~Legends Hunter~
Capítulo 7
Um Longo Pesadelo
Acordei em uma casa estranha, completamente diferente da minha ou da Amy. Era minúscula, do tamanho de um quarto comum. Pela janela, podia ver o sol se pondo no horizonte. Saí da casa e pisei com meus pés descalços na areia fofa da praia. Caminhei em direção ao mar mas, quando molhei meu dedo na água, o mar havia desaparecido e havia pisado em asfalto. O céu escureceu de repente e, novamente, estava naquele mesmo beco vendo as mesmas figuras. Mas, de repente, o chão começou a inclinar bem debaixo de meus pês. Tentei me segurar em algo, mas não havia nada para me agarrar. Então, caí dentro daquela mesma casa na qual eu havia saído. De repente, a praia havia retornado, mas toda areia estava caindo em meu rosto, dificultando minha visão. Mas, brevemente, pude ver uma pessoa caindo junto com a areia com a mão estendida na minha direção. Estendi minha mão para agarrá-lo, mas a porta se fechou e grades surgiram na frente. Mesmo assim, a areia continuava a entrar pelos vãos. Tentei de tudo para sair, mas cada vez que batia em alguma parede ou tentava quebrar alguma janela, mais fraca e ferida eu ficava. Eventualmente, eu perdi todas as forças e fui consumida pela areia.
Quarto da Samantha
06:00
Fui acordada da cama com leves tapas no rosto dados pela minha mãe. Em suas mãos estavam uma bandeja com comida. Havia dois pães com manteiga e uma xícara de café com leite.
– Coma logo se quiser ir ao banheiro. Eu e seu pai precisamos sair logo. – Falou minha mãe.
– Por que? Eu posso ir sozinha.
– Você ficará em seu quarto a partir de hoje. Só vai sair quando quisermos.
– O que!? Vocês não podem- – Gritei, antes de ser interrompida.
– Cuidado com a maneira que você fala com nós! – Falou minha mãe dando um tapa em meu rosto. – Se você não aprender por bem, vai ser por mal! – Falou apontando para mim.
Ela apenas saiu andando para fora do meu quarto. Coloquei a bandeja com café da manhã na cama e fui correndo até à porta, mas eles fecharam. Logo depois, pude ouvir o som da tranca. Estava oficialmente presa em meu quarto. Bati desesperadamente na porta, tentei abrir, mas eram esforços desperdiçados. Pude ouvir o carro ligando e saindo da casa. Estava presa em meu quarto igual uma condenada. Uma parte de mim estava assustada com tal comportamento dos próprios pais, mas outra parte estava aflita a respeito de quanto tempo isso iria durar.
Havia se passado uma semana desde que fui mantida em cativeiro em meu próprio quarto. Dia após dia era agredida gratuitamente pelos meus próprios pais com a desculpa de que estavam me “Reeducando”. Nada que eu dizia os faziam parar, não acreditavam em nada. Na verdade, eles batiam ainda com mais raiva e força a cada palavra que saía de minha boca, pois achavam que estava protegendo Amy, algo que eles realmente odiavam, ou estava indo contra as ordens deles.
Tudo que eu queria era explodir, falar e causar toda a dor que eu sentia e fazê-los sentir o mesmo, mas era fraca e covarde demais para fazer tal coisa. No fim do dia, eu aceitava minha culpa e novos cortes surgiam em meus pulsos, completando as agressões.
Minha liberdade era mínima. Minha vida era ficar presa em meu quarto como uma prisioneira na solitária. Nem ir ao banheiro eu podia sozinha. Minha vida era controlada, refeições eram trazidas ao meu quarto e no quarto ficava. Essa era minha vida e tive que aceitá-la. Mas isso durou meses…
No primeiro mês, a rotina era a mesma. Café da manhã no quarto às seis da manhã, depois meus pais saiam para trabalhar e trancavam meu quarto e a casa toda, das portas às janelas. Um dos dois voltava ao meio-dia e me dava almoço e, então, voltava ao trabalho. Às seis da tarde eles voltavam e era hora da “disciplina”, dez minutos de sermões e, se eu não prestasse atenção ou olhasse torto, recebia mais agressões. Logo depois, saiam para fazer café da tarde. Às nove da noite, a janta era servida e traziam até meu quarto. Havia alguns breves momentos onde eles me deixavam ir ao banheiro nesses horários. Nesse meio tempo, podia ver Amy andando pelos arredores da casa enquanto meus pais saíam, mas não durava muito tempo e ela voltava para a casa.
Depois de dois meses eu já havia perdido noção de tempo. A única coisa que sabia era quando estava de dia pelos feixes de luz que passavam pelos buracos entre as placas de madeira na janela, e quando estava de noite pela falta dos feixes. De resto, tudo permanecia o mesmo ao ponto de me acostumar com as constantes torturas.
Nesse meio tempo, havia tentado fugir quando vi Amy no quintal pelos buracos. Tentei quebrar as placas de madeira um banquinho que estava no canto do quarto, mas, além de falhar miseravelmente, eu machuquei meu dedo e assustei o cachorro, fazendo a Amy fugir. Infelizmente, o banquinho fez um pequeno estrago na madeira e meus pais perceberam quando chegaram em casa. Obviamente, apenhei muito nesse dia e fui ameaçada. No dia seguinte, eles instalaram grades de ferro do lado de fora da janela, caso eu quebre a madeira.
As vezes, em momentos de desespero, eu via Folger e tentava conversar com ele, mas eu falava sozinha enquanto ele não me dava respostas, ao contrário dos pesadelos, que apenas se intensificaram.
Três meses depois, eu me sentia morta, como se toda minha vida tivesse sido removida de mim, como se nada mais importasse. A dor não era diferente do que eu costumava sentir. Não sentia fome, mas meu estômago doía. A comida que me traziam ficava no prato. Eventualmente, as agressões pararam pois meus pais achavam que eu estivesse doente. Mesmo assim, não me levavam ao médico e, agora, enfiavam remédios na minha goela.
Alguns dias depois, a luz do meu quarto havia queimado e apagado pela última vez e, ao mesmo tempo, minha luz fosca também. Havia desistido, não tinha mais forças para lutar contra, para fugir ou para comer. Nunca mais havia visto Amy desde minha tentativa de fuga e não tinha mais esperanças de que ela pudesse me salvar. Estava presa em eterna escuridão em um longo pesadelo. Decidi que minha morte seria a única que ainda podia me salvar: espera.
Minha mente enlouquecia dia após dia na escuridão. Quando percebi, a casa não era a mesma. Estava construindo meu mundo, minha casa e minha vida. Já não estava mais sozinha, pois todos estavam comigo.
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