sexta-feira, 22 de maio de 2020

Capítulo 6 - Família

~~Legends Hunter~~


Capítulo 6

Família

Beco

??:??

Havia acordado mais uma vez naquele mesmo com as mesmas figuras à minha frente: Um homem caído e uma mulher ao seu lado chorando. O mesmo pesadelo que já estava cansada de ver noite após noite.

Dei alguns passos em direção ao casal, mas, de repente, aquele beco se transformou em uma rua e o casal estavam na entrada de um hospital. Comecei a olhar ao meu redor para ver se encontrava algo mais estranho do que acabara de acontecer, mas tudo parecia relativamente normal. Dei mais alguns passos em direção ao casal. Quando estava próximo de subir alguns degraus para entrar no hospital, paredes de fogo se ergueram do chão. O fogo não me queimava, mas não me deixava passar. Quando me virei, Folger estava atrás de mim, mas era o Folger que eu conhecia, um humano, não um zumbi.

F-Folger?! O que você tá fazendo!?

– Não era medo e cicatrizes dolorosas que queria te passar. Era pra ser um dia especial.

– Eu sei! Eu queria que você estivesse aqui! – Gritei

Mas eu estou, sempre estive e estarei. – Folger falou

Folger segurou minha mão e, de repente, seu corpo começou a se decompor, expondo aquele monstro zumbificado de antes. Tentei gritar, mas não sentia minha boca, como se nunca estivesse ali. Folger aproximou lentamente e rosas apareceram em nossas mãos, mas os espinhos estavam me atravessando. Não importa o que eu tentava fazer, estava presa a ele.

Estaremos juntos para sempre, certo? Não era esse o nosso juramento?

Não tive outra reação além de confirmar acenando com a cabeça com os olhos cheios de lágrimas que se recusavam a descer.

Então por que deseja se livrar de mim?

Senti minha mão queimando por um momento. Quando olhei, as rosas estavam pegando fogo e queimando nossas mãos.

Eu só quero o seu bem, mesmo que isso custe algumas vidasFolger falou aproximando seus lábios dos meus – Eu faço isso por você!

– SAM, ESPERO QUE NÃO ESTEJA COM VONTADE DE TOMAR BANHO AGORA!


Casa da Amy

07:01

Acordei com o rosto molhado de lágrimas, confusa, assustada e com uma terrível dor de cabeça com o grito da Amy. Tamanho desespero fazia qualquer um achar que a casa estava pegando fogo ou que estavam tentando nos roubar!

O que foi? Por que essa gritaria toda?! – Perguntei com a voz cansada.

Espero que não esteja com vontade de tomar banho. O chuveiro queimou e quase morro com o susto que tomei! Você não vai acreditar

Enquanto Amy falava, voltei a repousar a cabeça no travesseiro enquanto a mesma explodia e eu sofria em silêncio.

– …Ai eu liguei o chuveiro e BOOM, só vi aquela luz laranja saindo de dentro do chuveiro. Desliguei na hora!

– Ainda bem que você é bem ágilFalei cansada. No fundo, estava preocupada, mas minha voz não fazia jus ao sentimento.

Isso foi tão bizarro! Eu nunca vi um chuveiro fazer isso antes!

– É, com certeza estranhoFalei colocando a mão na cabeça em uma tentativa falha de amenizar a dor.

Ressaca tá batendo?

– Igual um lutador de MMA.

– Eu já vou fazer o café. Se quiser, tem umas frutas na cozinha. Quer alguma?

– Não não, eu já vou levantar de qualquer jeito.

Amy saiu do quarto e foi para a cozinha. Enquanto isso, tentava arrumar forças para levantar da cama e ir ao banheiro. Já estava começando a sentir que meu estômago também não ia me ajudar. Quando finalmente consegui me levantar, senti meu estômago e minha cabeça fazendo uma união de dores. Os dois estavam mais unidos que eu e meus pensamentos!

Assim que saí do quarto, senti meu estômago piorando cada vez mais. Até que, então, senti tudo voltando. Corri direto para o banheiro e não perdi tempo fechando porta. Fui direto com a cabeça na privada e deixei tudo sair.

Parece que alguém vai ficar sem beber por um tempo. – Amy falou da cozinha. – Você devia ter bebido um pouco de água antes de sair enfiando latinha atrás de latinha goela abaixo.

– UGHComo você sabe dessasFalei antes de ser interrompida por mais uma rodada de “remoção de veneno”.

Eu não sou novata nesse assunto. Termina aí e vem aqui na cozinha depois. Vou cortar umas maçãs pra você.

Mesmo em uma situação constrangedora como essa, ela ainda é compreensiva e me ajuda nesse momento. Que mulher…

Assim que senti meu estômago melhorando, finalmente pude tirar a cabeça de cima da privada, lavar minhas mãos e meu rosto e ir até a cozinha. Mesmo caminhando igual um zumbi, ainda tive forças para me apoiar no balcão. No mesmo instante, Amy pegou uma tigela com várias fatias de maçã e colocou na minha frente, voltando sua atenção ao fogão. Peguei uma fatia e coloquei na boca, mas o gosto havia sido arruinado pelo gosto de vômito que ainda estava na minha boca. Não sei se ia conseguir comer a tigela toda, mas esperava ao menos que isso passasse.

Manhã agitada, não? – Falou Amy

Manhã, noite, durante sono difícil um momento de sossego. – Falei antes de pegar mais uma fatia de maçã.

Desculpa então

Pelo quêFalei olhando confusa – Ah, não, você não tem nada a ver com isso.

– Quer dizer que te arrastar pra fora de sua casa, te deixar presa na minha, te arrastar pra casa de uma conhecida e te embriagar não tem nada a ver comigo?

– Achava estranho no começo… mas agora estou entendendo.

– Tá?

– Sabe o que mais? Eu nunca disse que não gostava de estar com você. Acho que não me incomodo de você me arrastar por ai. Contanto que seja com você, não vou me importar. – Falei antes de pegar mais algumas fatias de maçã.

No mesmo instante, Amy parou de cuidar do fogão e começou a me olhar com um enorme sorriso bobo no rosto.

Desculpa, mas acho que levei a garota errada. Quem é você?

– Ah não, não começa. – Falei escondendo meu rosto.

A Samantha que eu conheço não é gentil desse jeito. O que foi que aconteceu? Já sei, foi a bebida, né?

– Eu não posso te elogiar?

– Pode, claro que pode. Eu só não esperava que fosse.

De repente, senti um forte aperto nos meus ombros. Quando tirei as mãos do rosto, Amy estava me abraçando e me dando beijos na bochecha até encostar sua cabeça na minha.

Eu to brincando. Obrigada. Essas palavras realmente me animam. – Falou Amy me apertando cada vez mais. – Eu gosto de ficar com você também. Por mais que seja difícil, você é quem me deixa mais feliz apenas por estar por perto.

O-Obrigada agora me solta preciso respirarFalei me esforçando para que as palavras pudessem sair da minha boca.

Esqueci que a entidade das trevas é desacostumada a receber afeto da sua amiga favorita. Um dia você vai gostar. – Falou Amy me soltando e indo em direção ao fogão. – A água já tá no ponto mesmo. Já já o café tá pronto.

– Ótimo. To precisando muito disso.

Amy pegou a garrafa de café, coador e o pó de café e começou a despejar a água. Não via a hora que esse café estivesse pronto e essa dor de cabeça pudesse passar de vez. As frutas estavam ajudando pelo menos.

Já que não se incomoda de eu te arrastar por ai, quer ir comigo até o Depósito?

– Fazer o que por lá?

– Preciso consertar o chuveiro, esqueceu?

– Ah… sim, claro. Vou junto, ai podemos passar na casa dos meus pais na volta.

– Você realmente quer fazer isso? Quer mesmo morar aqui?

– Sim, quero.

– Tem certeza que quer mesmo? Essa escolha não tem volta.

– Sim, tenho absoluta certeza. Achava a ideia estranha no começo, mas consigo me ver melhorando junto com você. No mais, você já me ajudou tanto nesses dias apenas estando ao meu lado do que meus pais me ajudaram a vida toda.

De repente, Amy começou a dançar de felicidade, quase acertando a garrafa de café no processo.

Sabia que você ia perceber isso!

– Ainda acho errado falar mal deles… mas é a dura verdade. Eles apenas cobraram de mim a vida toda e nunca me deram um pingo de suporte ou confiança. Nunca quiseram me ensinar a viver e nunca me deram suporte quando Folger morreu. Não vou me importar de sair de lá. Nem um pouco.

– E de onde veio essa epifania?

– Você.

– Fico feliz em saber que libertei mais uma alma do caminho do caos!

Mais uma?

O Café tá pronto! – Amy falou pegando a garrafa e colocando em cima do balcão. Logo depois, foi até o armário pegar xícaras.

O que você quer dizer com “mais uma”? – Perguntei extremamente confusa com essas duas palavrinhas.

O que? Ah, não é nada. Apenas fazendo clichê.

– Clichê?

– É. Sabe, tipo em desenhos. “Oh, mais uma vez o grande herói salvou a cidade do caos iminente!” – Falou Amy imitando um narrador de desenho animado.

Ah entendi.

– Seria bom se eu pudesse salvar alguém de verdade como uma heroína... Mas só em filmes mesmoFalou Amy ficando levemente travada em pensamentos até finalmente voltar a si. – Enfim, vamos tomar café. – Amy falou colocando nossas xícaras no balcão.

Passamos ao menos três horas dessa manhã conversando e assistindo TV enquanto tomava algumas xícaras de café até bater a hora em que o Depósito abriria. Odiava ter que sair sem ao menos tomar banho, mas como a situação não estava boa, não podia reclamar. Ao menos ainda estava com minha melhor roupa e ainda estava apresentável. Não pretendíamos ficar muito tempo na rua de qualquer forma. Isso seria rápido. A única preocupação seria me encontrar com meus pais A ansiedade que estava me atacando em pensar no que eles falariam ou fazer me matava por dentro.

Assim que bateu o horário, nós saímos do apartamento e fomos até o ponto de ônibus. Não seria uma viagem tão demorada quanto a viagem de ontem, mas não seria rápida. Vamos ao depósito Depósitos são grandes.

Depósito

10:25

O depósito estava bem movimentado nesse dia. Era um pouco difícil andar pelos corredores estreitos sem esbarrar em alguém. Felizmente Amy sabia onde os chuveiros elétricos estavam. Infelizmente, Amy era do tipo que gostava de olhar coisas.

Olha que bonito esse interruptor! Lembra você. – Amy falou segurando um interruptor com estampa de gatinhos.

Uhum… – Resmunguei entediada e querendo voltar o mais rápido possível.

Continuamos a caminha pelo depósito até, finalmente, encontrar a seção dos chuveiros e duchas. Não havia nenhum que me chamasse atenção mas, para Amy, cada um era único e diferente do outro. Cada um que ela pegava, fazia questão de olhar tudo a respeito. Por mim, apenas pegaria o mais barato e deixaria o eletricista instalar. Não gostava de me envolver com coisas que não tenho conhecimento.

Qual você acha melhor? – Amy perguntou segurando dois modelos diferentes.

Tanto faz. – Falei com pouquíssimo interesse.

Resposta inválida. Tente novamente. – Amy falou imitando um robô.

Não faço ideia.

– Então, você sabe que você vai tomar banho com o que escolher, né?

– Você sabe qual é o melhor. Por que tá me perguntando qual é o melhor?!

Amy me encarou com por alguns segundos com os olhos espremidos.

Porque conta de luz e água existem, como também banhos frios no inverno, grossa! – Amy falou pouco antes de sair andando com um dos chuveiros na mão.

Idiota! – Falei baixo para eu mesma ao perceber que havia irritado ela de novo.

Segui Amy até o caixa, ela estava caminhando mais rápido que o normal e esbarrava nas pessoas propositalmente. Eu REALMENTE a irritei! Até na fila ela estava dando um jeito de empurrar alguém! Se eu não fizesse algo logo, seria mais um daqueles dias.

Amy, desc- – Falei tentando me desculpar, mas Amy apenas reagiu fazendo um sinal de “Pare” com a mão. – Mas eu- – Tentei novamente, mas fui interrompida novamente. – Amy me escu-

– Depois a gente conversa – Amy falou bem próxima do meu rosto.

Mas-

– DEPOIS!

Receber broncas da Amy no depósito parecia as broncas que minha mãe me dava… exceto que Amy nunca me bateria até sangrar. Mas a vontade de fugir era a mesma.

Assim que saímos da loja, as expressões da raiva da Amy pareciam ter piorado. Devo ter feito ela passar muita vergonha. Isso era ainda pior!

Posso falar agora? – Perguntei.

Vou ouvir as mesmas desculpas de novo ou só vai me dizer por que foi grossa daquele jeito?

Eu não queria ser grossa. Eu só fiquei incomodada.

Incomodada com o que?! Eu só perguntei qual você achava melhor!

– Sim. Eu não entendo nada dessas coisas!

– Quando eu digo “melhor” eu quero dizer qual você acha que seria melhor pra levar ou, no mínimo, qual parecia mais bonito. Não precisava disso tudo!

Oh… – Falei me sentindo absolutamente estúpida. – Desculpa. Achei que era outra coisa.

– Ah… – Amy suspirou e sua expressão de raiva mudou para algo entre “Que garota estúpida” e “Meu deus, que garota estúpida!”. Ela já esteva sem muita paciência para as minhas idiotices Tudo bem. Já passou. O que aconteceu lá ficou por lá. Vamos voltar pro apartamento.

– Não quer ir na minha… – Parei um pouco para pensar e corrigir meu erro. – Na casa dos meus pais? – Perguntei.

Quero mas… admito que estou um pouco ansiosa.

– Por que?

– Não sei… é estranho. Estou com uma sensação horrível a respeito disso. Não é de hoje.

– Eu também estou um pouco nervosa, mas preciso tirar esse problema do nosso caminho.

– Você chamando seus pais de “Problema”!? – Amy falou muito surpresa. – É, acho que eles estavam certos. Ando te influenciando demais. – Terminou.

– Isso não tem nada a ver com você.

– Deve ter um pingo de influência ai. Mesmo se não for, é bom ver você tendo seus próprios pensamentos. Você ainda vai evoluir bastante.

Ao mesmo tempo que a confiança de Amy me animava, me entristecia, pois era difícil eu ter muitas ideias próprias. Passei a vida toda me baseando em ideias de terceiros que ter ideias próprias sempre as faziam parecer ser as erradas. Nesse caso, essa ideia era mais da Amy do que minha. Mas, se eu quisesse melhorar e tirar Folger do meu caminho, teria que seguir essas ideias a risca. No mais, trazer felicidade para Amy era o que mais me importava no momento.

Obrigada pela confiança. – Falei forçando um sorriso.

Mudança de planos então! Vamos para a casa dos seus pais? – Amy perguntou animada, quase como se estivesse imitando algum personagem heroico de filme.

Claro! – Respondi tentando imitar a mesma animação, mas fracassando.

Então vamos!

Amy saiu correndo pela calçada com a sacola de compras na mão e os braços jogados para trás, mas eu fiquei para trás apenas observando o momento infantil dela.

O que foi? Vamos! – Amy gritou olhando para trás.

Se for pra correr, eu vou ficar por aqui mesmo! – Falei enquanto caminhava lenta e calmamente atrás dela.

Felizmente, a minha ca… A casa dos meus pais não era longe do depósito. Levaria, pelo menos, meia-hora de caminhada para chegar lá, mas não gastaríamos nada com ônibus desnecessário.

Então, já sabe o que vai dizer pra eles? – Amy perguntou.

Não… meu medo é congelar e falar nada.

– Eu te dou uma força se precisar. Mas, a princípio, preciso que tente fazer isso sozinha.

– Você vai me ajudar se alguma coisa acontecer?

– Óbvio!

– Obrigada… – Falei duvidosa. Não de sua capacidade de ajudar, mas se ela conseguiria ajudar.

Meia-hora depois, estávamos no bairro de casa. O ambiente continuava o mesmo que sempre foi, mas, de alguma forma, havia algo diferente.

Não estou com um bom pressentimento… – Amy falou.

Nem eu.

Quando finalmente chegamos em casa, percebi uma mudança logo de cara: Havia cercas no nosso quintal e havia arames envolta do meio e topo das cercas.

Eles não gostaram nada do seu sumiço…

Não consegui responder o comentário da Amy. Um súbito medo me atacou com força. Havia mudado de ideia, queria voltar para o apartamento.

Mudei de ideia, vamos voltar! – Falei já me virando.

Não não não! – Amy falou me segurando pelo braço. – Você não me fez andar até aqui pra voltar.

– Não vai dar, não posso. Algo muito ruim vai acontecer se bater naquela porta. Estou apavorada… – Falei tentando não chorar.

Vou estar com você. Não se preocupe. Faremos isso juntas! – Amy falou segurando meu braço e olhando nos meus olhos.

Você não precisa fazer isso… – Falei com algumas lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

Se essa é sua escolha, a minha é estar com você. – Amy falou me puxando e dando um forte abraço. – Nós vamos acabar com esse pesadelo juntas. – Amy terminou me abraçando.

Certo… – Falei enxugando as lágrimas.

Seguimos de mãos dadas até a porta da casa dos meus pais. Passamos pelas cercas e paramos na porta da frente, mas fomos surpreendidas por latidos ensurdecedores de um pitbull enlouquecido acorrentado no quintal. Nós nunca tivemos um cachorro…

Havia algo muito errado acontecendo… De repente, a porta se abriu e demos de cara com meus pais. Antes que pudéssemos ter alguma reação, meu pai me agarrou pelo braço e me puxou para dentro, mas Amy continuou me segurando pelo outro braço.

ME SOLTA!!! – Gritei tentando me soltar do meu pai.

SOLTA ELA! – Amy gritou.

VOCÊ solta ela! – Minha mãe gritou puxando uma pistola silenciada de seu bolso.

Eu congelei por completo. Pude sentir meu coração ter parado por um breve segundo seguindo de uma corrente fria que passou pelo meu corpo. Mesmo com a arma não ter sido apontada na minha direção, eu sabia que isso era um lado extremo dos meus pais que eu não conhecia.

É bom você soltar ela nesse instante ou não vou pensar duas vezes antes de puxar o gatilho. – Minha mãe falou com a arma apontada na direção da Amy.

Amy parou de tentar me puxar, pude notar sua expressão de medo e como ela também havia congelado. Porém, ela ainda se recusava a me soltar. Seus olhos estavam se movendo freneticamente, como se ela estivesse procurando alternativas para essa situação.

Amy, me solta! – Gritei.

Um. – Minha mãe começou a contar.

Amy ainda estava me segurando. Pude ouvir ela respirando alto.

Dois. – Minha mãe continuou.

AMY! – Gritei mais uma vez.

Tr-

Antes que minha mãe pudesse terminar, eu me puxei das mãos da Amy enquanto ela estava distraída e fui agarrada pelos ombros pelo meu pai. Porém, no que me puxei, Amy deu alguns passos para frente e minha mãe disparou, mas acertou o chão, bem próximo dos pés da Amy.

Eu sabia que você voltaria por conta própria. Eu conheço minha filha. Felizmente, eu sei como eu criei minha filha. – Meu pai falou enquanto apertava meus ombros com força. – E, para o seu bem, sua degenerada, é bom que você não pise e nem passe na frente da nossa casa novamente. Na próxima, não vai ter contagem. – Terminou.

Lembre-se que esse é um bairro sossegado. Ninguém vai saber ou ouvir se eu atirar em você. No mais, duvido que alguém sequer dará falta se sumir com seu corpo. – Minha mãe complementou.

Eu vou te tirar daí, Sam. Eu pro-

– Não, você não vai. Temos câmeras, um cão de guarda e todas as portas e janelas estarão fechadas quando nós precisarmos sair. – Meu pai falou. – Enquanto você, mocinha. Direto pro seu quarto. Daqui a pouco eu vou subir e te ensinar a nunca mais fugir. – Meu pai terminou me empurrando em direção à escada, me fazendo cair nos degraus.

Antes de subir, eu olhei com os olhos cheios de lágrimas para Amy e ela me olhou furiosa, mas sabia que não era de mim que ela estava com raiva. Dessa vez, eu podia sentir a mesma raiva que ela. Mas, sendo fraca, eu não poderia fazer nada além de aceitar.

Subi a escada até o meu quarto e percebi que eles já estavam prontos para me receber de volta. A janela do meu quarto havia sido bloqueada com madeira, tendo apenas algumas brechas para a luz do sol entrar. Olhei o banheiro e o quarto dos meus pais e, por mais que não estejam bloqueadas por madeira, percebi que eles haviam instalado grades de ferro nas janelas. Eu havia me jogado direto em uma armadilha. Meu medo do que viria assim que Amy fosse embora estava me enlouquecendo. Nada havia acontecido ainda, mas estava apavorada com o que viria.

Corri para o meu quarto e fechei a porta. Então, pude ouvir a porta da frente batendo e múltiplos passos na escada. Tentei bloquear a porta com meu corpo, mas meu pai simplesmente empurrou com força, me lançando para o chão.

Meu pai entrou e começou a me dar tapas no rosto enquanto eu tentava me proteger com as mãos. Minha mãe entrou logo em seguida, segurou meus braços e os levou até minhas costas e permaneceu me segurando por muito tempo enquanto meu pai me batia com tapas no rosto, socos nos peitos e barriga. As vezes, minha mãe entrava na “diversão” com chutes nas costas, torcendo meus braços e puxões de cabelo.

Isso continuou por quase dez minutos… foram dez minutos que pareciam horas… dez minutos sendo agredida violentamente e psicológicamente de formas que nunca havia sido agredida antes. Eu tinha consciência da natureza agressiva de meus pais, mas não esparava que fossem tão longe.

Quando terminaram, eu já estava “morta”. Caí no chão como um saco de merda, respirando com muita dificuldade, o corpo dolorido, cortes, o rosto molhado de lágrimas e meu psicológico em ruínas. Minha mãe foi a primeira a sair do quarto, deixando meu pai para fechar a porta. Mas, antes de sair…

Isso foi só o começo. Quem sabe agora você aprende a nunca mais fugir. Você perdeu sua liberdade. Sem amigos, sem saidinhas, sem telefone, sem internet e sem celular! – Meu pai mexendo nos meus bolsos e tirando meu celular. Logo depois, jogou no chão e começou a pisar em cima, e então, chutando o celular quebrado na direção do meu rosto. – Da próxima vez, vou fazer você se arrepender de ter nascido! – Terminou fechando a porta.

Pude ouvir o som da tranca se fechando assim que ele fechou a porta. Por fim, estava sozinha. Não parava de chorar, não parava de tremer, não parava de soluçar. Estava trancada em meu quarto, sem luz e largada no chão. Essa era primeira vez… apenas a primeira vez. Já desejava não ter nascido.

No chão, me enrolei em posição fetal, chorando e tocando as partes que mais doíam. Até que, por um momento, senti um vento frio me abraçando.

Folger… se você estiver aqui… nunca desejei tanto que estivesse com você agora. Por favor… faça isso acabar...

Passei muito tempo chorando e aquela presença não me deixou sozinha. Eventualmente, eu apaguei. O pesadelo parecia ter acabado por um momento. Mas havia apenas começado.

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