seguimos em direção ao cinema. Antiga Samantha estava saltitando de felicidade, enquanto Folger estava… neutro. Tudo que podia ver era seu sorriso, mas seu caminhar ainda era formal e duro. De certo modo, ver eu mesma feliz daquele jeito me deixava feliz. Eu adoraria voltar a ser desse jeito, mas não seria fácil na minha situação atual…
– Vai comprar os ingressos? – Antiga Samantha perguntou.
Em um piscar de olhos, Folger tirou dois ingressos do bolso e entregou um para Antiga Samantha, que ficou em choque com a surpresa. Então, os dois pombinhos seguiram para a entrada, entregaram os ingressos e entraram, mas, enquanto a Antiga Samantha foi direto para a sala do cinema, Folger parou na fila para comprar alimentos.
–
Você
tá indo pra onde!? Espera! – Folger
disse.
– Você
vai fazer o que? – Perguntou
Antiga Samantha.
–
Vou
comprar pipoca pra nós. Você quer a sua com alguma coisa?
–
Hm…
Não, não precisa comprar nada para mim, sério. Já gastou demais
por hoje. – Antiga
Samantha disse sorrindo.
Folger
apenas olhou Antiga Samantha com deboche
– Não precisa se preocupar com isso. Apenas vamos curtir nosso dia, ok? – Folger disse.
– Se você diz… Apenas pega uma média e o que você for tomar. – Antiga Samantha disse
Assim que Folger chegou no balcão, ele fez os pedidos, pagou tudo com dinheiro e levou tudo nas mãos.
–
Deixa
que eu levo o meu. – Antiga
Samantha disse tentando pegar sua pipoca e seu refrigerante.
–
Não
precisa. Apenas procure nossos assentos.
Folger
havia pego os melhores assentos que haviam naquela sala. Por mais que
eu até tivesse gostado de tudo que ele estava fazendo por mim, eu
lembro de ficar um tanto incomodada com o tanto que ele estava
gastando comigo.
– Aqui. Me dá minhas coisas. – Antiga Samantha disse enquanto pegava sua pipoca, refrigerante e ambos se sentavam em suas poltronas. A parte boa é que poderia ver aquele filme maravilhoso novamente. A parte ruim é que eu teria visão de como é segurar vela.
Antes do filme começar, Folger começou a brincar um pouco com a Antiga Samantha, passando a mão em suas costas, cutucando seu pescoço e, algumas vezes, fazia isso apenas para beijá-la desprevenida. Ela, por outro lado, respondia com beijos diretos, sem perder tempo algum com brincadeiras. As vezes, eram beijos longos, lentos e românticos. Os beijos dele eram hipnotizantes e amava cada segundo que passava conectada com sua boca. Ver os dois felizes desse jeito, com certeza atiçava meu ciúme, o que deixava tudo mais estranho para mim. Ainda não conseguia acreditar que estava sentindo ciúme de eu mesma. Quando o filme começou de fato, Antiga Samantha parou com os beijos, mas Folger ainda queria continuar, até que isso começou a irritá-la. Eventualmente, eles pararam e começaram a assistir ao filme como pessoas decentes, mesmo que Folger estivesse com a cara emburrada. Eu não lembrava de ter feito isso, mas aparentemente fiz! Quer dizer… Viemos ao cinema para ver filme. Antes do filme é até aceitável, mas depois disso, por que continuar a se pegar? Viemos ver filme, não se pegar!
Quando o filme acabou, nós saímos do cinema, Folger com um sorriso falso no rosto enquanto Antiga Samantha estava com a maquiagem diferente no rosto. Se eu estivesse maquiada, eu teria trocado no meio do filme também. Não é fácil resistir ao choro em alguns momentos. Aquele filme é ainda mais triste na lembrança!
Podia ver as luzes da rua acendendo enquanto escuridão tomava conta do céu avermelhado. Cada hora que passava eu ficava mais ansiosa, não estava pronta para ver tudo aquilo de novo, ainda mais depois de tantas coisas boas acontecendo agora. Ver Antiga Samantha tão radiante ao lado de Folger, sem saber o que a aguardava, machucava meu coração.
–
O sol está se pondo. Vamos para o restaurante? – Antiga
Samantha perguntou.
– Ainda
temos tempo. Quer ver o pôr
do sol? – Folger
perguntou sem muita emoção.
– Claro!
O clima está perfeito para isso. – Antiga
Samantha disse com muita emoção. O Contraste…
– Conheço
um mirante perto daqui. Dá pra ir e voltar sem muita pressa.
–
Quero
conhecer! Vamos!!! – Antiga
Samantha disse animada.
Voltamos para o estacionamento e
pegamos o carro, indo para fora da cidade, em direção às
montanhas. De fato, o lugar até que era perto, mas também era o
único ponto bom da cidade para ter visão do horizonte.
Subimos
a montanha seguindo uma trilha de terra que
passava
por um longo corredor de árvores de
abeto. A escuridão já havia tomado conta daquela área, mas ainda
podia ver um pouco da luz no céu. Mesmo assim, era impossível
dirigir sem os faróis acessos. Mas,
depois de alguns minutos subindo a montanha, toda a viagem valeu a
pena. Ainda nem havia parado o carro e já podíamos ver o pôr do
sol em um lugar sossegado e com uma ótima vista da cidade. Mas,
assim que paramos, ficamos boquiabertos com a vista. Eu
não sabia na época, mas esse lugar era PERTO do mirante e não o
mirante em si. Folger havia me levado para um ponto de encontro de
casais um tanto famoso, mas que não conhecia ainda.
– Meu
Deus, olha só essa vista! – Antiga
Samantha exclamou
feliz
saindo do carro.
Segui
a doida enquanto ela corria em direção à beirada da montanha.
Logo, Folger veio andando calmamente. A vista era sensacional. Ver o
sol se pondo atrás das montanhas, o céu avermelhado, tendo visão
de toda a cidade e a floresta que a cerca era uma visão
incrível.
Folger e Antiga Samantha se sentaram na grama e ela
deitou sua cabeça no ombro de Folger que começou a mexer nos
cabelos dela. Enquanto isso, fiquei encostada na frente do carro,
apenas observando os dois.
–
O dia está sendo maravilhoso.
Admito que não começou bem, mas, assim que você apareceu em casa…
– Antiga Samantha disse antes de suspirar – Você
sempre deixa meu dia melhor.
– Como
se você não fizesse o mesmo. Nada é mais importante para mim do
que cuidar da minha garota. – Folger disse.
– Eu
já não sou mais uma garota, idiota. – Antiga Samantha
disse rindo.
– Você era
quando te conheci.
– E eu devia ter chamado a polícia.
–
Por que!? – Folger
perguntou rindo.
– Além
de mais velho, ainda rouba e brinca com meu coração.
– É
divertido brincar com você. Ver você tensa é engraçado.
Antiga
Samantha afastou a cabeça do ombro de Folger e o olhou com um olhar
sério, quase que ameaçador.
– Viu?
Você sempre cai fácil. É brincadeira, paranoica! – Folger
disse abraçando Antiga Samantha.
– Idiota!
– Eu e Antiga Samantha falamos.
– Mas,
falando sério. Eu sou um homem de sorte.
– Por que diz isso?
– Antiga Samantha perguntou.
–
Porque estou a cinco anos com
você. Tantos relacionamentos se acabaram nesse tempo, mas ainda
estamos aqui, juntos.
– Não é todo mundo que aguenta cinco
anos de reclamações. Você é um homem corajoso, isso sim.
–
Não me importa o que diga. Você é a melhor pessoa que poderia
aparecer em minha vida.
– Você
decidiu ser tão meloso assim por quê? – Antiga Samantha
disse em um tom sarcástico.
–
Não
posso?
– Não. Você vai me deixar emotiva.
– Apenas
por dizer o quanto te amo?
– Sim. Eu sou péssima em
demonstrar amor, você sabe disso. Mas… se eu tentar um pouco…
Posso dizer que eu tenho sorte em lhe ter. Não há ninguém que eu
me sinta mais segura do que com você.
– Se só palavras lhe
fazem se sentir assim… – Folger
disse afastando Antiga Samantha de seu ombro e checando seus
bolsos.
– O
que foi? – Antiga
Samantha perguntou.
– Eu
tenho uma surpresa.
– Ah não… – Falei
percebendo o que viria em seguida.
Folger tirou uma caixinha
preta do bolso do terno e se ajoelhou
para Antiga Samantha, abrindo a caixinha lentamente.
– Você
não vai… Meu deus! – Antiga
Samantha disse surpresa, virando o rosto.
– Já
faz cinco anos e esses cinco anos foram especiais para mim. Cada dia
eu percebo o quão apaixonado e dependente do seu amor eu me tornei
e, honestamente, eu poderia viver muito bem sendo apenas seu
companheiro por toda a vida, mas, eu adoraria ter uma família com
você. E,
não importa o tempo que passe, eu te abandonarei, nem nessa e nem em
outra vida.
Samantha, você quer casar comigo? – Folger
disse calmamente, em um tom suave e sincero.
– Por
que você tem que fazer isso comigo!? Agora vou borrar toda minha
maquiagem! – Antiga
Samantha disse rindo, mas chorando. – É
claro que eu quero!
Antiga
Samantha se levantou do gramado e pulou no Folger, dando um longo
beijo e um demorado abraço. Eu, por outro lado, apenas olhei para o
céu escuro e tentei conter meu choro. De tudo que havia acontecido
naquele dia, esse detalhe era o único que eu havia esquecido. Algo
tão importante… simplesmente jogado nas trevas da minha mente.
–
Por
favor, alguém me acorde logo! – Falei
para mim mesma.
Folger
e Antiga Samantha se levantaram do gramado, limparam a terra das
roupas e Folger limpou a maquiagem manchada do rosto da Antiga
Samantha com um pedaço de papel.
– Você
é tão encantadora… – Folger
disse segurando o rosto da Antiga Samantha.
– Para.
Eu não sei reagir. – Antiga
Samantha disse virando o rosto rindo.
– Vamos,
já está quase na hora. – Folger
disse indo para o carro.
– Ei,
idiota. Não tá esquecendo de nada? – Antiga
Samantha gritou rindo.
–
O
que?
– Você não acabou de me pedir em casamento? – Antiga
Samantha gritou
deixando o dedo anelar bem a amostra.
– Ah
é, verdade. Pega. – Folger
disse jogando a caixinha para Antiga Samantha que pegou por muito
pouco.
Antiga
Samantha ficou boquiaberta com a súbita atitude de Folger, ficando
presa em uma pose de “COMO É?!” com seus braços abertos para o
ar. Enquanto isso, Folger apenas a observou com um sorriso bobo atrás
do carro.
– Entra
no carro que eu coloco no seu dedo. Folger
disse rindo.
– Nem
noiva eu sou respeitada! – Antiga
Samantha resmungou caminhando em direção ao carro.
– Não
esqueçam da carona. – Falei
pulando do carro e indo para o banco de trás.
Assim que Folger
e Antiga Samantha entraram no carro, Antiga
Samantha entregou o anel de volta para Folger e deu sua mão. Folger
pegou o anel cuidadosamente e colocou lentamente no dedo anelar dela.
Logo em seguida, ligou o carro enquanto Antiga Samantha apreciava o
anel em seu dedo.
– Próxima
parada: Restaurante! – Folger
disse animado.
Começamos a descer a montanha, indo em direção
à cidade novamente. Estava ficando cada vez mais ansiosa pelo que
aconteceria daqui a pouco. Comecei a me bater, a sacudir a cabeça e
até fechar os olhos na esperança de conseguir acordar, mas este
sonho estava me prendendo para valer e eu não acordaria até que
isso acabasse.
–
Esse
anel ficou tão bonito… – Antiga
Samantha disse olhando o anel constantemente.
– Você
gostou? Tentei pegar o que mais combina com você.
– Eu amei!
– Antiga
Samantha exclamou. – Mas…
eu só to tentando engolir o fato que estou noiva… Eu… Eu nunca
achei que isso aconteceria na minha vida.
–
Você é maravilhosa e tem um
coração bondoso e sincero. Se não fosse eu, alguém iria te pedir
em casamento. Ainda bem que
eu cheguei primeiro. – Folger disse olhando para Antiga
Samantha, mas voltando sua atenção para a estrada rapidamente.
–
É… eu acho… Ainda bem que
você apareceu primeiro, porque eu não saberia o que fazer se outra
pessoa me pedisse. – Antiga Samantha disse se repousando
no banco.
Assim que voltamos para a cidade, Folger estacionou o
carro no mesmo estacionamento e na mesma vaga. Ambos saíram do
carro, mas apenas Folger estava um pouco apressado. Obviamente, tive
que sair para seguir eles.
– Estamos
muito atrasados? – Antiga Samantha perguntou.
–
Não,
acho que conseguiremos chegar bem na hora, mas prefiro não testar a
sorte. Temos que andar três quarteirões ainda.
– Então
vamos. – Antiga
Samantha disse segurando a mão de Folger.
De mãos dadas, os
pombinhos seguiram reto pela rua em direção ao restaurante. O
tráfego estava agitado, pois já era fim de tarde, todos estavam
voltando dos serviços. É incrível como o amor nos emburrece, pois
os dois quase foram atropelados por falta de atenção ao menos umas
quatro vezes. Então,
ao menos uns doze
minutos depois, nós
finalmente chegamos no restaurante. Os dois se sentaram em uma mesa
vazia perto da janela na entrada que possuía exatamente duas
cadeiras, para o meu azar. Eu não ia ficar de pé vendo os dois
comendo e se beijando. Já que eu era nada mais nada menos que um
fantasma na minha própria memória, me sentei na mesa ao lado, bem
no meio do outro casal.
– Folger,
quanto você pagou pra reservarem essa mesa!? Esse restaurante é
caro! – Antiga
Samantha cochichou.
–
Para
de se preocupar com o dinheiro! Eu recupero isso, não tem problema.
Apenas
vamos curtir o momento!
– Folger
cochichou.
–
Boa
noite. Gostariam de fazer o pedido? – Perguntou
o garçom que apareceu atrás de nós sem aviso.
– Ãããã…
Ainda não-
– Boa noite, gostaria de um prato de Ravioli e um
prato de Camarões na manteiga com corações de pupunha. E você,
Samantha? – Folger
disse.
– Ããã…
O-o mesmo que ele e… – Antiga
Samantha disse antes de abrir o cardápio com pressa. – …E
um filet de pargo com salada de lentilhas.
– Traga
uma garrafa do melhor vinho que tiverem e duas taças. – Folger
pediu.
– Poxa,
podia pedir um extra para mim. – Falei,
entediada e quase deitando no prato do casal ao lado.
–
Certo.
– disse
o garçom se retirando após anotar o pedido.
– Como
você sabia o que tinha no cardápio? –
Antiga Samantha perguntou surpresa.
– Olhei
no site antes de fazer a reserva. Ao menos precisava saber se a
comida prestava.
– Podia
ter me mandado o cardápio no celular, não? Eu fico nervosa quando
preciso fazer alguma decisão de última hora! – Antiga
Samantha resmungou.
–
Mas ai não teria surpresa nenhuma. – Folger
disse convencido.
– Ele
tem um bom ponto. – Falei
deitada na mesa.
Sem
poderem se beijar e com poucos assuntos, ambos ficaram olhando um
para outro e, as vezes, mexendo no celular até que um dos dois
viesse com algum assunto aleatório que morreria bem rápido. Mas,
depois de vinte minutos, finalmente os pratos de ambos chegaram na
mesa e o estranho silêncio do casal foi substituído por batidas de
faca no prato e alguns “Hmm” e alguns comentários a respeito da
comida.
Não
sabia
o que me invejava mais, eles ou a comida deliciosa do restaurante que
eu só podia ver mas nem podia
tocar.
Isso só me fazia lembrar que minha verdadeira eu estava deitada no
chão, perto da morte, morrendo de fome… E tal pensamento me fez
considerar que, o motivo de não conseguir acordar, é que isso
talvez não
fosse um sonho… Eu estava… não, não pode ser. Se isso fosse
minha morte, esse devia ser minha punição por qualquer pecado que
cometi.
Assim
que ambos terminaram de comer, Folger chamou o garçom enquanto
Antiga Samantha repousava na cadeira.
– O
que gostaria? – Perguntou
o Garçom.
– Uma
torta de maçã caramelizada, por favor. Vai querer alguma
sobremesa?
– Deixa eu ver… – Antiga
Samantha disse pegando o cardápio. – Hm…Isso
parece interessante… Um suflê
de chocolate com sorvete de baunilha, por favor.
–
Certo. – disse o
Garçom se retirando.
– O
que achou da comida? – Folger perguntou.
–
Sensacional! Nunca havia comido
algo tão bom na minha vida. A única parte ruim é que vem tão
pouco. – Antiga Samantha disse contente.
–
Mas você não come muito. Até parece estar cheia. – Folger
disse rindo.
– Mas eu
gosto de me sentir intimidada quando me mandam um prato cheio que não
consigo comer. E sei bem que você gostar de pegar o que sobra.
–
Não que eu goste, apenas não
gosto de ver desperdício de comida. Só isso.
– Uhum.
Sei. – Antiga Samantha disse rindo. – Eu
só vou comer essa sobremesa e aguardar você terminar a sua. Ai
volto para casa.
– Não prefere ir para a minha hoje?
–
Claro! – Antiga Samantha disse sem pensar duas vezes,
antes de começar a pensar um pouco. – Quer
dizer… eu adoraria, mas eu não avisei meus pais e eles iam ficar
bem irritados se eu sumisse assim, sem avisar eles.
– Pode
deixar que eu aviso eles. Seu pai mesmo confia bastante em mim.
–
Se conseguir convencer eles, então sim, eu quero muito ficar na sua
casa! – Antiga Samantha disse entusiasmada.
– Quando
voltar pro carro eu ligo pra eles. Vamos aproveitar nossa sobremesa
agora!
Após
mais dez minutos de silêncio com alguns assuntos aleatórios aqui e
ali, o garçom chegou com as sobremesas e colocou os pratos na mesa.
Felizmente, os dois não faziam tanto barulho comendo doces. Adoraria
ter um pedacinho daquele suflê…
Assim que terminaram de
comer, ambos se levantaram da mesa e foram até o balcão pagar pela
comida. Lógico,
tive que ir atrás, mas mais ansiosa do que nunca. A hora havia
chegado…
Assim que saímos do restaurante, Antiga Samantha se
agarrou nos braços de Folger e encostou em seu ombro enquanto
caminhavam pela rua de volta para o estacionamento.
– A
comida estava maravilhosa e a sobremesa é incrível.
Eu nunca vou esquecer esse dia. – Antiga
Samantha disse calmamente.
– Com
certeza você nunca vai esquecer. – Falei
ironicamente.
– Espero
que tenha gostado do dia de hoje. Eu quero que inesquecível.
–
E já é. Você conseguiu o que queria. Obrigada. – Antiga
Samantha disse abraçando Folger.
– Vamos
cortar caminho pelo beco.
Vamos dar de frente com o estacionamento indo por aqui.
– Ah
não… é agora… – Falei
tentando segurar os dois pelo ombro, mas falhando miseravelmente. Eu
não conseguia interagir com eles.
Seguimos
pelo beco, atravessando
vielas,
apreensivos, apertando o passo para sair logo.
– Eu
não to gostando daqui. Seria bom a gente dar a volta pela rua. Aqui
parece perigoso. – Antiga
Samantha disse amedrontada.
– Já
estamos saindo do
beco. Essas vielas são um pouco estranhas, mas são o caminho mais
rápido.
Faltando
alguns passos para sairmos do beco, um homem encapuzado e usando
roupas pretas nos parou e apontou uma arma para Antiga Samantha. Sua
reação foi apenas levantar as mãos. Folger, por outro lado,
colocou a mão esquerda no bolso.
– Passa
o dinheiro, agora! Passa tudo que tiverem! – Gritou
o ladrão.
– Não
nos machuque! Por favor! – Antiga
Samantha gritou desesperada.
Sem qualquer aviso, Folger puxou
uma faca do bolso e foi em direção ao ladrão, acertando uma facada
em seu ombro e nas costas, mas,
na confusão, o ladrão conseguiu revidar dando um tiro no peito do
Folger, o que o fez recuar e deixar o ladrão fugir.
–
FOLGER!!!
– Antiga
Samantha gritou ao ir segurar ele para não cair.
– Vamos
para o hospital… Urghh! – Folger
disse sentindo uma dor intensa.
– Por
que você foi bancar o herói!? Meu Deus, Folger! – Antiga
Samantha gritou desesperada carregando Folger no ombro.
Assim
que saímos do beco, Antiga Samantha começou a gritar por ajuda, mas
a rua havia ficado inconvenientemente deserta. Não podíamos ver
ninguém e nenhum carro estava passando, a forçando a carregar
Folger em direção ao hospital mais próximo, que era meia-hora
dali. Nessa
viagem de meia-hora, não vimos ninguém nas ruas, ninguém nos
ajudava e, quando algum carro aparecia, se recusavam a nos dar carona
até o hospital. Folger já não estava mais aguentando ficar de pé,
Antiga Samantha já estava ficando fraca de carregá-lo no ombro e
tropeçava diversas vezes. Eventualmente, ele desmaiaria com tanto
sangue perdido. Me doía me ver sofrer desse jeito sem poder fazer
nada além de seguir e olhar.
– Já
estamos chegando no hospital. Eles vão cuidar de você.
– Antiga Samantha disse enquanto carregava Folger no ombro
–
Não
vou conseguir sobreviver, já perdi muito sangue.
– Folger disse com a voz falha, exausto e com a respiração
alterada.
– Não,
não diga isso! Você vai sobreviver sim. Aguente firme! – Antiga
Samantha disse desesperada, quase chorando.
Havíamos
chegado na parte ruim da cidade, convenientemente, a parte onde havia
um hospital. Mas Folger havia perdido sangue demais de seu peito.
Mesmo eu já sabia que seria inútil, ainda mais sabendo onde isso
terminaria.
–
Por favor…
me deixe. Já estou…
perto do fim – disse
antes de se engasgar com o próprio sangue e tossir. –
Me
deixe…
não torne isso pior pra você.
– Eu
não vou te abandonar! Você vai sair daqui vivo! – Antiga
Samantha disse chorando.
Continuamos
a caminhar em direção ao hospital a nossa frente. Folger pouco
conseguia mover as pernas e ainda restavam, o que seria poucos passos
para mim, seria mais do que Folger conseguiria andar. Tanto
que, assim que chegamos no hospital, Antiga Samantha e Folger
tropeçaram no primeiro degrau de frente para a porta. Felizmente,
eles conseguiram se levantar relativamente rápido. Mas,
logo em seguida, caíram novamente no degrau seguinte, mas, invés de
se levantar novamente, eles ficaram caídos no chão.
–
Socorro!
Por favor, alguém nos ajude! – Antiga
Samantha gritou com todas as forças na esperança de que alguém
apareceria para ajudar. – Médico!
Alguém! Por favor, preciso de aju…
–
Ela continuou a gritar, mas foi interrompida por um forte aperto na
mão. Folger estava a apertando com toda sua força restante.
–
Vá…
embora…
Eu consigo…
seguir daqui…
– Folger
disse rouco enquanto se levantava. Ele deu dois curtos passos em
direção à entrada do hospital, mas caiu logo em seguida assim que
atravessou a porta.
– FOLGER!!!
– Antiga
Samantha gritou indo levantá-lo.
Assim que as portas se
abriram, entrei primeiro no hospital apenas para não atrapalhar a
cena e ver tudo em um ângulo diferente da minha própria tragédia.
Me encostei na parede e a
observei
se
levantar e
correr em direção de Folger enquanto ele se rastejava pelo carpete
azul e o manchava de vermelho.
– Pare
de se mexer! Você já perdeu muito sangue! –
Antiga Samantha gritou em uma tentativa falha de faze-lo ouvir.
–
Eu…
eu lamento… lamento por tudo… – Folger
disse ainda mais rouco.
– Pelo
quê?! Você não fez nada de errado. – Antiga
Samantha disse chorando.
– Hoje…
era pra ser um dia… especial.
– Do que você tá falando!?
Para com isso! Eu não vou te abandonar aqui! – Antiga
Samantha gritou.
– Espero…
ter feito… o melhor… pra você… – Folger
disse antes de tossir sangue.
– Folger,
por favor. Tente aguentar mais um pouco. Eu não quero perder você!
– Antiga
Samantha disse com os olhos cheio de lágrimas.
Por um momento,
eu pude sentir exatamente o que senti naquele dia. Cada palavra era
um aperto no coração, como se estivesse me esmagando. Tudo que ele
dizia machucava cada vez mais, mas agora eu consigo entender. Ele não
queria me magoar, não queria que eu estivesse ali para ver seus
momentos finais. Ainda sim, fiz questão de estar lá e gravar todo
esse momento na minha mente.
– Se
você morrer, eu morrerei com você! – Antiga
Samantha disse chorando, com
a cabeça no peito de Folger.
– Então
foi assim que você ficou desse jeito? – Disse
uma voz familiar.
Ao olhar para o lado, pude ver Amy parada ao
meu lado, como se ela sempre esteve ali.
– Amy!?
– Falei
surpresa, mas indo abraçá-la. – O
que você tá fazendo aqui no meu pesadelo?
–
Não
despedisse…
sua vida…
comigo. – Folger
disse
–
Pesadelo?… ãã…
AH sim, entendi. –
Amy
disse confusa. – Não
não, isso
não é um pesadelo.
–
Não há mais ninguém que eu gostaria de morrer ao lado. Eu te amo,
eu preciso de você! Não quero que você vá embora! – Antiga
Samantha disse
–
O
que quer dizer? – Perguntei
confusa.
– Ah…
– Amy
suspirou. – Vai
ser difícil explicar e não sei se vou conseguir.
– Poderia
tentar. – Falei
calmamente.
– Você..
ah… – Amy
suspirou. – Eu
não sei se vou conseguir. Minha mente está pesando tanto… Eu…
eu só espero que você consiga me perdoar. – Amy
terminou com um olhar de arrependimento.
–
Eu…
Eu não vou…
embora. Lembra da…
nossa…
promessa…?
Nunca irei te…
abandonar. Nessa…
e nem em…
outra…
vida. – Folger
disse.
–
Perdoar?
Perdoar pelo quê?
– Bem… não teremos outra oportunidade
de conversar assim, então seria bom revelar algumas coisas para
você.
–
Folger…
– Antiga
Samantha disse
soluçando, com
o rosto manchado pelas lágrimas e maquiagem. –
Por
favor…
–
Revelar?! Amy, você tá me assustando! – Falei
ficando aflita.
– Sabe,
eu e você não somos tão diferentes. Nós duas temos nossos
problemas, nós duas temos nossas decepções e enganações, mas…
mesmo me escondendo, eu não conseguia esconder minha dor por tanto
tempo. Era questão de tempo até
eu fazer alguma… besteira…
– Besteira?… – Falei
pensativa. – AMY!
–
Bem… depois de tudo que aconteceu com seus pais e eu ter sido a
causa disso… eu tive que fazer algo. Eu tive meus planos e bem…
se fosse pra fazer besteira, eu ia fazer por você.
– Amy,
por favor, você não fez isso-
– E, nesse momento, você
está em uma cama de hospital por minha culpa. Espero que você possa
me perdoar…
– Amy, por favor, o que você fez??? –
Perguntei
desesperada.
– Você
vai descobrir se acordar… Mas isso depende de você.
– PARA
DE FALAR EM CHARADAS E ME DIGA LOGO O QUE ESTÁ ACONTECENDO!!! –
Gritei
em fúria.
– Eu…
Eu não vou conseguir. Eu só quero que você me perdoe. Só assim
poderei descansar.
–
Isso…
não…
é…
um…
adeus…
– Folger
disse antes de ficar em silêncio com uma expressão congelada.
–
Não
importa o que seja, eu perdoo. Você é minha melhor amiga e não
teria saído dessa sem você, mas eu PRECISO saber o que está
acontecendo.
– Ah… – Amy
suspirou – Tudo
que você precisa saber é que… aquela dor… eu já não sinto
mais. Não estou mais sozinha… Aliás… ele… esse
bastardo
está comigo. – Amy
disse apontando para Folger.
–
Folger?…
Folger??? – Antiga
Samantha disse
enquanto
tentava reanimá-lo.
– Não,
por favor, não. Folger, acorde!
–
Folger!?
– Falei
surpresa.
– E
sei que ele está aqui. Se você quer resolver tudo isso de uma vez
por todas, essa é sua chance. – Amy
disse calmamente.
Antiga Samantha pegou Folger nos braços e o
abraçou forte, encostando sua cabeça no peito tentando ouvir seu
coração, mas ele já não respirava, não havia batimentos, ele já
havia morrido. Mesmo beijando sua boca, ele não voltaria como um
conto de fadas. De repente, ela pegou a adaga de Folger e ameaçou se
esfaquear.
– Eu
não vou aceitar isso jamais! NÃO
AGUENTO CONVIVER COM ESSA DOR!!!
– Antiga
Samantha gritou.
– Sua
chance de escolha é agora. Você pode vir com a gente ou continuar
sua vida. Eu não vou escolher por você, não dessa vez. – Amy
disse.
Eu tive que tomar um tempo para pensar, principalmente
pelas coisas que Amy disse. Pouco a pouco as coisas começavam a
fazer sentido, estava começando a entender. Essa escolha… era o
que ia definir meu destino. Quanto mais eu pensava, mais eu queria
acabar com tudo. Mas… algo em mim dizia para continuar. O que mais
pesava na decisão era o sacrifício de Amy. Ela fez isso por mim e
agora era minha decisão se eu queria passar a eternidade com ela ou
viver uma vida sem ela… e toda essa escolha estava nas mãos da
Antiga Samantha.
Antes que Antiga Samantha pudesse se
esfaquear, corri até ela e segurei sua mão, a impedindo de se
matar. Fiquei surpresa em ver que tal interação havia funcionado.
Então,
num piscar de olhos, não havia mais Antiga Samantha, apenas
Samantha, eu, segurando a tal adaga em minhas mãos. Parei uns
segundos para olhar a adaga com sangue, contemplando o que poderia
fazer com ela.
– Folger…
precisamos conversar. – Falei
calmamente.
– Samantha…
quanto tempo eu não a via. – Folger
disse por trás de mim.
Minha garganta deu um nó ao ouvi-lo
novamente depois de tanto tempo e,
logo, meus olhos encheram de lágrimas,
mas tive que resistir a tentação e tentar manter o foco. Eu
precisava acabar com essa maldição de uma vez por todas!
Folger
veio andando calmamente em minha direção pronto para me abraçar,
mas eu o mantive
distante, evitando olhar em seu rosto.
– Folger…
Eu senti muito sua falta… – Falei
tentando juntar as palavras certas.
–
Eu sei. Eu vi tudo que o que você passou. Eu
não queria que nada de ruim acontecesse com você. – Folger
disse animado.
–
Eu
sei… você foi um namorado incrível e, como prometido, eu jamais
esquecerei tudo que você fez por mim… – Falei
tentando conter o choro.
– Eu
prometi que nunca iria lhe abandonar, nem nessa e nem--
– Mas
esse é o problema… você… tem que quebrar essa… promessa… –
Falei
interrompendo
Folger com
nó na garganta e soluçando.
– O
que!? O que quer dizer? – Folger
perguntou histerico.
– Você…
precisa ir… – Falei
–
M-Mas… Nossa promessa! – Folger
disse.
–
A SUA promessa! – Gritei
olhando para Folger, finalmente vendo meu rosto manchado de lágrimas.
– Eu
nunca prometi nada. Nem no pedido de casamento e nem quando você
estava morrendo no chão do hospital! Você não pode ficar
comigo!
– Mas… eu estou aqui para te proteger! Você não
pode fazer isso! – Folger
disse histérico.
– Você
não tem ideia do quanto você me prejudicou tentando me ajudar. O
medo que você me causou, os traumas que sua violência me trouxe…
Isso… isso não é o certo! Você TEM que ir! – Falei
–
É isso que ganho por te ajudar!? – Folger
gritou.
– Você
fez o que podia em vida e apenas em vida. Você já não está mais
entre nós, Folger. Eu não te quero mais aqui. Seu lugar não é
comigo… não mais. – Falei.
–
E como você vai seguir em frente? O mundo sempre será hostil com
você! – Folger
disse.
–
Eu aprendi a me virar. Eu não preciso mais de vocês. – Falei.
–
Hm…
Que palavras pesadas. – Amy
disse.
– Desculpa
por usar essas palavras, mas estou sendo sincera no que digo. Eu
aprendi minha lição, eu vou seguir em frente, sozinha. Eu consigo
isso e tenho que agradecer vocês pelo que me ensinaram. Mas a hora
de vocês já chegou e, em
particular, a
sua, Folger, já acabou faz tempo. – Falei.
Por
alguns segundos, o silêncio tomou conta do hospital. Por
um momento, pensei se podia sofrer alguma maldição alternativa por
ofender aqueles que já se foram.
– Você
cresceu muito depois que morri… A Samantha que conhecia nunca
usaria palavras tão fortes. – Folger
disse calmamente.
– E
a minha gatinha jamais iria declarar independência desse jeito. Eu
devo ter perdido algo nesse meio tempo que estive longe. – Amy
disse.
–
Eu tive tempo para pensar, sozinha… só isso. Me dói o coração
ter que continuar minha jornada sozinha, mas eu preciso disso. Eu
preciso ser forte. O tanto que estraguei minha vida por depender dos
outros para qualquer coisa me deixou fraca ao ponto de nem conseguir
ter julgamento certo do mundo ao redor. A única coisa que manterei
viva de vocês são apenas as memórias e os ensinamentos. Mas, vocês
mesmos, precisam ir. Descansem em paz. Quando minha hora chegar,
estarei lá. Mas essa não é minha hora. – Falei
tentando manter um tom rígido.
Mais uma vez, o silêncio tomou
conta do hospital, mas pude ver um sorriso no rosto de Folger e Amy
dessa vez.
– Você
cresceu como pessoa. Eu fico feliz em ver que você está tomando
conta de si mesma. Isso… isso me acalma. Parece que você realmente
não vai precisar de mim. – Folger
disse.
–
Não irei nem um pouco. Eu só vou me acalmar quando souber que vocês
dois estão em paz. Já sofreram o que tinham que sofrer, agora
descansem! – Falei.
–
Já que a senhora insiste… – Amy
disse antes de segurar os braços de Folger. – Acredito
que estar na hora de dormir, não acha?
– É…
acho que está na hora… – Folger
disse sorrindo para mim.
– Amy,
desculpe por te envolver nisso. Você não precisava estar aqui,
mas-
– Não precisa se desculpar. Era questão de tempo. Mas…
admito que você ao meu lado deixava os dias melhores. Era você quem
me fazia continuar. Agora, seus pais tiraram você de mim e… bem,
aqui estou. – Amy
disse me interrompendo.
–
E espero que tenha a tão sonhada paz. – Falei.
–
Já que estamos tendo nossa última conversa, eu preciso dizer isso
antes de ir. – Folger
disse se soltando da Amy e me abraçando. – Obrigado
por estar comigo nos meus momentos finais. Eu admito que não queria
que você tivesse que ver meu sofrimento, mas eu pude descansar
sabendo que eu iria estar ao lado de quem mais amava. Agora, eu posso
descansar sabendo que você vai ficar bem. Apenas
queria que estivesse com uma companhia um pouco… melhor.
–
Eu só to aqui por sua culpa! – Amy
gritou.
–
E eu posso acordar sabendo que as pessoas que mais amo agora estão
em paz. Obrigada por tudo que fizeram por mim em vida. Agora vão. Eu
tenho que manter o legado de vocês vivos. – Falei.
Com
um último sorriso, Amy e Folger caminharam em direção à porta do
hospital. Olhei para minha mão e notei que ainda estava segurando a
adaga de Folger.
–
EI!
– Gritei.
Amy e Folger se viraram para mim ainda
sorrindo.
–
Pega. Isso lhe pertence. –
Falei jogando a Adaga de Folger de volta para ele.
Assim que
Folger pegou sua adaga, Amy e Folger saíram pela porta do hospital
e, de repente, me senti sendo puxada para baixo. Tudo escureceu por
um momento, mas uma forte luz surgiu na minha frente, ficando cada
vez mais forte.
Então,
pude sentir um enorme peso em meu corpo.
– …Os
bombeiros ainda investigam o que causou a explosão na casa dos Lys.
No local da explosão foram encontrados os corpos de Andrew Svart
Lys, um conhecido policial federal da região de Leti Svart Lys,
juíza também muito conhecida pela região. Felizmente, a filha
deles, Samantha Svart Lys, foi encontrada ainda viva no local, mas
inconsciente. Ainda não foi identificado de quem pertence o corpo
carbonizado da jovem que foi encontrada nos fundos da casa, mas
também foram encontrados marcas de disparos no corpo.
Acordei
na cama de um hospital com a televisão ligada passando o noticiário.
Não sabia por quanto tempo havia dormido e muito menos por quanto
tempo passei naquele sonho, mas sabia que já não estava mais em
casa e que o
que restava da minha antiga vida já não existia mais. Ao menos
agora eu sabia porque Amy estava lá…
– Amy…
sua… idiota… – Falei
com a voz extremamente fraca.
De repente, ouvi passos ao meu
lado e foram para o corredor. Então, uma enfermeira e um médico
vieram até o meu atendimento. Foi o começo de uma nova vida.
Alguns dias depois
11:57
– E foi assim que vim parar aqui. – Falei.
– Hm… Isso é… interessante. – disse a Psicóloga
Havia se passado dias desde que acordei. O hospital estava cuidando de mim até então e me oferecerendo ajuda de uma psicóloga na qual estava disposta a ouvir minha história. Com sorte, iria sair daqui melhor do que entrei.
– Samantha, é hora da sua refeição. Você precisa comer. – disse a enfermeira.
– Certo, estou indo. – Falei.
Até tal momento, essa era minha nova casa. Não era bela, mas há mais carinho do que minha antiga casa. Estava ansiosa para meu futuro e ansiosa para continuar minha vida do jeito que era ter continuado.
Nesse tempo, eu tive tempo para pensar, tempo para decidir o que eu queria fazer da vida e tempo para pensar em como iria ajeitar minha vida depois de todo o ocorrido. Estava decidida a continuar de onde parei, ia voltar a fazer minha faculdade e ia dar um jeito de conseguir o meu dinheiro. Mesmo inexperiente, sabia que eu não estaria sozinha.
Quando recebi alta do hospital, saí em direção para a casa da Heather dar a ela as notícias. Como ela era desligada do mundo moderno, imaginava que ela não sabia da perda da melhor amiga. Quando falei de todo o ocorrido, ela me ofereceu abrigo em sua casa. Levou um tempo para conseguir me acostumar, mas, logo, nós nos tornamos muito amigas
Havia conseguido um emprego em um mercado local próximo da minha antiga casa. Era difícil passar por aquela rua sem pensar nas memórias, mas eu tentei manter o passado no passado. Porém, certo dia, após sair do serviço, eu decidi passar na minha antiga casa. A visão não era bonita. As paredes azuis agora estavam esverdeadas, manchadas de bolor e algumas paredes estavam pretas devido ao incêndio. Andar por ali depois de tantos anos era como visitar uma casa fantasma. Mesmo que as coisas já não fossem as mesmas, eu as conseguia ver no mesmo lugar. A televisão havia sido roubada, mas ainda a enxergava ali. O sofá podre ainda podia ver como se estivesse novo e limpo, com meus pais ali, parados e conversando. A cozinha, o local da explosão, mesmo com um enorme buraco na parede, ainda conseguia enxergar como era antes de tudo.
Subindo as escadas segui para meu quarto, onde vi o exato local onde eu estive caída por tanto tempo, justamente onde havia um enorme buraco causado pela explosão. Próximo dali estava o colar que Amy havia me dado, próximo do meu antigo diário, agora parcialmente queimado. As paredes estavam particularmente mais podres em meu quarto do que qualquer outro cômodo da casa. Meu guarda-roupa estava destruído e vazio, minha cama destruída. Abri meu diário apenas para relembrar alguns momentos, mas, após virar algumas páginas, eu mudei de ideia e o fechei novamente. O passado deve ficar no passado. Porém, não ia deixar meu diário e o colar jogados em uma casa velha e podre.
Sem ter muito o que levar comigo, peguei ambos objetos e fui embora, indo em direção ao cemitério. Ao chegar, passei por corredores de lápides até encontrar a lápide da Amy. Não havia ninguém mais que eu poderia confiar meu diário além dela. Por fim, coloquei meu diário no chão e dei uma última olhada no colar. Finalmente poderia ler o que estava escrito atrás.
“Mesmo de coração
partido, sofrer
sozinha é a pior
das dores.
Não deixe
o fogo
apagar”
– Toda dor é superável quando se tem alguém que se pode contar com a ajuda. Dor é apenas um sentimento e sentimentos é o que te faz viver e ser humana... – Falei para mim mesma complementando o texto e segurando forte o colar em minha mão. – Obrigada, Amy.
Coloquei o colar no chão e saí do cemitério, indo para casa. Onde ela estiver, gostaria que ela pudesse ler tudo que escrevi. O que o futuro guarda para mim não está escrito em nenhum diário.
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