~Legends Hunter~
Capítulo 17
Vila Cósmica
Castelo Strife
??:??
Corri por um longo corredor estreito até me encontrar com minha irmã que estava bloqueando a porta para a Sala do Trono.
– Mas eu quero falar com mamãe! – Gritei para minha irmã.
– A Mãe está ocupada, Aurora! Se a gente for incomodar, ela vai passar vergonha.
– Mas eu quero falar com ela!
– Tem homens com armas perigosas que machucam ali. Eles não querem ser incomodados.
– Armas iguais a sua? – Apontei para a lança de Farron.
– Sim, armas iguais a minha.
De repente, um homem de camisa xadrez verde e cabelo verde atacou Farron por trás com uma espada, mas ela puxou uma espada de sua bainha e bloqueou o ataque. Sua lança, porém, havia desaparecido. O corredor em que estávamos havia se tornado uma sala espaçosa repleta de armaduras e armas diversas.
– Você está melhorando!
– Você apenas está pegando leve! – Ela falou enquanto tentava acertar um ataque direto, mas o homem se jogou no chão e a derrubou com uma rasteira, se levantando ligeiramente logo em seguida.
– Que bom que sabe. Você perceberia se eu não estivesse. – O homem falou estendendo a mão.
Farron olhou brevemente nervosa, mas, antes de pegar em sua mão, ela deu um sorriso e uma risada, agarrando a mão do homem logo em seguida e se levantando.
– Você fica mais lento quando fica sério?
– Pra alguém que fui surpreendida por um contra-ataque tão básico, você gosta de falar.
– Aprendi com um certo Abacate… – Disse Farron enquanto aproximava seu rosto com o do homem. Mas, de repente, ela parou, se ajoelhou e começou a chorar.
Quando olhei ao meu redor, estávamos na sala do trono. Farron estava chorando ao lado do trono, sendo segurada por dois cavaleiros, enquanto um cavaleiro de armadura coberta com espinhos fugia pela porta principal. No trono, estava a rainha, sangrando por um corte devastador em seu peito. Seu rosto era assustadoramente familiar, quase como o meu. Ao lado da rainha estava o rei, que se levantou com ódio no olhar, puxou sua espada e apontou em direção à saída.
– Matem aquele assassino! – Gritou o Rei o mais alto que pode.
Todos os guardas do castelo começaram a correr atrás daquele cavaleiro, incluindo os que estavam segurando Farron. Assim que eles a soltaram, Farron correu para os braços da Rainha e começou a chorar em seu ombro. De alguma forma, eu conseguia sentir sua dor. Era angustiante…
– Senhora Aurora… – Disse uma voz ecoando pelo castelo. – Senhora Aurora…
Mansão Abandonada
08:42
Acordei com alguém me chamando e um sol fortíssimo no rosto. Não conseguia nem abrir os olhos direito pela dor que a luz estava me causando.
– Senhora Aurora, ainda está dormindo? Você costuma acordar tão cedo. O sol já está brilhando forte no céu!
– Quem…
– Vamos, acorde! Todo mundo já acordou… Senhora Aurora, a senhora está chorando?
Coloquei a mão no meu rosto e pude sentir minha pele molhada dos olhos até as bochechas. Não apenas meu rosto estava molhado de lágrimas, mas também meu travesseiro.
– Não… não é nada. É só o sol. – Falei enquanto esfregava o rosto.
Tentava ignorar o sol e focar minha visão para ver quem estava na minha frente. Assim que meus olhos se acostumaram um pouco mais com a luz, pude ver Chess segurando um tabuleiro de xadrez com todas as peças já montadas em suas posições.
– Senhora Aurora, olha só o que encontrei no meu quarto! – Chess falou alegremente segurando o tabuleiro em suas mãos como estivesse querendo entregar para mim.
– Que tabuleiro bonito. Tome cuidado para não perder essas peças. – Falei ainda sonolenta, mas tentando fingir entusiasmo.
– Elas estão grudadas. Nenhuma peça se move.
– O que? Claro que se movem.
Chess virou o tabuleiro de ponta cabeça, mas as peças nem sequer mexeram.
– Que estranho… nunca vi um tabuleiro com peças fixas. – Falei sonolenta, mas curiosa.
– Mamãe falou que eu posso usar como um enfeite no meu quarto.
– É o melhor uso.
– Ah, e ela me mandou te chamar. Disse pra você ir até a cozinha.
– Tá… eu já vou descer.
Assim que Chess saiu do quarto, tentei voltar a dormir. Mas sabia que Nita apareceria em algum momento para me chamar. Pior que isso, Farron apareceria em algum momento para me chamar. Não tive outra escolha além de sair do conforto da minha cama para aturar mais um dia com aquela tirana. Ao menos eu tinha um banheiro particular.
De repente, pude notar alguma coisa se levantando na minha frente. Então, sem aviso algum, Maryl saiu de baixo da minha cama imitando uma coruja e usando uma máscara de coruja que cobria boa parte do rosto, mas deixava a boca exposta. Sabia que a expectativa dela era de me assustar, mas apenas me deixou confusa.
– Por que você estava debaixo da minha cama??? E de onde você tirou essa máscara?!
– Eu… eu fiz pra você. Eu só queria te dar um sustinho antes de lhe entregar. – Falou Maryl tirando a máscara do rosto antes de me entregar. – É o mínimo que posso fazer por ter me tirado da floresta.
Quando Meryl me entregou a máscara pude perceber algo diferente no material usado. Quando peguei em minhas mãos tive a confirmação de que estava realmente errado.
– Isso… Isso é um presente legal. Muito obrigada… Mas-
– Que bom que gostou! – Falou Maryl me interrompendo com sua excitação.
– Sim, é bem legal, mas você usou o capacete de alguém para fazer isso? De onde você tirou isso?
– Não, não mesmo! Eu usei pedaços das máquinas que estava na entrada da vila pra fazer isso. Serk me ajudou nisso. Então usei tinta que encontrei na casa da Stacy para fazer a pintura.
– Serk uh… – Falei checando cada cantinho da máscara.
Por incrível que pareça, era uma máscara super bem-feita. Tão bem-feita que eu até poderia levar comigo. Isso poderia servir como proteção. Só não esperava que isso viria… dela.
– Isso é muito legal. Obrigada pelo presente. – Falei jogando a máscara na cama e dando um abraço na Maryl.
– É o mínimo que posso fazer!
– Não precisava ter feito, mas fico feliz que tenha. – Falei soltando ela. Você leva jeito pra isso.
– É sério!? – Falou Maryl com um sorriso de orelha a orelha.
– Uhum. Pode aprender algumas coisas com o Bamurg e o Fresh também.
– Eu vou agora falar com eles! – Falou Maryl já correndo para fora do quarto.
– Vá. Avisa para as garotas que já estou descendo! – Falei, mas duvidando que ela tenha escutado.
Antes de descer, fui ao banheiro para tomar um banho e consertar a bagunça que estava o meu cabelo.
09:01
Me encontrei na cozinha com as garotas. Apenas Nita e Helo estavam presentes, sentadas em uma mesa de aço e vidro. A falta da Stacy para ficar fofocando o dia inteiro, com certeza, deixava o ambiente mais silencioso. Melhor ainda, podia fazer chá sem falatório!
– Bom dia – Falou Helo e Nita juntas.
– Bom dia… – Falei indo em direção ao balcão e pegando uma chaleira velha empoeirada.
– O que achou daqui? Não é bem melhor do que dormir naquela casinha da Stacy? – Perguntou Helo
– Tenho mais privacidade. Isso sozinho já é maravilhoso. Só preciso lembrar de trancar a porta do quarto na próxima vez. – Falei enquanto lavava a chaleira.
– Única coisa que esse lugar precisa é de uma limpeza geral. Pelo que vi até o momento, tudo está empoeirado e unicamente empoeirado. – Falou Nita passando o dedo na parede e tirando uma grossa camada de poeira. – Pelo menos eu não encontrei nenhuma estrutura danificada. Não até o momento. Apenas o lado de fora que tá bem feio mesmo.
– Acham que conseguem tomar conta daqui enquanto eu saio com a Farron? – Perguntei enquanto colocava água para ferver em uma fogueira que já estava semiativa – Adoraria poder ajudar na limpeza, mas isso não vai servir como desculpa pra não ter que sair com ela.
– Não se incomode, vamos cuidar disso. Caso os garotos fiquem, podemos dar umas ordens a eles – Falou Helo – Mas você pode me responder uma coisa antes?
– O que?
– Qual é o seu problema com sua irmã?
– Sim. Qual é o problema? Eu, Helo e a Cassandra quase não conseguimos dormir de tanto pensar no que aconteceu entre vocês pra agirem daquele jeito. – Falou Nita.
– Eu só não gosto do jeito dela… é só isso. No mais, não sou amiga de alguém que te procura matando pessoas pela cidade, ainda mais quem controla uma sociedade de ladrões.
– Não pode ser só isso, né? – Perguntou Helo
– Se ao menos eu lembrasse alguma coisa do meu passado, poderia dizer. Acho que minhas memórias estão voltando pouco a pouco.
– Você tem alguma ideia de como perdeu suas memórias? – Perguntou Nita.
– Não. Única coisa que me lembro foi que eu saí daqui ainda pequena, na época em que meu pai começou a guerra contra o Reino Texra. Eu não lembro dos motivos, não lembro como a guerra começou e não lembro de nada da minha vida passada. Apenas lembro da minha vida em Sunfall e meu treinamento com Lumiere.
– Você foi treinada pela Lumiere!? – Nita e Helo perguntaram surpresas.
– Sim. Iniciamos meu treinamento assim que chegamos em Sunfall. Na época, ela ainda era discípulo do Mestre Umbra.
– Umbra…? – Nita perguntou confusa.
– Talvez você o conheça como Número Nove dos Soldados de Honra.
– Talvez eu nem era nascida nessa época. Mas já ouvi falar desses Soldados de Honra. – Falou Nita enquanto se levantava da mesa – Ao menos sei do misterioso fim que eles tiveram. Disso eu me garanto.
– Onde você vai? – Perguntou Helo
– Vou pegar um dos garotos pra me ajudar a trazer as nossas coisas da casa da Stacy.
– Mas nós não temos nada. Todas as roupas são da Stacy.
– Ela não vai querer as roupas – Me intrometi.
– Mas…
– Stacy não se mistura com pobre. Acredite, se não tirar as roupas que nós usamos de lá, ela vai colocar fogo em todas.
– Então devo me apressar. Vejo vocês depois. – Falou Nita já correndo para fora da cozinha.
– Bem… eu já vou reunir os garotos pra me ajudarem a limpar a mansão. – Falou se levantando da mesa – Te vejo depois. Boa sorte com a Farron.
– Obrigada. Sinto que vou precisar.
Assim que as mulheres se retiraram, a chaleira começou a apitar, significando que minha água já estava no ponto. Bastava adicionar folhas de chá-verde e aguardar. Com sorte, Farron não apareceria antes de eu sequer conseguir tomar meu chá matinal.
10:15
Em meu tempo livre, passei o resto da manhã observando o reino pelo terraço da mansão. O tempo estava virando e havia uma forte ventania batendo em meu resto, mas era bom ver facilmente quase o reino inteiro, do pântano até o vale, incluindo a colossal Torre onde meu pai estava aprisionado. No fundo, eu sabia que isso seria doloroso, mas imaginava se eu poderia visitá-lo e ver como ele estava. Se eu ao menos conseguisse lembrar com clareza o meu passado, ao menos poderia ver o rosto dos meus pais novamente.
– Ah, então ai está você!
Olhei para trás e vi Farron caminhando calmamente em minha direção. Minha paz acabava de morrer.
– Oi – Falei sem nenhum pingo de entusiasmo.
– O que faz aqui em cima? Está se escondendo de mim?
– Posso olhar um pouco a paisagem?
– Se não demorar. Temos que ir até a Vila Cósmica.
– Vila Cósmica?
– É uma vila situada nas montanhas ao oeste. Vamos ter que atravessar o vale.
– Hum… Tá. – Falei enquanto me inclinava e me apoiava no muro – E o que vamos fazer lá? Pensei que fossemos caçar aquela Mariposa gigante.
– Um informante da guilda conseguiu informações sobre essas criaturas. Preciso de escolta até lá.
– Se ele é da guilda, ele não pode trazer as informações até nós?
– Infiltrado na guarda da Vila torna isso impossível. Combinamos de nos encontrar lá por um breve período de tempo. Caso contrário, vão suspeitar de nossas ações.
– Você não tem controle sobre isso?
– Assim como a Vila, Reino Texra também possui membros infiltrados. Mas não, não tenho controle sobre isso. Apostar nossa imagem por causa do fracasso de um membro é um risco muito grande. Reino Texra torna isso ainda mais arriscado, ainda mais com a nossa história já conhecida.
– Guerra?
– Exato.
Fiquei pensativa por alguns segundos. Talvez fosse má ideia, mas não via nenhum outro momento melhor para tocar nesse assunto do que agora.
– Você lembra como começou a guerra? – Perguntei olhando para os olhos da Farron
– Você… Você realmente não se lembra? – Farron perguntou com um olhar preocupado no rosto, algo que eu não esperava ver.
– Não, eu realmente não me lembro. Desde que fui pra Sunfall, toda minha vida nesse reino foi apagada da minha mente. Sinto que estou recuperando aos poucos desde o momento que fugi do pântano, mas ainda assim não é o bastante.
Farron se encostou no muro de costas, mas ainda com atenção nos meus olhos.
– Certo, eu posso até contar. Mas me responda primeiro: Por que esse assunto repentino?
– Tive um sonho essa noite. Você estava nele, mas também pessoas familiares…
– Eu estava?
– Sim. Você estava bloqueando a porta da sala do trono com uma lança.
– Lança!? – Farron falou surpresa – Uau, essa deve ser uma memória bem antiga. Já tem mais de trinta anos que não toco em uma lança.
– Então você realmente era lanceira?!
– Muito antes de você sequer nascer. Troquei lança por espada poucos anos depois que você nasceu.
Então aquele sonho realmente era uma memória… Se eu quisesse descobrir mais, teria que contar o sonho todo.
– Continue com seu sonho – Falou Farron
– Bem, depois disso eu te vi com um homem de roupas e cabelo verde-
– ZATS!? VOCÊ LEMBRA DO ZATS!? – Farron falou gritando e me segurando pela roupa – Como você pode lembrar do Zats e não lembrar da sua família???
– Eu NÃO lembro do Zats! Eu nem sei quem é Zats! – Falei retirando as mãos da Farron da minha roupa – Eu apenas sonhei com esse homem. Você e ele estavam treinando com espadas. Você até o chamou de Abacate.
– Você realmente se lembrou do Zats… Meu Abacate…
– Por que você o chamava de Abacate?
– Porque ele lembrava um Abacate. Ao menos o exterior de um. Abacates são verde por fora. Como ele adorava a cor verde, eu o chamava assim.
– Eu não sabia que vocês eram namorados.
– Você era muito nova para ter noção de tal coisa. No mais, seria melhor se não fossemos. As coisas seriam diferentes se ele nunca tivesse aparecido na minha vida… – Farron falou com um olhar e tom de arrependimento.
– Por que?
– Ele teve envolvimento com a morte de nossa mãe. Ele e seu exército de assassinos. Eu nunca vou esquecer esse dia…
Aquela mulher… a rainha… era minha mãe…Como eu pude esquecer algo tão traumatizante que testemunhei com meus próprios olhos?!
– Por favor, conte. Eu preciso saber!
– Tem certeza?
– Qualquer coisa que ajude a despertar minhas memórias!
– Certo… – Farron se virou de frente para o muro e olhou em direção ao castelo – Nós estávamos treinando nesse dia, como sempre. Estava tão focada em ficar com ele que havia esquecido que teríamos uma reunião com Generais do Reino Texra. Talvez esse era o plano dele o tempo todo. Enquanto eu estivesse distraída, não poderia proteger a rainha. Mesmo se estivesse, as chances de conseguir impedir eram pequenas.
– Por que os guardas não agiram?
– Nenhum de nós esperava algo tão repentino. Eu só me dei conta de qual era o meu dever quando comecei a dar falta do Zats durante nossa pausa no treinamento. Zats estava demorando mais que o comum. Então, ouvi os gritos. Fui correndo pra sala do trono apenas para encontrar a mãe morta e o pai feito de refém. Quando pudemos fazer alguma coisa, os assassinos já haviam fugido. Conseguimos capturar um deles uma semana depois, apenas para descobrir que eram assassinos dos Lagartos Cristalinos, a mesma organização que Zats era chefe. Todo aquele encontro com Generais Texra não passava de uma fachada.
– Mas se descobriram quem foram os assassinos, por que ainda atacaram os Texra?
– Você acha que o pai nos ouviu quando falamos isso pra ele? A partir daquele dia, qualquer coisa que tivesse a marca Texra era algo para ser jogado na fogueira. E isso foi só o começo. Quem viveu aqui sabe os horrores que enfrentamos quando descobrimos que você havia desaparecido. Reviramos cada pedrinha de Blacksoul em sua busca. Invadimos casas, prédios e palácios, procuramos em terra e mar. Mas, foi tudo em vão. Quem diria que minha irmãzinha estaria no reino mais distante do leste. Não é mesmo, Aurora?
Todo esse caos foi causado por minha culpa, mas eu nunca quis sair do nosso reino… O que aconteceu naquele dia!?
– Você tem alguma ideia de como eu sumi?
– C-Como assim? Você vai contar o que você passou ou o que?
– Não, eu quero saber se você sabe como eu sumi. – Falei olhando seriamente para Farron.
– Isso é algum tipo de brincadeira? – Farron retribuiu o olhar com um ainda mais sério.
– Não, isso não é nenhum tipo de brincadeira. Eu nunca sairia daqui sozinha.
– Mas você até deixou uma carta se despedindo!
– Então você foi enganada, porque só fui aprender a escrever quando já estava morando em Sunfall. Pra mim, minha vida só começou em Sunfall. Qualquer coisa que eu vivi aqui são apenas fragmentos. É por isso que estamos tendo essa conversa. Eu quero lembrar quem eu realmente era e o que vivi.
Farron ficou extremamente confusa e pude perceber pelo seu olhar
– Olha, nós temos um trabalho a fazer, certo? Vamos logo. – Falou Farron enquanto já caminhava para a escada.
– Não quer continuar essa conversa? – Perguntei surpresa e também irritada, pois queria saber mais.
– Sinceramente? Eu não esperava essa informação. Ainda preciso de tempo pra entender isso. Na volta podemos conversar mais. Não podemos deixar o informante esperando. – Farron falou já descendo as escadas, me deixando sozinha.
Fiquei decepcionada de certo modo, pois esperava obter mais informações sobre meu passado, mas também surpresa em ver Farron cooperando ao menos uma vez na vida. Apesar de tudo, comecei a questionar se havia a chance de ter memórias falsas. Seria difícil distinguir qual é qual sem alguém para me ajudar.
Campo de Blacksoul
10:25
Com a missão em mente, Eu, Bulk e Farron partimos da cidade em direção ao Vale Real. Com sorte, teríamos uma viagem tranquila e sem surpresas. Poderia estar me enganando com pensamentos positivos, mas era tudo o que eu mais queria no momento. No mais, conheceria uma nova vila que eu nunca havia visto. Ao menos não que eu lembre.
A viagem poderia ser um pouco longa. Passamos por perto da Floresta da Vila Nether e logo estaríamos passando por perto da Torre de Encarceramento Strife. Imaginava se Farron iria se importar se eu desse uma parada apenas para ver como está nosso pai, mas tive certeza de que ela reclamaria. Por milagre, ela estava de bom humor e não queria mudar isso. Não apenas seu bom humor era um milagre, mas também não tivemos conflito e nem sequer nos encontramos com alguma das máquinas. O dia estava tranquilo. Tão tranquilo que chegava a ser estranho.
Após uma hora desde que saímos da cidade, já estávamos pisando no vale. Montanhas altas protegiam o longínquo corredor natural de pedras e terra marrom. O chão era como quebra-cabeças com as rachaduras criadas pelo calor e a falta de chuvas. Imaginava se esse lugar sempre foi assim ou isso é apenas um resultado da guerra.
Após meia hora, finalmente tivemos visão da Vila. Uma vila construída da base da montanha até o topo do planalto. Podia ver casas de madeira e casas de tijolos, rampas, casas suspensas por plataformas de madeira e algumas trilhas naturais de terra indo da base até o topo, com uma enorme torre no topo da vila.
– Estamos chegando. Não interaja e nem fale com ninguém. Seja alguém importante ou apenas um cidadão inocente. Deixe a situação comigo. Os habitantes não são tão gentis com estranhos. – Disse Farron
– Tudo bem. Fique à vontade. – Falei
– Precisa de minha ajuda com algo, Majestade? – Perguntou Bulk
– Não. Ataque apenas se nos atacarem. Qualquer outra situação que não nos envolva, não se intrometa.
– Entendido! – Falou Bulk
Por mais que entendesse a situação, fiquei incomodada com a natureza violenta desse povo. Poderia ser algum acontecimento passado? Algo relacionado a guerra? Talvez… algo recente? Não descobriria apenas pensando a respeito. Infelizmente, não poderia descobrir falando com alguém diretamente. Ordens são ordens e fui ensinada a não desrespeitá-las… Mesmo se as ordens vierem da Farron.
Subimos a primeira trilha de terra levando para a primeira plataforma e continuamos a subir até o topo da vila. Não pude deixar de olhar as pessoas ao meu redor. Por mais que Farron fizesse tanta questão de não interagir com os habitantes, todos pareciam ser bem tranquilos. Todo mundo estava cuidando de suas vidas, trabalhando ou cuidando de seus lares. Ainda era bom seguir as ordens. Não havia nada que me chamasse a atenção de todo modo. Era um lugar bem simples, sendo sua construção vertical a única coisa chamativa. Não era tão diferente de Strife, mas um pouco mais elaborado que nosso reino.
Continuamos a subir a montanha passando por várias casas suspensas, mas em nenhum momento saímos da trilha. De repente, Farron havia nos obrigado a parar no meio do caminho. Sem falarem nada, Bulk e Farron tiraram capas de suas bolsas e as vestiram junto com o capuz.
– Aurora, esconda-se. – Falou Farron enquanto amarrava a capa.
– Eu não tenho uma capa.
– O que? Você não trouxe nada?
– Não! Você não me avisou nada sobre capas! – Falei começando a vasculhar pelos meus bolsos.
– Tem mais alguma capa sobrando? – Perguntou Farron olhando para Bulk.
– Nenhuma, Majestade.
– Espera! – Falei tirando a máscara que Maryl havia me dado do bolso. – É o máximo que vou ter.
– Uma máscara de… o que é isso?! – Falou Farron.
– Maryl me deu isso hoje mais cedo. Não é o melhor, mas ao menos não vai expor meu rosto. – Falei colocando a máscara em meu rosto pela primeira vez.
– Majestade, perdão pela minha opinião não-requerida, mas acredito que Senhora Aurora não seja de tamanha importância para nossa missão. Ela nunca foi vista por essas regiões. Ninguém saberia se ela vem de Texra ou nosso reino. – Falou Bulk.
– E que quero que continue assim. Não quero ter surpresas desnecessárias porque uma mulher de cabelo branco vista nessa vila foi vista em nosso reino. Isso é, se acontecer algum problema por aqui. Não quero atenção.
– Mas toda a vila já nos viram! Sem falar que essa máscara não esconde meu cabelo.– Falei.
– Uns plebeus apenas. Eu não quero atenção próximo da torre. Aquela área é proibida para pessoas de fora. Por isso precisamos do informante. Ele vai nos colocar lá dentro. No mais, podemos cortar seu cabelo quando voltar. – Falou Farron.
– Vamos entrar lá?! – Perguntei.
– Não sei dizer. Acredito que não, mas se for o caso, apenas continue seguindo nosso plano. – Farron falou se virando e olhando para cima. – Subindo um pouco mais daremos de cara com os portões de segurança. O informante estará nos esperando ali.
– Entendi. – Falei.
– Então vamos… E espero que essa sua máscara funcione.
Após mais um pequeno conflito com Farron, continuamos a subir a montanha. Mas a única coisa que passava pela minha cabeça era a cena que estávamos encenando. Enquanto duas figuras encapuzadas param no portão, uma mulher de cabelo branco com uma máscara de coruja fica ao lado delas. Isso ia ser tão ridículo… mas se manter minha identidade escondida, não tem problema… eu acho.
Subindo mais nós finalmente chegamos no tal portão de segurança. O resto da beirada da trilha estava cercada por barras de ferro afiadas e a única passagem era apenas pelo portão principal, onde haviam dois guardas protegendo o lado de fora e mais um guarda no lado de dentro.
– Parados! O caminho em diante não é permitido! – Falou o guarda à esquerda do portão.
– O que querem aqui? Nunca vimos alguém vestido como vocês. – Falou o guarda à direita.
– Viemos ver a Estrela Prateada. – Falou Farron.
– Deixem-nos entrar. Eu cuido disso. – Falou o guarda atrás dos portões.
Sem exitar, os guardas abriram os portões e nós passamos sem problemas.
– Eu cuido daqui em diante. Me acompanhem. – Falou o guarda.
Continuamos a subir o resto da montanha acompanhando o guarda. O lugar realmente era enorme. Ainda não estávamos no topo mas já tinha visão de nosso reino. Me surpreendeu essa vilinha ser maior que nosso reino.
– Preto. – Falou Farron aleatoriamente.
– A cor da escuridão em que nos escondemos. – Respondeu o guarda.
– Temos quanto tempo até começarem a dar falta? – Perguntou Farron.
– Cinco minutos. Vai ser o suficiente. – Respondeu o Informante.
– Vamos ter que entrar na torre? – Perguntou Farron.
– Vamos. Mas não se preocupe, ficaremos no porão. Teremos privacidade lá.
– Ótimo. – Falou Farron.
Continuamos a subir até, finalmente, chegarmos no topo do planalto. A visão era surreal. Não apenas tinha visão de todo nosso reino, mas também tinha visão do Reino Texra inteiro, da entrada até a outra ponta. A visão do mar também era impressionante. Agora entendo porque Farron escolheu colocar um informante justamente aqui.
– Por que você trouxe Aurora com você? – Perguntou o Informante.
– Você me conhece? – Perguntei surpresa.
– Conheceria esse cabelo em qualquer lugar. Além do mais, eu te vi na guilda. Apenas não tivemos tempo de nos apresentar corretamente. Nem iremos. Meu nome não é importante.
Até os membros da guilda tem a personalidade arrogante da Farron. Não me surpreende ela ser a líder.
Entramos na torre o mais rápido possível e entramos no porão por um alçapão debaixo da escada caracol. Quando o Informante acendeu as luzes, encontramos uma mesa com mapas e vários documentos e papéis com anotações.
– Não podemos perder muito tempo, então serei direto. – Falou o Informante pegando alguns papéis da mesa. – Durante meu tempo livre eu pude observar bastante o que acontece pelo reino. Infelizmente, a situação é pior do que imaginávamos.
– Quão pior? – Perguntou Farron.
– Muito pior. – Falou o Informante jogando quatro papéis com desenhos na nossa direção.
Os desenhos se tratavam de outras daquelas criaturas gigantescas. Das quatro, pude reconhecer apenas duas: A mariposa que vimos na Vila Nether e uma cobra-marinha com tentáculos, provavelmente a coisa que atacou nosso navio. As outras duas se tratavam de algum tipo de aranha gigante e algo que não sabia exatamente o que era. Seu corpo lembrava uma abelha, sua calda era de escorpião, havia seis pernas e sua cabeça lembrava um besouro.
– Mas que droga são essas?! – Perguntou Farron surpresa.
– Nossos inimigos. E, aparentemente, extremamente perigosos. Mas não parecem terem união com ninguém daqui. – Respondeu o Informante.
– O que quer dizer? – Perguntou Farron.
– Eles não estão do nosso lado, mas também não estão com os dragões. Aliás, alguns deles derrubaram dragões do céu. Eu nunca havia visto tamanha demonstração de força antes.
– Certo. Isso é algo para se preocupar… Algo mais? – Perguntou Farron
– Nosso Informante de Texra me enviou essa mensagem alguns dias atrás. – Falou o Informante entregando uma carta para Farron.
– “Tive contato com um homem estranho, não era de jeito algum um habitante Texra ou Strife. Ele estava sozinho, andando pelo bastião. Ele não parecia estar procurando por alguém, mas apenas conhecendo a área. Quando tentei me aproximar ele desapareceu na minha frente em um piscar de olhos! Estarei continuando em meu posto, mas, quando receber esta carta, avise a Rainha IMEDIATAMENTE!” – Dizia a carta.
– Acredito que o homem que ele mencionou esteja envolvido nisso. – Falou o Informante.
– Não é o primeiro que vejo. Na verdade, pode ser a mesma pessoa. Bulk pode confirmar isso, ele estava conosco quando vimos alguém desse tipo. – Falei.
– Seria ideal se o Informante de Texra tivesse descrito a aparência do homem, mas sim, nós realmente encontramos alguém desse tipo, Majestade. – Falou Bulk.
– Então estamos enfrentando máquinas com donos? Ótimo. Tudo que eu precisava. – Falou Farron colocando a carta na mesa. – Mas a questão é: Onde podemos encontrar essas coisas?
O Informante pegou todos os papéis e os colocou em um monte. Logo em seguida, ele abriu completamente o mapa e nós nos aproximamos.
– Eu os vejo em momentos aleatórios e em dias aleatórios, mas parece que os esconderijos deles são apenas um. A Mariposa vive no ar e, as vezes, volta para a Vila Nether. – Falou o Informante apontando para a Vila Nether no mapa. – Eu não sei exatamente onde, mas isso deve se esconder próximo do fim da floresta. – Falou antes de mover seu dedo na direção leste, na Floresta dos Vazios. – Aqui eu acredito que seja o único ponto de ação da Aranha. Só a vi sair da floresta apenas uma única vez. Talvez fosse mais fácil para vocês atacarem aqui primeiro. – Falou batendo o dedo na floresta. Já o próximo podemos ter sérios problemas para encontrar. – Falou apontando para o mar. – Eu vi essa criatura diversas vezes, mas nunca o vi fora do mar, em terra. Então acredito que isso apenas se esconda no mar. Obviamente, o mar é gigante, então será uma busca perigosa e cansativa.
– Acredito que isso não vai longe. Fomos atacados por essa criatura quando chegamos próximo do continente. Talvez isso só ataque barcos e navios. – Falei.
– Se esse for o caso, então terão que criar uma forma de distração. Não vou arriscar a vida de ninguém pra entrar no mar aberto. – Falou Farron olhando para mim e Bulk.
– Boa sorte com as estratégias. Agora, o último. – Falou o Informante apontando entre o Vale e Reino Texra. – A última criatura foi vista recentemente. Eu o vi por aqui, entre o vale e o reino. Felizmente, isso nunca chegou a pisar na cidade, mas evitou qualquer contato com humanos. Depois disso, nunca mais o vi.
Estava começando a pegar um padrão a respeito dessas máquinas. Por algum motivo, todos estavam evitando contatos com humanos. Se eles quisessem nos destruir já teriam dado um jeito, mas preferem passar maior parte do tempo escondidos. Isso podia ser tanto uma armadilha ou há algum plano maior se desenrolando.
– Tem algo errado. Parece que todos eles estão mais se escondendo do que entrando em ação! – Falou Bulk.
– Ainda bem que eu não sou a única que pensou o mesmo. – Falei.
– Foi o que pensei também. E, honestamente? Isso não me acalma. Eles estão planejando algo e só estão esperando o momento certo para entrarem em ação. – Falou o Informante.
– Mas que droga… O que eles querem? Se não estão com os dragões… – Resmungou Farron achando que nós não iriamos ouvir.
– Seja lá o que for, desejo sorte para todos. Preciso voltar agora. Vão começar a dar minha falta. – Falou o Informante começando a recolher o mapa e papéis restantes.
– Certo. Muito obrigada pelas informações. Aurora, Bulk, vamos. – Falou Farron colocando seu capuz novamente.
- Esperem. Vou precisar tirar vocês pelo portão principal. – Falou o Informante.
– Eles levam tão a sério a segurança daqui? – Perguntou Farron.
– Digamos que estão com trauma desde a guerra. Então sim, bem a sério.
Vale Real, Strife
11:35
Após sairmos da Vila, seguimos direção de volta para a Mansão. Infelizmente, o céu aberto havia sido tomado por muitas nuvens. Seria uma viagem menos prazerosa do que a viagem de vinda.
Agora que tínhamos uma noção do perigo que iriamos enfrentar, era hora de colocar as estratégias na mesa e decidir como vamos cuidar dessa bagunça. Depois disso, precisava colocar Farron contra a parede. Nós ainda não terminamos aquele assunto!
Após meia-hora, havíamos chegado na entrada da cidade. Mas, de repente, tivemos que parar no caminho devido a um forte estrondo vindo do céu nublado. Antes que pudéssemos entender o que havia acontecido, um dragão caiu morto no mar com apenas metade de seu corpo restando. Eu e Farron nos olhamos e, por um momento, senti que havíamos pensado a mesma coisa: “Vamos avisar os outros”!
Sem perder tempo, corremos montanha acima e seguimos direto para a mansão, onde encontramos todo mundo olhando confusos para o que havia acabado de acontecer.
– O que foi isso!? – Perguntou Leon
– Eu não sei, mas vimos um dragão morto cair no mar. Preciso que todo mundo fique em alerta. – Respondi. – Onde estão as crianças?
– Chess está na biblioteca. Meryl estava lá, mas acho que foi pro quarto dela. – Respondeu Nita.
– Tá, cuida da Chess. Eu vou ficar com a Meryl. Se for preciso, colocamos elas em algum lugar seguro. – Falei.
Corremos escada a cima e, enquanto Nita seguiu para a biblioteca, eu corri para o quarto da Meryl. Para minha surpresa, ela não estava lá. Então comecei a olhar os outros cômodos; quartos, cozinha, salas e, então, o terraço. Lá estava ela, observando o reino parada.
– MERYL! – Falei correndo em direção a ela.
Sem ter muita reação, Meryl apenas se virou na minha direção e me olhou indiferente.
– Finalmente chegaram. – Falou Maryl.
– O que você tá fazendo aqui? É perigoso aqui fora! – Falei alto, mas sem querer fazer parecer que estava brigando.
– Desculpa. Achei ter ouvido alguém me chamar.
– Aqui em cima?!
– Não. Dali. – Falou Maryl apontando para o oeste.
– Das montanhas? – Perguntei confusa.
Maryl apenas negou fazendo um gesto com a cabeça.
– Da torre?
Dessa vez, ela afirmou… Mas… como…
– Tem certeza que ouviu alguém te chamar dali? É muito longe.
– Ouvi com clareza, como se estivesse falando em meu ouvido.
De repente, Maryl caiu no chão com as mãos nos ouvidos e pude ouvir mais estrondos. Quando olhei para o mar, vi mais dragões caindo. E então outro. E mais outro. Então, de repente, vi o céu ser iluminado por uma chuva de raios, um mais barulhento que o outro. Estava chovendo dragões mortos do céu com cada raio que era disparado. As luzes era tão forte que, mesmo com o tempo ficando cada vez mais nublado, podia ver de onde estavam vindo. Coincidentemente, eram todos os lugares que o Informante havia nos contado, incluindo o mar. Então essas são as tais máquinas…
De repente, Maryl desmaiou com as mãos tapando os ouvidos. Sem perder tempo, a levei para dentro da mansão e a coloquei na cama do seu quarto. Quando os disparos cessaram, Maryl, ainda inconsciente, tirou as mãos dos ouvidos mas ainda permaneceu inconsciente. Mas que droga está acontecendo?!
Me reuni com o grupo na entrada para proteger a mansão, mas, após cinco minutos, os disparos haviam cessado de vez. Não ouvimos dragões nem estrondos. Tudo parecia ter voltado ao normal.
– Acabou? É isso? – Perguntou Nita.
– É o que parece. O que foi isso??? – Perguntou Alvor.
– Foram as máquinas. Os estrondos foram disparos de raios. Eles derrubaram vários dragões. – Falei.
– Como você sabe? – Perguntou Farron.
– Eu estava no terraço falando com a Maryl. Pude ver os disparos com clareza lá de cima. E esses disparos vieram exatamente de onde o Informante nos avisou.
– Então as informações estavam certas… – Falou Farron. – Mas não podemos deixar essas coisas por ai por mais um dia. A partir de amanhã, começamos nosso ataque! Aurora, reúna seus melhores. Irei escolher os meus para ajudarem. – Falou já indo até a saída.
– Certo… pode deixar… – Falei decepcionada. Ainda havia coisas para perguntar.
– Nos vemos amanhã. Tchau. – Falou Farron já saindo e fechando a porta.
– Bem… Ao menos podemos voltar a limpar. – Falou Helo.
– Vamos! Todo mundo voltando aos afazeres! – Falou Nita gritando com todo mundo.
Mesmo com todo mundo voltando aos afazeres, a única coisa que me passava pela cabeça era: Por que haviam tantos dragões vindo para cá?
Nenhum comentário:
Postar um comentário