terça-feira, 3 de novembro de 2020

Capítulo Final - Anestesia

 ~Legends Hunter~

Capítulo Final

Anestesia


Acordei desesperada em minha cama dando um grito e com muita falta de ar. Olhei ao redor e tudo parecia normal, do jeito que as coisas estavam. Podia ver o sol entrando pela janela, a porta do meu quarto estava aberta e haviam roupas no chão. Não sabia dizer se isso era real ou apenas mais um pesadelo, também estava muito assustada para querer descobrir. Não tive coragem de levantar da cama, afinal, o que poderia acontecer se eu passasse por aquela porta?… Não, isso não era o certo… Não podia deixar o medo me parar. Tinha que me lembrar constantemente do que Priscila havia me dito. O medo me incapacitou diversas vezes, medo me tirou o controle da minha vida, não podia deixar medo me parar agora ou então nunca sairia deste pesadelo.

Levantei cautelosamente da cama, checando cada canto ao meu redor e segui em direção à porta com as mãos juntas ao meu corpo. Quando pisei na linha que divide o quarto do corredor, levei um susto ao ver alguém saindo do banheiro. Mas, no mesmo instante, eu paralisei ao ver que quem havia saído era eu… A antiga eu, pelo menos, ainda mantendo meus longos cabelos ruivos. Porém, ela saiu pelada, cantarolando e dançando enquanto ia para o quarto. Seu pulso estava limpo, sem cortes e olheiras eram pouco evidentes. Essa era a antiga eu… antes de tudo aquilo acontecer…

Antiga Samantha me atravessou como se eu não estivesse parada na porta do quarto e seguiu direto para seu guarda-roupas e abriu as portas, parando para olhar quais roupas vestiria. Após alguns segundos, ela tirou um vestido tule preto bordado com flores e colocou na cama e, então, começou a pegar sutiã e mais algumas peças de roupas. Ela estava se preparando para… sair…?

Ah não… – Falei no momento que eu entendi o que estava acontecendo.

Se o que eu pensei estiver certo, a próxima coisa que ela faria ia ser fazer coque despojado no cabelo. Meu coração estava agitado vendo eu mesma colocando o vestido, sabendo qual seria o próximo passo. E, assim que ela colocou vestido, seguiu direto para banheiro novamente para arrumar o cabelo. Para o meu azar, ela estava fazendo exatamente o que pensei: Um maldito coque no cabelo.

Eu sabia que isso era um mal sinal porque só existiu um único momento em minha vida que usei um coque assim e foi no dia que Folger morreu. Este pesadelo… não bastava tudo que eu já havia passado, eu teria que rever aquele dia maldito de novo. Não sabia se aguentaria ver aquilo outra vez, sem chance de acordar dessa vez como foi nos outros pesadelos. Tudo que podia fazer era assistir eu mesma me arrumando para o dia que mudaria minha vida.

Mesmo ansiosa, não podia deixar de notar o quão feliz eu era. Ainda mais o quão bonita eu era e o quão elegante eu estava. Lembro que aquele vestido não havia sido caro e que havia aprendido a fazer coque no cabelo através de um blog de moda. Talvez ainda sei como fazer… talvez ainda tenho aquele maravilhoso vestido… Não me importaria de repetir tal elegância sem lembrar de um dia trágico.

Assim que Antiga Samantha terminou de se arrumar e de se maquiar, ela voltou para o quarto, guardou suas maquiagens, pegou seu celular e desceu as escadas. Já que ninguém podia me ver, apenas a segui como uma fantasma… Isso soa tão irônico.

Onde você vai tão arrumada? – Minha mãe perguntou.

Meus pais estavam na sala, mas minha mãe estava saindo da sala e indo para cozinha nesse momento. Mesmo nessa época eles ainda me tratavam como criança.

Eu vou sair com Folger, lembra? – disse a Antiga Samantha.

Por que? – Minha mãe perguntou

Antiga Samantha havia ficado surpresa com tal pergunta.

Por-Porque é nosso aniversário de cinco anos!? – Antiga Samantha exclamou gaguejando com uma leve confusão.

Aniversário de cinco… Ah, nossa. Já faz cinco anos?! Por que você não nos contou? – Minha mãe disse.

Mas eu falei… Falei uma semana antes.

Acho que não ouvi direito. Tudo bem então, pode ir. Fico feliz em saber que minha filhinha conseguiu desencalhar. E ainda com alguém que presta! Pelo menos você tem bom gosto pra alguma coisa. – Minha Mãe disse com muita felicidade, mas sarcasticamente.

Obrigada… – Antiga Samantha disse, mas com clara tristeza no olhar.

Não apenas a Antiga Samantha havia ficado magoada, mas também eu havia ficado. Mesmos felizes eles ainda eram escrotos, imundos e podres! Na verdade, felizes eles pareciam ser piores do que já eram. Como pude defender eles por tanto tempo?!

De repente, pude ouvir uma buzina vindo da rua. Era ele… Não sabia se conseguiria ver ele novamente, vivo e bem.

Ele chegou! To indo. – Antiga Samantha disse apressada já abrindo a porta.

Tá levando o celular? – Minha mãe perguntou.

Tô.

– Tá bom. Tchau. Se cuida. – Minha mãe disse

Tchau! – Antiga Samantha gritou da rua.

Antes que Antiga Samantha entrasse no carro e me deixasse para andar, corri na frente dela e entrei no carro como uma fantasma, me sentando no banco traseiro enquanto ela sentou do lado do Folger, o recebendo com um beijo longo e romântico. Ele estava tão elegante nesse dia… O cabelo penteado para trás, terno preto fechado e calça preta, um completo galã de cinema. E o perfume… como podia esquecer do maravilhoso e hipnotizante cheiro do seu perfume? Eu gostaria de estar ao lado dele!… É muito estranho sentir ciúme de si mesma?

Onde vamos primeiro? – Antiga Samantha perguntou.

Cinema. – Folger disse.

Cinema? Mas não iriamos no restaurante hoje? – Antiga Samantha perguntou confusa.

E vamos. Mas reservei uma mesa para um horário especial. Temos tempo até lá. Além do mais, você não queria ver um filme? – Folger disse ligando o carro.

Vamos ver Linhagens!? Você tá brincando comigo, né? – Antiga Samantha perguntou feliz e surpresa.

Não, Antiga Eu, ele não está brincando… – Falei me repousando no banco de trás, com um leve ciúme.

Você queria tanto ver. Ainda podemos andar um pouco antes de ir pro restaurante. A noite será toda nossa! – Folger disse calmamente, mas podia ver seu sorriso… Um sorriso malicioso que eu havia visto no dia, mas não tinha entendido. Isso me fez questionar no momento… Ele estava com segundas intenções?

Seguimos em direção ao centro da cidade em uma viagem de, pelo menos, uma hora. Ao menos não havia trânsito, o que deixou já ajudou bastante. Estávamos indo para o cinema mais chique da cidade para assistir Linhagens, o filme mais novo que havia estreado naquela semana. Lembro da minha excitação em saber que poderíamos assistir a adaptação de um dos meus livros favoritos. Uma triste história de um casal forçado a fugir da cidade por darem a luz a uma criança em um mundo que proibiu nascimento… Enfim, estava empolgada para assistir.

Assim que chegamos no centro, Folger estacionou o carro no estacionamento em uma rua próximo do cinema e do restaurante, ambos estando apenas algumas quadras de distância do outro. Então, seguimos em direção ao cinema. Antiga Samantha estava saltitando de felicidade, enquanto Folger estava… neutro. Tudo que podia ver era seu sorriso, mas seu caminhar ainda era formal e duro. De certo modo, ver eu mesma feliz daquele jeito me deixava feliz. Eu adoraria voltar a ser desse jeito, mas não seria fácil na minha situação atual…

Vai comprar os ingressos? – Antiga Samantha perguntou.

Em um piscar de olhos, Folger tirou dois ingressos do bolso e entregou um para Antiga Samantha, que ficou em choque com a surpresa. Então, os dois pombinhos seguiram para a entrada, entregaram os ingressos e entraram, mas, enquanto a Antiga Samantha foi direto para a sala do cinema, Folger parou na fila para comprar alimentos.

Você tá indo pra onde!? Espera! – Folger disse.
Você vai fazer o que? – Perguntou Antiga Samantha.

Vou comprar pipoca pra nós. Você quer a sua com alguma coisa?
Hm… Não, não precisa comprar nada para mim, sério. Já gastou demais por hoje. – Antiga Samantha disse sorrindo.
Folger apenas olhou Antiga Samantha com deboche

Não precisa se preocupar com isso. Apenas vamos curtir nosso dia, ok? – Folger disse.

Se você diz… Apenas pega uma média e o que você for tomar. – Antiga Samantha disse

Assim que Folger chegou no balcão, ele fez os pedidos, pagou tudo com dinheiro e levou tudo nas mãos.

Deixa que eu levo o meu. – Antiga Samantha disse tentando pegar sua pipoca e seu refrigerante.
Não precisa. Apenas procure nossos assentos.
Folger havia pego os melhores assentos que haviam naquela sala. Por mais que eu até tivesse gostado de tudo que ele estava fazendo por mim, eu lembro de ficar um tanto incomodada com o tanto que ele estava gastando comigo.

Aqui. Me dá minhas coisas. – Antiga Samantha disse enquanto pegava sua pipoca, refrigerante e ambos se sentavam em suas poltronas. A parte boa é que poderia ver aquele filme maravilhoso novamente. A parte ruim é que eu teria visão de como é segurar vela.

Antes do filme começar, Folger começou a brincar um pouco com a Antiga Samantha, passando a mão em suas costas, cutucando seu pescoço e, algumas vezes, fazia isso apenas para beijá-la desprevenida. Ela, por outro lado, respondia com beijos diretos, sem perder tempo algum com brincadeiras. As vezes, eram beijos longos, lentos e românticos. Os beijos dele eram hipnotizantes e amava cada segundo que passava conectada com sua boca. Ver os dois felizes desse jeito, com certeza atiçava meu ciúme, o que deixava tudo mais estranho para mim. Ainda não conseguia acreditar que estava sentindo ciúme de eu mesma. Quando o filme começou de fato, Antiga Samantha parou com os beijos, mas Folger ainda queria continuar, até que isso começou a irritá-la. Eventualmente, eles pararam e começaram a assistir ao filme como pessoas decentes, mesmo que Folger estivesse com a cara emburrada. Eu não lembrava de ter feito isso, mas aparentemente fiz! Quer dizer… Viemos ao cinema para ver filme. Antes do filme é até aceitável, mas depois disso, por que continuar a se pegar? Viemos ver filme, não se pegar!

Quando o filme acabou, nós saímos do cinema, Folger com um sorriso falso no rosto enquanto Antiga Samantha estava com a maquiagem diferente no rosto. Se eu estivesse maquiada, eu teria trocado no meio do filme também. Não é fácil resistir ao choro em alguns momentos. Aquele filme é ainda mais triste na lembrança!

Podia ver as luzes da rua acendendo enquanto escuridão tomava conta do céu avermelhado. Cada hora que passava eu ficava mais ansiosa, não estava pronta para ver tudo aquilo de novo, ainda mais depois de tantas coisas boas acontecendo agora. Ver Antiga Samantha tão radiante ao lado de Folger, sem saber o que a aguardava, machucava meu coração.

O sol está se pondo. Vamos para o restaurante? – Antiga Samantha perguntou.
Ainda temos tempo. Quer ver o pôr do sol? – Folger perguntou sem muita emoção.
Claro! O clima está perfeito para isso. – Antiga Samantha disse com muita emoção. O Contraste…
Conheço um mirante perto daqui. Dá pra ir e voltar sem muita pressa.
Quero conhecer! Vamos!!! – Antiga Samantha disse animada.
Voltamos para o estacionamento e pegamos o carro, indo para fora da cidade, em direção às montanhas. De fato, o lugar até que era perto, mas também era o único ponto bom da cidade para ter visão do horizonte.
Subimos a montanha seguindo uma trilha de terra que passava por um longo corredor de árvores de abeto. A escuridão já havia tomado conta daquela área, mas ainda podia ver um pouco da luz no céu. Mesmo assim, era impossível dirigir sem os faróis acessos. Mas, depois de alguns minutos subindo a montanha, toda a viagem valeu a pena. Ainda nem havia parado o carro e já podíamos ver o pôr do sol em um lugar sossegado e com uma ótima vista da cidade. Mas, assim que paramos, ficamos boquiabertos com a vista. Eu não sabia na época, mas esse lugar era PERTO do mirante e não o mirante em si. Folger havia me levado para um ponto de encontro de casais um tanto famoso, mas que não conhecia ainda.
Meu Deus, olha só essa vista! – Antiga Samantha exclamou feliz saindo do carro.

Segui a doida enquanto ela corria em direção à beirada da montanha. Logo, Folger veio andando calmamente. A vista era sensacional. Ver o sol se pondo atrás das montanhas, o céu avermelhado, tendo visão de toda a cidade e a floresta que a cerca era uma visão incrível.
Folger e Antiga Samantha se sentaram na grama e ela deitou sua cabeça no ombro de Folger que começou a mexer nos cabelos dela. Enquanto isso, fiquei encostada na frente do carro, apenas observando os dois.

O dia está sendo maravilhoso. Admito que não começou bem, mas, assim que você apareceu em casa… – Antiga Samantha disse antes de suspirar – Você sempre deixa meu dia melhor.
Como se você não fizesse o mesmo. Nada é mais importante para mim do que cuidar da minha garota. – Folger disse.
Eu já não sou mais uma garota, idiota. – Antiga Samantha disse rindo.
Você era quando te conheci.
– E eu devia ter chamado a pol
ícia.
Por que!? – Folger perguntou rindo.
Além de mais velho, ainda rouba e brinca com meu coração.
– É divertido brincar com você. Ver você tensa é engraçado.
Antiga Samantha afastou a cabeça do ombro de Folger e o olhou com um olhar sério, quase que ameaçador.
Viu? Você sempre cai fácil. É brincadeira, paranoica! – Folger disse abraçando Antiga Samantha.
Idiota! – Eu e Antiga Samantha falamos.
Mas, falando sério. Eu sou um homem de sorte.
– Por que diz isso? –
Antiga Samantha perguntou.
Porque estou a cinco anos com você. Tantos relacionamentos se acabaram nesse tempo, mas ainda estamos aqui, juntos.
– Não é todo mundo que aguenta cinco anos de reclamações. Você é um homem corajoso, isso sim.
– Não me importa o que diga. Você é a melhor pessoa que poderia aparecer em minha vida.
Você decidiu ser tão meloso assim por quê? – Antiga Samantha disse em um tom sarcástico.

Não posso?
– Não. Você vai me deixar emotiva.
– Apenas por dizer o quanto te amo?
– Sim. Eu sou péssima em demonstrar amor, você sabe disso. Mas… se eu tentar um pouco… Posso dizer que eu tenho sorte em lhe ter. Não há ninguém que eu me sinta mais segura do que com você.
– Se só palavras lhe fazem se sentir assim… –
Folger disse afastando Antiga Samantha de seu ombro e checando seus bolsos.
O que foi? – Antiga Samantha perguntou.
Eu tenho uma surpresa.
– Ah não… –
Falei percebendo o que viria em seguida.
Folger tirou uma caixinha preta do bolso do terno e se ajoelho
u para Antiga Samantha, abrindo a caixinha lentamente.
Você não vai… Meu deus! – Antiga Samantha disse surpresa, virando o rosto.
Já faz cinco anos e esses cinco anos foram especiais para mim. Cada dia eu percebo o quão apaixonado e dependente do seu amor eu me tornei e, honestamente, eu poderia viver muito bem sendo apenas seu companheiro por toda a vida, mas, eu adoraria ter uma família com você. E, não importa o tempo que passe, eu te abandonarei, nem nessa e nem em outra vida. Samantha, você quer casar comigo? – Folger disse calmamente, em um tom suave e sincero.
Por que você tem que fazer isso comigo!? Agora vou borrar toda minha maquiagem! – Antiga Samantha disse rindo, mas chorando. – É claro que eu quero!
Antiga Samantha se levantou do gramado e pulou no Folger, dando um longo beijo e um demorado abraço. Eu, por outro lado, apenas olhei para o céu escuro e tentei conter meu choro. De tudo que havia acontecido naquele dia, esse detalhe era o único que eu havia esquecido. Algo tão importante… simplesmente jogado nas trevas da minha mente.
Por favor, alguém me acorde logo! – Falei para mim mesma.
Folger e Antiga Samantha se levantaram do gramado, limparam a terra das roupas e Folger limpou a maquiagem manchada do rosto da Antiga Samantha com um pedaço de papel.
Você é tão encantadora… – Folger disse segurando o rosto da Antiga Samantha.
Para. Eu não sei reagir. – Antiga Samantha disse virando o rosto rindo.
Vamos, já está quase na hora. – Folger disse indo para o carro.
Ei, idiota. Não tá esquecendo de nada? – Antiga Samantha gritou rindo.
O que?
– Você não acabou de me pedir em casamento? –
Antiga Samantha gritou deixando o dedo anelar bem a amostra.
Ah é, verdade. Pega. – Folger disse jogando a caixinha para Antiga Samantha que pegou por muito pouco.
Antiga Samantha ficou boquiaberta com a súbita atitude de Folger, ficando presa em uma pose de “COMO É?!” com seus braços abertos para o ar. Enquanto isso, Folger apenas a observou com um sorriso bobo atrás do carro.
Entra no carro que eu coloco no seu dedo. Folger disse rindo.
Nem noiva eu sou respeitada! – Antiga Samantha resmungou caminhando em direção ao carro.
Não esqueçam da carona. – Falei pulando do carro e indo para o banco de trás.
Assim que Folger e Antiga Samantha entraram no carro,
Antiga Samantha entregou o anel de volta para Folger e deu sua mão. Folger pegou o anel cuidadosamente e colocou lentamente no dedo anelar dela. Logo em seguida, ligou o carro enquanto Antiga Samantha apreciava o anel em seu dedo.
Próxima parada: Restaurante! – Folger disse animado.
Começamos a descer a montanha, indo em direção à cidade novamente. Estava ficando cada vez mais ansiosa pelo que aconteceria daqui a pouco. Comecei a me bater, a sacudir a cabeça e até fechar os olhos na esperança de conseguir acordar, mas este sonho estava me prendendo para valer e eu não acordaria até que isso acabasse.

Esse anel ficou tão bonito… – Antiga Samantha disse olhando o anel constantemente.
Você gostou? Tentei pegar o que mais combina com você.
– Eu amei! –
Antiga Samantha exclamou. – Mas… eu só to tentando engolir o fato que estou noiva… Eu… Eu nunca achei que isso aconteceria na minha vida.

Você é maravilhosa e tem um coração bondoso e sincero. Se não fosse eu, alguém iria te pedir em casamento. Ainda bem que eu cheguei primeiro. – Folger disse olhando para Antiga Samantha, mas voltando sua atenção para a estrada rapidamente.
É… eu acho… Ainda bem que você apareceu primeiro, porque eu não saberia o que fazer se outra pessoa me pedisse. – Antiga Samantha disse se repousando no banco.
Assim que voltamos para a cidade, Folger estacionou o carro no mesmo estacionamento e na mesma vaga. Ambos saíram do carro, mas apenas Folger estava um pouco apressado. Obviamente, tive que sair para seguir eles.
Estamos muito atrasados? – Antiga Samantha perguntou.

Não, acho que conseguiremos chegar bem na hora, mas prefiro não testar a sorte. Temos que andar três quarteirões ainda.
– Então vamos. –
Antiga Samantha disse segurando a mão de Folger.
De mãos dadas, os pombinhos seguiram reto pela rua em direção ao restaurante. O tráfego estava agitado, pois já era fim de tarde, todos estavam voltando dos serviços. É incrível como o amor nos emburrece, pois os dois quase foram atropelados por falta de atenção ao menos umas quatro vezes.
Então, ao menos uns doze minutos depois, nós finalmente chegamos no restaurante. Os dois se sentaram em uma mesa vazia perto da janela na entrada que possuía exatamente duas cadeiras, para o meu azar. Eu não ia ficar de pé vendo os dois comendo e se beijando. Já que eu era nada mais nada menos que um fantasma na minha própria memória, me sentei na mesa ao lado, bem no meio do outro casal.
Folger, quanto você pagou pra reservarem essa mesa!? Esse restaurante é caro! – Antiga Samantha cochichou.
Para de se preocupar com o dinheiro! Eu recupero isso, não tem problema. Apenas vamos curtir o momento!Folger cochichou.
Boa noite. Gostariam de fazer o pedido? – Perguntou o garçom que apareceu atrás de nós sem aviso.
Ãããã… Ainda não-
– Boa noite, gostaria de um prato de Ravioli e um prato de Camarões na manteiga com corações de pupunha. E você, Samantha? –
Folger disse.
Ããã… O-o mesmo que ele e… – Antiga Samantha disse antes de abrir o cardápio com pressa. – …E um filet de pargo com salada de lentilhas.
Traga uma garrafa do melhor vinho que tiverem e duas taças. – Folger pediu.
Poxa, podia pedir um extra para mim. – Falei, entediada e quase deitando no prato do casal ao lado.
Certo. – disse o garçom se retirando após anotar o pedido.
Como você sabia o que tinha no cardápio? – Antiga Samantha perguntou surpresa.
Olhei no site antes de fazer a reserva. Ao menos precisava saber se a comida prestava.
Podia ter me mandado o cardápio no celular, não? Eu fico nervosa quando preciso fazer alguma decisão de última hora! – Antiga Samantha resmungou.
– Mas ai não teria surpresa nenhuma. –
Folger disse convencido.
Ele tem um bom ponto. – Falei deitada na mesa.
Sem poderem se beijar e com poucos assuntos, ambos ficaram olhando um para outro e, as vezes, mexendo no celular até que um dos dois viesse com algum assunto aleatório que morreria bem rápido. Mas, depois de vinte minutos, finalmente os pratos de ambos chegaram na mesa e o estranho silêncio do casal foi substituído por batidas de faca no prato e alguns “Hmm” e alguns comentários a respeito da comida.
Não sabia o que me invejava mais, eles ou a comida deliciosa do restaurante que eu só podia ver mas nem podia tocar. Isso só me fazia lembrar que minha verdadeira eu estava deitada no chão, perto da morte, morrendo de fome… E tal pensamento me fez considerar que, o motivo de não conseguir acordar, é que isso talvez não fosse um sonho… Eu estava… não, não pode ser. Se isso fosse minha morte, esse devia ser minha punição por qualquer pecado que cometi.
Assim que ambos terminaram de comer, Folger chamou o garçom enquanto Antiga Samantha repousava na cadeira.
O que gostaria? – Perguntou o Garçom.
Uma torta de maçã caramelizada, por favor. Vai querer alguma sobremesa?
– Deixa eu ver… –
Antiga Samantha disse pegando o cardápio. – Hm…Isso parece interessante… Um suflê de chocolate com sorvete de baunilha, por favor.

Certo. – disse o Garçom se retirando.
O que achou da comida? – Folger perguntou.
Sensacional! Nunca havia comido algo tão bom na minha vida. A única parte ruim é que vem tão pouco. – Antiga Samantha disse contente.
– Mas você não come muito. Até parece estar cheia. –
Folger disse rindo.
– Mas eu gosto de me sentir intimidada quando me mandam um prato cheio que não consigo comer. E sei bem que você gostar de pegar o que sobra.
Não que eu goste, apenas não gosto de ver desperdício de comida. Só isso.
Uhum. Sei. – Antiga Samantha disse rindo. – Eu só vou comer essa sobremesa e aguardar você terminar a sua. Ai volto para casa.
– Não prefere ir para a minha hoje?
– Claro! –
Antiga Samantha disse sem pensar duas vezes, antes de começar a pensar um pouco. – Quer dizer… eu adoraria, mas eu não avisei meus pais e eles iam ficar bem irritados se eu sumisse assim, sem avisar eles.
Pode deixar que eu aviso eles. Seu pai mesmo confia bastante em mim.
– Se conseguir convencer eles, então sim, eu quero muito ficar na sua casa! –
Antiga Samantha disse entusiasmada.

Quando voltar pro carro eu ligo pra eles. Vamos aproveitar nossa sobremesa agora!
Após mais dez minutos de silêncio com alguns assuntos aleatórios aqui e ali, o garçom chegou com as sobremesas e colocou os pratos na mesa. Felizmente, os dois não faziam tanto barulho comendo doces. Adoraria ter um pedacinho daquele suflê…
Assim que terminaram de comer, ambos se levantaram da mesa e foram até o balcão pagar pela comida.
Lógico, tive que ir atrás, mas mais ansiosa do que nunca. A hora havia chegado…
Assim que saímos do restaurante, Antiga Samantha se agarrou nos braços de Folger e encostou em seu ombro enquanto caminhavam pela rua de volta para o estacionamento.
A comida estava maravilhosa e a sobremesa é incrível. Eu nunca vou esquecer esse dia. – Antiga Samantha disse calmamente.
Com certeza você nunca vai esquecer. – Falei ironicamente.
Espero que tenha gostado do dia de hoje. Eu quero que inesquecível.
– E já é. Você conseguiu o que queria. Obrigada. –
Antiga Samantha disse abraçando Folger.
Vamos cortar caminho pelo beco. Vamos dar de frente com o estacionamento indo por aqui.
– Ah não… é agora… –
Falei tentando segurar os dois pelo ombro, mas falhando miseravelmente. Eu não conseguia interagir com eles.
Seguimos pelo beco, atravessando vielas, apreensivos, apertando o passo para sair logo.
Eu não to gostando daqui. Seria bom a gente dar a volta pela rua. Aqui parece perigoso. – Antiga Samantha disse amedrontada.
Já estamos saindo do beco. Essas vielas são um pouco estranhas, mas são o caminho mais rápido.
Faltando alguns passos para sairmos do beco, um homem encapuzado e usando roupas pretas nos parou e apontou uma arma para Antiga Samantha. Sua reação foi apenas levantar as mãos. Folger, por outro lado, colocou a mão esquerda no bolso.
Passa o dinheiro, agora! Passa tudo que tiverem! – Gritou o ladrão.
Não nos machuque! Por favor! – Antiga Samantha gritou desesperada.
Sem qualquer aviso, Folger puxou uma faca do bolso e foi em direção ao ladrão, acertando uma facada em seu ombro e nas costas,
mas, na confusão, o ladrão conseguiu revidar dando um tiro no peito do Folger, o que o fez recuar e deixar o ladrão fugir.
FOLGER!!! – Antiga Samantha gritou ao ir segurar ele para não cair.
Vamos para o hospital… Urghh! – Folger disse sentindo uma dor intensa.
Por que você foi bancar o herói!? Meu Deus, Folger! – Antiga Samantha gritou desesperada carregando Folger no ombro.
Assim que saímos do beco, Antiga Samantha começou a gritar por ajuda, mas a rua havia ficado inconvenientemente deserta. Não podíamos ver ninguém e nenhum carro estava passando, a forçando a carregar Folger em direção ao hospital mais próximo, que era meia-hora dali.
Nessa viagem de meia-hora, não vimos ninguém nas ruas, ninguém nos ajudava e, quando algum carro aparecia, se recusavam a nos dar carona até o hospital. Folger já não estava mais aguentando ficar de pé, Antiga Samantha já estava ficando fraca de carregá-lo no ombro e tropeçava diversas vezes. Eventualmente, ele desmaiaria com tanto sangue perdido. Me doía me ver sofrer desse jeito sem poder fazer nada além de seguir e olhar.
Já estamos chegando no hospital. Eles vão cuidar de você. – Antiga Samantha disse enquanto carregava Folger no ombro
Não vou conseguir sobreviver, já perdi muito sangue. – Folger disse com a voz falha, exausto e com a respiração alterada.
Não, não diga isso! Você vai sobreviver sim. Aguente firme! – Antiga Samantha disse desesperada, quase chorando.
Havíamos chegado na parte ruim da cidade, convenientemente, a parte onde havia um hospital. Mas Folger havia perdido sangue demais de seu peito. Mesmo eu já sabia que seria inútil, ainda mais sabendo onde isso terminaria.
– Por favor
me deixe. Já estou perto do fim – disse antes de se engasgar com o próprio sangue e tossir. Me deixe não torne isso pior pra você.
Eu não vou te abandonar! Você vai sair daqui vivo! – Antiga Samantha disse chorando.
Continuamos a caminhar em direção ao hospital a nossa frente. Folger pouco conseguia mover as pernas e ainda restavam, o que seria poucos passos para mim, seria mais do que Folger conseguiria andar. Tanto que, assim que chegamos no hospital, Antiga Samantha e Folger tropeçaram no primeiro degrau de frente para a porta. Felizmente, eles conseguiram se levantar relativamente rápido. Mas, logo em seguida, caíram novamente no degrau seguinte, mas, invés de se levantar novamente, eles ficaram caídos no chão.
Socorro! Por favor, alguém nos ajude! – Antiga Samantha gritou com todas as forças na esperança de que alguém apareceria para ajudar. – Médico! Alguém! Por favor, preciso de aju Ela continuou a gritar, mas foi interrompida por um forte aperto na mão. Folger estava a apertando com toda sua força restante.
embora Eu consigo seguir daquiFolger disse rouco enquanto se levantava. Ele deu dois curtos passos em direção à entrada do hospital, mas caiu logo em seguida assim que atravessou a porta.
FOLGER!!! – Antiga Samantha gritou indo levantá-lo.
Assim que as portas se abriram, entrei primeiro no hospital apenas para não atrapalhar a cena e ver tudo em um ângulo diferente da minha própria tragédia. Me encostei na parede e
a observei se levantar e correr em direção de Folger enquanto ele se rastejava pelo carpete azul e o manchava de vermelho.
Pare de se mexer! Você já perdeu muito sangue! – Antiga Samantha gritou em uma tentativa falha de faze-lo ouvir.
Eu… eu lamento… lamento por tudo… – Folger disse ainda mais rouco.
Pelo quê?! Você não fez nada de errado. – Antiga Samantha disse chorando.
Hoje… era pra ser um dia… especial.
– Do que você tá falando!? Para com isso! Eu não vou te abandonar aqui! –
Antiga Samantha gritou.
Espero… ter feito… o melhor… pra você… – Folger disse antes de tossir sangue.
Folger, por favor. Tente aguentar mais um pouco. Eu não quero perder você! – Antiga Samantha disse com os olhos cheio de lágrimas.
Por um momento, eu pude sentir exatamente o que senti naquele dia. Cada palavra era um aperto no coração, como se estivesse me esmagando. Tudo que ele dizia machucava cada vez mais, mas agora eu consigo entender. Ele não queria me magoar, não queria que eu estivesse ali para ver seus momentos finais. Ainda sim, fiz questão de estar lá e gravar todo esse momento na minha mente.
Se você morrer, eu morrerei com você! – Antiga Samantha disse chorando, com a cabeça no peito de Folger.
Então foi assim que você ficou desse jeito? – Disse uma voz familiar.
Ao olhar para o lado, pude ver Amy parada ao meu lado, como se ela sempre esteve ali.
Amy!? – Falei surpresa, mas indo abraçá-la. – O que você tá fazendo aqui no meu pesadelo?
Não despedisse… sua vida comigo. – Folger disse
– Pesadelo?…
ãã… AH sim, entendi. – Amy disse confusa. – Não não, isso não é um pesadelo.
– Não há mais ninguém que eu gostaria de morrer ao lado. Eu te amo, eu preciso de você! Não quero que você vá embora! – Antiga Samantha disse
O que quer dizer? – Perguntei confusa.
Ah… – Amy suspirou. – Vai ser difícil explicar e não sei se vou conseguir.
– Poderia tentar. –
Falei calmamente.
Você.. ah… – Amy suspirou. – Eu não sei se vou conseguir. Minha mente está pesando tanto… Eu… eu só espero que você consiga me perdoar. – Amy terminou com um olhar de arrependimento.
Eu Eu não vou embora. Lembra da nossa promessa? Nunca irei te abandonar. Nessa e nem em outra vida. – Folger disse.
Perdoar? Perdoar pelo quê?
– Bem… não teremos outra oportunidade de conversar assim, então seria bom revelar algumas coisas para você.
– FolgerAntiga Samantha disse soluçando, com o rosto manchado pelas lágrimas e maquiagem. Por favor
– Revelar?! Amy, você tá me assustando! –
Falei ficando aflita.
Sabe, eu e você não somos tão diferentes. Nós duas temos nossos problemas, nós duas temos nossas decepções e enganações, mas… mesmo me escondendo, eu não conseguia esconder minha dor por tanto tempo. Era questão de tempo até eu fazer alguma… besteira…
– Besteira?… –
Falei pensativa. – AMY!
– Bem… depois de tudo que aconteceu com seus pais e eu ter sido a causa disso… eu tive que fazer algo. Eu tive meus planos e bem… se fosse pra fazer besteira, eu ia fazer por você.
– Amy, por favor, você não fez isso-
– E, nesse momento, você está em uma cama de hospital por minha culpa. Espero que você possa me perdoar…
– Amy, por favor, o que você fez??? –
Perguntei desesperada.
Você vai descobrir se acordar… Mas isso depende de você.
– PARA DE FALAR EM CHARADAS E ME DIGA LOGO O QUE ESTÁ ACONTECENDO!!! –
Gritei em fúria.
Eu… Eu não vou conseguir. Eu só quero que você me perdoe. Só assim poderei descansar.
– Isso não é um adeusFolger disse antes de ficar em silêncio com uma expressão congelada.
Não importa o que seja, eu perdoo. Você é minha melhor amiga e não teria saído dessa sem você, mas eu PRECISO saber o que está acontecendo.
– Ah… –
Amy suspirou – Tudo que você precisa saber é que… aquela dor… eu já não sinto mais. Não estou mais sozinha… Aliás… ele… esse bastardo está comigo. – Amy disse apontando para Folger.
Folger? Folger??? – Antiga Samantha disse enquanto tentava reanimá-lo.Não, por favor, não. Folger, acorde!
Folger!? – Falei surpresa.
E sei que ele está aqui. Se você quer resolver tudo isso de uma vez por todas, essa é sua chance. – Amy disse calmamente.
Antiga Samantha pegou Folger nos braços e o abraçou forte, encostando sua cabeça no peito tentando ouvir seu coração, mas ele já não respirava, não havia batimentos, ele já havia morrido. Mesmo beijando sua boca, ele não voltaria como um conto de fadas. De repente, ela pegou a adaga de Folger e ameaçou se esfaquear.
Eu não vou aceitar isso jamais! NÃO AGUENTO CONVIVER COM ESSA DOR!!!Antiga Samantha gritou.
Sua chance de escolha é agora. Você pode vir com a gente ou continuar sua vida. Eu não vou escolher por você, não dessa vez. – Amy disse.
Eu tive que tomar um tempo para pensar, principalmente pelas coisas que Amy disse. Pouco a pouco as coisas começavam a fazer sentido, estava começando a entender. Essa escolha… era o que ia definir meu destino. Quanto mais eu pensava, mais eu queria acabar com tudo. Mas… algo em mim dizia para continuar. O que mais pesava na decisão era o sacrifício de Amy. Ela fez isso por mim e agora era minha decisão se eu queria passar a eternidade com ela ou viver uma vida sem ela… e toda essa escolha estava nas mãos da Antiga Samantha.
Antes que Antiga Samantha pudesse se esfaquear, corri até ela e segurei sua mão, a impedindo de se matar. Fiquei surpresa em ver que tal interação havia funcionado.
Então, num piscar de olhos, não havia mais Antiga Samantha, apenas Samantha, eu, segurando a tal adaga em minhas mãos. Parei uns segundos para olhar a adaga com sangue, contemplando o que poderia fazer com ela.
Folger… precisamos conversar. – Falei calmamente.
Samantha… quanto tempo eu não a via. – Folger disse por trás de mim.
Minha garganta deu um nó ao ouvi-lo novamente depois de tanto tempo
e, logo, meus olhos encheram de lágrimas, mas tive que resistir a tentação e tentar manter o foco. Eu precisava acabar com essa maldição de uma vez por todas!
Folger veio andando calmamente em minha direção pronto para me abraçar, mas eu o manti
ve distante, evitando olhar em seu rosto.
Folger… Eu senti muito sua falta… – Falei tentando juntar as palavras certas.
– Eu sei. Eu vi tudo que o que você passou.
Eu não queria que nada de ruim acontecesse com você. – Folger disse animado.
Eu sei… você foi um namorado incrível e, como prometido, eu jamais esquecerei tudo que você fez por mim… – Falei tentando conter o choro.
Eu prometi que nunca iria lhe abandonar, nem nessa e nem--
– Mas esse é o problema… você… tem que quebrar essa… promessa… –
Falei interrompendo Folger com nó na garganta e soluçando.
O que!? O que quer dizer? – Folger perguntou histerico.
Você… precisa ir… – Falei
– M-Mas… Nossa promessa! –
Folger disse.
– A SUA promessa! –
Gritei olhando para Folger, finalmente vendo meu rosto manchado de lágrimas. – Eu nunca prometi nada. Nem no pedido de casamento e nem quando você estava morrendo no chão do hospital! Você não pode ficar comigo!
– Mas… eu estou aqui para te proteger! Você não pode fazer isso! –
Folger disse histérico.
Você não tem ideia do quanto você me prejudicou tentando me ajudar. O medo que você me causou, os traumas que sua violência me trouxe… Isso… isso não é o certo! Você TEM que ir! – Falei
– É isso que ganho por te ajudar!? –
Folger gritou.
Você fez o que podia em vida e apenas em vida. Você já não está mais entre nós, Folger. Eu não te quero mais aqui. Seu lugar não é comigo… não mais. – Falei.
– E como você vai seguir em frente? O mundo sempre será hostil com você! –
Folger disse.
– Eu aprendi a me virar. Eu não preciso mais de vocês. –
Falei.
Hm… Que palavras pesadas. – Amy disse.
Desculpa por usar essas palavras, mas estou sendo sincera no que digo. Eu aprendi minha lição, eu vou seguir em frente, sozinha. Eu consigo isso e tenho que agradecer vocês pelo que me ensinaram. Mas a hora de vocês já chegou e, em particular, a sua, Folger, já acabou faz tempo. – Falei.
Por alguns segundos, o silêncio tomou conta do hospital. Por um momento, pensei se podia sofrer alguma maldição alternativa por ofender aqueles que já se foram.
Você cresceu muito depois que morri… A Samantha que conhecia nunca usaria palavras tão fortes. – Folger disse calmamente.
E a minha gatinha jamais iria declarar independência desse jeito. Eu devo ter perdido algo nesse meio tempo que estive longe. – Amy disse.
– Eu tive tempo para pensar, sozinha… só isso. Me dói o coração ter que continuar minha jornada sozinha, mas eu preciso disso. Eu preciso ser forte. O tanto que estraguei minha vida por depender dos outros para qualquer coisa me deixou fraca ao ponto de nem conseguir ter julgamento certo do mundo ao redor. A única coisa que manterei viva de vocês são apenas as memórias e os ensinamentos. Mas, vocês mesmos, precisam ir. Descansem em paz. Quando minha hora chegar, estarei lá. Mas essa não é minha hora. –
Falei tentando manter um tom rígido.
Mais uma vez, o silêncio tomou conta do hospital, mas pude ver um sorriso no rosto de Folger e Amy dessa vez.
Você cresceu como pessoa. Eu fico feliz em ver que você está tomando conta de si mesma. Isso… isso me acalma. Parece que você realmente não vai precisar de mim. – Folger disse.
– Não irei nem um pouco. Eu só vou me acalmar quando souber que vocês dois estão em paz. Já sofreram o que tinham que sofrer, agora descansem! –
Falei.
– Já que a senhora insiste… –
Amy disse antes de segurar os braços de Folger. – Acredito que estar na hora de dormir, não acha?
É… acho que está na hora… – Folger disse sorrindo para mim.
Amy, desculpe por te envolver nisso. Você não precisava estar aqui, mas-
– Não precisa se desculpar. Era questão de tempo. Mas… admito que você ao meu lado deixava os dias melhores. Era você quem me fazia continuar. Agora, seus pais tiraram você de mim e… bem, aqui estou. –
Amy disse me interrompendo.
– E espero que tenha a tão sonhada paz. –
Falei.
– Já que estamos tendo nossa última conversa, eu preciso dizer isso antes de ir. –
Folger disse se soltando da Amy e me abraçando. – Obrigado por estar comigo nos meus momentos finais. Eu admito que não queria que você tivesse que ver meu sofrimento, mas eu pude descansar sabendo que eu iria estar ao lado de quem mais amava. Agora, eu posso descansar sabendo que você vai ficar bem. Apenas queria que estivesse com uma companhia um pouco… melhor.

– Eu só to aqui por sua culpa! – Amy gritou.
– E eu posso acordar sabendo que as pessoas que mais amo agora estão em paz. Obrigada por tudo que fizeram por mim em vida. Agora vão. Eu tenho que manter o legado de vocês vivos. –
Falei.
Com um último sorriso, Amy e Folger caminharam em direção à porta do hospital. Olhei para minha mão e notei que ainda estava segurando a adaga de Folger.

EI! – Gritei.
Amy e Folger se viraram para mim
ainda sorrindo.
Pega. Isso lhe pertence. – Falei jogando a Adaga de Folger de volta para ele.
Assim que Folger pegou sua adaga, Amy e Folger saíram pela porta do hospital e, de repente, me senti sendo puxada para baixo. Tudo escureceu por um momento, mas uma forte luz surgiu na minha frente, ficando cada vez mais forte.
Então, pude sentir um enorme peso em meu corpo.
– …
Os bombeiros ainda investigam o que causou a explosão na casa dos Lys. No local da explosão foram encontrados os corpos de Andrew Svart Lys, um conhecido policial federal da região de Leti Svart Lys, juíza também muito conhecida pela região. Felizmente, a filha deles, Samantha Svart Lys, foi encontrada ainda viva no local, mas inconsciente. Ainda não foi identificado de quem pertence o corpo carbonizado da jovem que foi encontrada nos fundos da casa, mas também foram encontrados marcas de disparos no corpo.
Acordei na cama de um hospital com a televisão ligada passando o noticiário. Não sabia por quanto tempo havia dormido e muito menos por quanto tempo passei naquele sonho, mas sabia que já não estava mais em casa e que o que restava da minha antiga vida já não existia mais. Ao menos agora eu sabia porque Amy estava lá…
Amy… sua… idiota… – Falei com a voz extremamente fraca.
De repente, ouvi passos ao meu lado e foram para o corredor. Então, uma enfermeira e um médico vieram até o meu atendimento. Foi o começo de uma nova vida.

Alguns dias depois

11:57

E foi assim que vim parar aqui. – Falei.

Hm… Isso é… interessante. – disse a Psicóloga

Havia se passado dias desde que acordei. O hospital estava cuidando de mim até então e me oferecerendo ajuda de uma psicóloga na qual estava disposta a ouvir minha história. Com sorte, iria sair daqui melhor do que entrei.

Samantha, é hora da sua refeição. Você precisa comer. – disse a enfermeira.

– Certo, estou indo. – Falei.

Até tal momento, essa era minha nova casa. Não era bela, mas há mais carinho do que minha antiga casa. Estava ansiosa para meu futuro e ansiosa para continuar minha vida do jeito que era ter continuado.

Nesse tempo, eu tive tempo para pensar, tempo para decidir o que eu queria fazer da vida e tempo para pensar em como iria ajeitar minha vida depois de todo o ocorrido. Estava decidida a continuar de onde parei, ia voltar a fazer minha faculdade e ia dar um jeito de conseguir o meu dinheiro. Mesmo inexperiente, sabia que eu não estaria sozinha.

Quando recebi alta do hospital, saí em direção para a casa da Heather dar a ela as notícias. Como ela era desligada do mundo moderno, imaginava que ela não sabia da perda da melhor amiga. Quando falei de todo o ocorrido, ela me ofereceu abrigo em sua casa. Levou um tempo para conseguir me acostumar, mas, logo, nós nos tornamos muito amigas

Havia conseguido um emprego em um mercado local próximo da minha antiga casa. Era difícil passar por aquela rua sem pensar nas memórias, mas eu tentei manter o passado no passado. Porém, certo dia, após sair do serviço, eu decidi passar na minha antiga casa. A visão não era bonita. As paredes azuis agora estavam esverdeadas, manchadas de bolor e algumas paredes estavam pretas devido ao incêndio. Andar por ali depois de tantos anos era como visitar uma casa fantasma. Mesmo que as coisas já não fossem as mesmas, eu as conseguia ver no mesmo lugar. A televisão havia sido roubada, mas ainda a enxergava ali. O sofá podre ainda podia ver como se estivesse novo e limpo, com meus pais ali, parados e conversando. A cozinha, o local da explosão, mesmo com um enorme buraco na parede, ainda conseguia enxergar como era antes de tudo.

Subindo as escadas segui para meu quarto, onde vi o exato local onde eu estive caída por tanto tempo, justamente onde havia um enorme buraco causado pela explosão. Próximo dali estava o colar que Amy havia me dado, próximo do meu antigo diário, agora parcialmente queimado. As paredes estavam particularmente mais podres em meu quarto do que qualquer outro cômodo da casa. Meu guarda-roupa estava destruído e vazio, minha cama destruída. Abri meu diário apenas para relembrar alguns momentos, mas, após virar algumas páginas, eu mudei de ideia e o fechei novamente. O passado deve ficar no passado. Porém, não ia deixar meu diário e o colar jogados em uma casa velha e podre.

Sem ter muito o que levar comigo, peguei ambos objetos e fui embora, indo em direção ao cemitério. Ao chegar, passei por corredores de lápides até encontrar a lápide da Amy. Não havia ninguém mais que eu poderia confiar meu diário além dela. Por fim, coloquei meu diário no chão e dei uma última olhada no colar. Finalmente poderia ler o que estava escrito atrás.

Mesmo de coração

partido, sofrer

sozinha é a pior

das dores.

Não deixe

o fogo

apagar”

Toda dor é superável quando se tem alguém que se pode contar com a ajuda. Dor é apenas um sentimento e sentimentos é o que te faz viver e ser humana... – Falei para mim mesma complementando o texto e segurando forte o colar em minha mão. – Obrigada, Amy.

Coloquei o colar no chão e saí do cemitério, indo para casa. Onde ela estiver, gostaria que ela pudesse ler tudo que escrevi. O que o futuro guarda para mim não está escrito em nenhum diário.

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